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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Os homens das mantas


 Outro episódio para recordar aqui é o da invasão dos «homens das mantas». Em 5 de Outubro de 1911, quando se completava um ano sobre a implantação da república, em Lisboa, entraram pela raia próxima cerca de cento e cinquenta monáqruicos, cada qual com a sua espingarda e uma grande manta ao ombro. À frente da coluna, a bandeira azul e branca do regime deposto. Foi a chamada «incursão de Vinhais». Os invasores entraram na vila e acreditavam sinceramente que a população das aldeias transmontanas, tradicionalmente legitimista e amante da realeza, viria para a rua aclamar os libertadores, dando início a uma inctível avalancha popular. A decepção não podia ser mais completa. Nem sequer lhes chamaram «monárquicos», ou partidários do rei, ou cousa semelhante. Apenas os «homens das mantas». Sem apoio, completamente sós, voltaram à fronteira e internaram-se de novo em Espanha.
 Eram republicanos os aldeões de Vinhais em 1911? Eram monárquicos? A minha opinião é que eram gatos escaldados. Os comandantes da incursão não lançaram nas cartas do Estado-Maior um elemento que podia ser decisivo: o concelho de Vinhais é, de todos os de Trás-os-Montes, o que maior contingente deu para os autos-de-fé. Vila fundada na época dioniosíaca, povoou-se de filhos de Israel e foram eles que puseram aquelas encostas de pedra nua a dar o sumo da uva, e transformaram desertas serranias em lavouras úberes. Depois de 1500 começou a perseguição. Um desabafo imprudente, um dito infeliz, podiam provocar a denúncia, e a denúncia era o início de um longo martírio que acabava no auto-de-fé.
 Esta gente não tem nada de estúpida; basta meter conversa e percebe-se imediatamente que estamos perante uma população de excelentes qualidade mentais. Mas até hoje ninguém achou estranho que aos paladinos do rei exilado não tenham dado outro nome que esse epíteto, aparentemente bisonho e alvar, de homens da manta. É que nem perceberam que eram monárquicos. Nem equer viram a bandeira azul e branca, ou notaram que de cada ombro pendia, presa pela bandoleira, uma espingarda
Mauser; não ouviram rufar as caixas ou tocar clarins: tudo o que eles viram foi a pacífica manta, que, simbolicamente serve para apagar fogos. Muitos avós seus, por terem visto mais do que isso, conheceram trágicos destinos. Aqui está o que a Inquisição nos deixou: não ver nada para lá da manta. Se ao nenos a manta fosse larga e quente! Não é. Cada qual puxa-a para seu lado, e todos sentem o frio.


José Hermano Saraiva, O Tempo e a Alma. Itinerário Português, 2.º vol., Círculo de Leitores, imp. 1987, pp.171-172.



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A Incursão de Paiva Couceiro, Illustração Portugueza, N.º 295, 16 Out. 1911, p. 496.
«A Incursão de Paiva Couceiro», Illustração Portugueza, N.º 295, 16 Out. 1911, p. 496.

5 comentários:

  1. José Leite3/10/14 15:13

    Caro "Bic Laranja"

    Vou publicar no Domingo um artigo acerca das comemorações do 1º aniversário da implantação da República.

    Como nem tudo foram "rosas", vou acrescentar, também, os "espinhos", e muito agradecia que me permitisse utilizar o texto do saudoso José Hermano Saraiva que teve a gentileza de publicar.

    Nunca esqueço que numa entrevista a um canal televisivo o Professor Doutor Fernando Rosas, cujas ideias políticas são sobejamente conhecidas, não deixando por isso ser um grande historiador, afirmou que Portugal se tornou mais ditadura e mais censura após a implantação da República que no tempo da Monarquia... Um momento de verdade que registei ...

    Com os meus cumprimentos, aguardo o favor da sua resposta

    José Leite

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  2. Bic Laranja3/10/14 19:57

    Com certeza. É bom que se diviulgue. Disponha.
    José Hermano Saraiva faria hoje 95 anos.
    Cumpts.

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  3. Inspector Jaap10/10/14 21:24

    Qualquer texto publicado neste sítio, é por inerência, de excelência, mas quando se trata do Sr. Prof. Hermano Saraiva, é também um verdadeiro deleite. Parabéns pela publicação, caro Bic.
    Cumpts

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  4. Obrigado, mas não tenho mérito algum.
    Cumpts.

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  5. Inspector Jaap12/10/14 20:16

    Tem, tem!
    Mais que não fora, tem o mérito do bom professor que cita na aula (e aqui aprende-se tanto!) um grande e erudito pedagogo. Aí tem.
    Cumpts

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