Metropolitano de Lisboa, Campo Pequeno (?), 1959.
Estúdio de Horácio de Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G..
domingo, 30 de outubro de 2011
Parece que fechou às onze
Fábrica de tintas Atlantic
Fábrica de tintas Atlantic, Pedralvas (Benfica), 1930-1983.
Estúdio de Mário de Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G..
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Almanjarra
Eléctrico «Almanjarra», Largo D. João da Câmara, 1930-1955.
Estúdio de Horácio de Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G..
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Nocturno sem tripé
O autor afirma que não foi grande ideia. Pois eu parece-me que resultou com bom efeito. Com bom sabor dos velhos tempos.
A.E.C. Regent/Weymann EI-18-60 (n.º 227), Pr. do Comércio, 1980.
Wood's Library , n.º 1451, 2 de Outubro de 1980.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Direitinho
Depois do primeiro que notei — e já certa vez disse (v. «Quatro notas sobre autocarros da Carris») — sobre autocarros da Carris, notei a seguir um padrão: todos os autocarros tinham uma reentrância à frente. E os de um piso eram como os de dois pisos mas como que serrado o primeiro andar. Não entendia eu então que a reentrância era para dar acesso ao motor para proceder à manutenção. Achava só curiosa aquela metade reentrada e tinha também graça a cabinezinha do motorista na outra metade da frente dos autocarros. Ainda há pouco nem me passava pela cabeça o labor dos engenheiros da A.E.C. para redesenharem os motores de modo dispor a posição de condução à esquerda e permitir a manutenção pela direita, às avessas dos modelos ingleses.
Pois a primeira vez que vi um Daimler Fleetline (há-de ter sido na Alameda, talvez na carreira 8) foi notório que aquilo não era da mesma família. Os autocarros tinham um ar incomparavelmente mais moderno, já sem aqueles radiadores nem faróis de calhambeque. Mas apesar disso lá havia o padrão da reentrância; atrás, tal como o motor, e em toda a largura. Pela forma direita da dianteira dei em catalogar cá no bestunto os Daimler como os via: eram «os direitinhos»; havia «os autocarros» (altos e baixos, aqueles com porta à frente ou porta atrás) e «os direitinhos», que era sempre mais raro de se verem. Mai' raros ainda eram uns outros do género, de um só piso e com três portas (havia-os na carreira 42, na Morais Soares, se me não engano). Mas estes alinhava-os eu com «os direitinhos», a modo de serem um «direitinho» serrado ao meio. Este ciclo mental há-de ter-se fechado talvez quando vi um Daimler Fleetline de duas portas como este da imagem. Era um «direitinho» ainda mais direitinho do que «os direitinhos»; parecia cortado à faca. A carris teve 5 deles, soube-o ao depois (n.ºs de frota 851 a 855, salvo erro). Ainda mais raro de eu os ver do que a «os direitinhos», digamos, normais. Tão raro que pouca vez os hei-de ter visto com esta pintura verde.
Daimler Fleetline, Saldanha, 1980.
(Wood's Library , n.º 1451, 3 de Outubro de 1980.)
domingo, 23 de outubro de 2011
Os Guardiães de Piri
Num dos episódios do Espaço 1999 (*) houve um planeta cuja imagem guardei. Era o planeta Piri. Um planeta morto com plantas artificiais coroadas de globos brancos de vário tamanho. Os habitantes da base Alfa foram seduzidos para ali pela serva do Guardião de Piri com o engodo de desfrutarem duma felicidade contemplativa meia aparvalhada; como se estivessem tolinhos e no mundo da Lua. Este planeta Piri tem duas curiosidades interessantes: uma, a serva do Guardião era a bela Catherine Schell, a que na 2ª série do Espaço 1999 desempenhou o papel de Maya (quantos o saberão?); a outra, foi lá que o Freeport de Alcochete se inspirou, não só na «vegetação», como nos servos do Guardião. - Depois de eu certa vez fotografar o Piri de Alcochete, um servo local com muita menos graça do que a Catherine Schell, como haveis de imaginar, proibiu-me de continuar; a felicidade ali, tal como em Piri, só pode ser contemplativa e, de preferência, meia aparvalhada. Pode-se engrandecer o Guardião fazendo compras, porém.
Piri de Alcochete - (c) 2010.
(*) «The Guardian of Piri», no original, 1975. A imagem é de lá.
sábado, 22 de outubro de 2011
Reverso de meio tostão
Quando ouvi à uma da tarde, no noticiário, que o primeiro ministro dissera que não devia Portugal aceitar o perdão da dívida admirei-me. Cuidei que o dissesse pelo sentido recto do dever que manda a qualquer pessoa séria honrar o pagamento da' suas dívidas. Daqui a minha admiração; não tinha o primeiro ministro nesta conta. Afinal não tinha e fazia bem. Quando me afloravam já engulhos de consciência ao espírito por mal julgar a dignidade do primeiro ministro esclareceu-me ele puerilmente como encara a coisa: «quando se fala em perdão de dívida para [a] alguém, isso significa que os credores perderam a esperança de receber o que emprestaram. E enquanto tiverem memória não emprestam nem mais um euro durante muitos anos [tendo o caloteiro de sofrer como castigo] níveis de austeridade absolutamente incomparáveis e brutais».
Se não fosse o chicote e a memória de elefante de prestamistas, portanto, tínhamos aí um belo dum caloteiro.
Meio tostão, 1918.
(Imagem em Numisgaia.)
Do perigo meteorológico...
O noticiário das três hoje na ex-Emissora Nacional abriu ribombante por causa do alerta laranja (o segundo mais grave) da Meteorologia; estamos no Outono e está previsto chover. Depois do trovão da cacha deu uma musiquinha e a primeira notíca a ser lida foi que o sr. presidente publicou um texto no livro das fuças e disse coisas à imprensa.
[De ordinário sufoca-se o já banal estrépito dum alerta laranja (o segundo mais grave) espargindo boas novas de Belém. Aleluia!]
Instituto de Meteorologia, Lisboa, 1979.
Fotografia de AJDSam, in Panorâmio.
Falar axim
Pèdorido dói mais se for Pèjão do que se for pèjinho?
Castelo de Paiva - (c) 2011
(Cliché de Luísa Gonçalves)
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
E.N. 333@ ?
E.N. 333, km 20, Piedade, 2011.
Cliché de Luísa Gonçalves.
Adenda: @ = caracol electrónico; também podia ser o símbolo ©.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Do agá de «húmido»
A forma singela como os acorditas não resolveram o caso de húmido/úmido, connosco/conosco e comummente/comumente demonstra à saciedade que o objectivo da coisa não era mais do que arrumar com as consoantes ditas «mudas» para fazer o frete ao Brasil. O artigo «A Falácia» de Fernando Venâncio (*) no n.º de Setembro da «Ler» corrobora-o em cheio. O resto do «Acordo» são adornos para distrair. Sobra como corolário que se o tresmalho brasileiro do cânone português neste caso pode (descartando o objectivo que acima lhe descubro) ser resolvido não resolvendo nada, para quê tanto trabalho a produzir asneira? (**)
Notas:
(*) Reitero aqui publicamente a generosa referência a este blogo pelo escritor Fernando Venâncio no dito artigo, com humilde pedido de desculpas de o não haver feito mais cedo.
(**) Para esclarecimento da índole trapalhona do frete acordita ao Brasil a partir do exemplo do desprezado caso húmido/úmido, &c. remeto o benévolo leitor para um interessante debate luso-brasileiro sem necessidade «acordos» (v.comentários).
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Cena de bairro há 28 anos e uns dias
Chelas, Lisboa, 1983.
(Wood's Library , n.º 1573, 17 de Outubro de 1983.)
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Do serviço da república
S.
R.
Há dias comentei que o facinoroso Acordo Ortográfico de 1990 haveria de dar em dupla (orto?)grafia, não entre Portugal e Brasil como tem sido (por quebra sucessiva dos tratados pelo Brasil), mas agora única e somente em Portugal. Da mão do governo chega-nos a imagem completa e acabada (forma e conteúdo) do estupor em que Portugal caiu.
« A minha leitura do O.E. 2012 leva-me a apelar ao seu definitivo e claro CHUMBO por parte dos deputados à Assembleia da República. A aprovação deste O.E. 2012 será efectivamente um ponto de viragem: constituirá a descredibilização completa e categórica quer da Língua Portuguesa, quer, em última análise, da própria capacidade de expressão escrita do Estado português [...] Para não maçar os leitores, vou dar apenas dez exemplos, aleatórios tal como o próprio Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990:
EXEMPLO 1
caráter acomodatício – Página 9
carácter universal e extraordinário – Página 30
EXEMPLO 2
setor bancário a nível europeu – Página 107
sector dos transportes ferroviários – Página 85
EXEMPLO 3
(excepto receita de privatizações) – Página 99
Títulos exceto ações – Página 96
Acções e outras participações – Página 157
EXEMPLO 4
Aquisição líquida de activos financeiros – Página 99
ativos e passivos financeiros – Página 157
EXEMPLO 5
pela interacção dos seguintes factores – Página 76
da interação dos seguintes fatores desfavoráveis – Página 70
EXEMPLO 6
DESPESA EFECTIVA – Página 69
despesa efetiva – Página 69
Permita-se-me um aparte: na mesma página… Curioso…
EXEMPLO 7
Habitação e serviços colectivos – Página 79
Habitação e serviços coletivos – Página 189
EXEMPLO 8
Protecção do meio ambiente e conservação da natureza – Página 189
proteção do meio ambiente e conservação da natureza – Página 189
Permita-se-me outro aparte: na mesma página… Curioso…
EXEMPLO 9
os contratos efetivamente celebrados – Página 134
começará a ser efectivamente paga nesse ano – Página 75
EXEMPLO 10
duas ópticas de contabilização – Página 53
numa ótica de contabilidade nacional – Página 53
Permita-se-me um terceiro aparte. Não, não vou repetir. Já escrevi o aparte duas vezes. Acho que já se percebeu...
Se fosse deputado à Assembleia da República, votaria contra este O.E. 2012, considerando a sua medíocre redacção.
Se fosse funcionário público, recusar-me ia a adoptar uma ortografia imposta por um Estado que não sabe escrever.
Um Estado que não sabe escrever não pode impor uma ortografia aos seus cidadãos.
Este O.E. 2012 é a antecâmara do Desastre.
Um Estado que não sabe escrever não deve “colocar a Língua Portuguesa no centro da agenda política”. Deve, isso sim, aprendê-la.
Não cumprir o disposto na Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011 é a única resposta que se deve dar a um Estado que não sabe escrever.
Haja vergonha.
Não havendo vergonha, haja decência! »
Francisco Miguel Valada, Bruxelas, 17/10/2011.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
domingo, 16 de outubro de 2011
A respeito de soletrar e da facinorosa ortografia das costureiras
« A respeito de soletrar, a morgada recebia cartas de um amanuense da camara de Barcellos; mas só abriu sete que ajuntára quando uma costureira lh'as leu. Felizarda creara-se sem lettras, e vivia, a respeito de litteratura, como as raparigas gregas antes de Cadmo, filho de Agenor, introduzir na Grecia o alphabeto phenicio; mas, em compensação, tinha muita flôr nativa e fresca [...]
A costureira interpretou a, e respondeu, vestindo a ideia de Felizarda, com palavras innocentes, mas facinorosas em orthographia. O amanuense amava-a deveras: leu a carta, em que era chamado Bem da menina com V.»
Camillo Castello Branco, «A Morgada de Romariz», in Novellas do Minho, 2ª ed., Parceria A.M. Pereira, Lisboa, 1903, p. 234 passim.
Passei por Varcelos nestes dias e bi que o amanuense da cámara deu em conselheiro Acácio e cunberteu-se, afinal, à facinorosa urtugrafia da custureira — saveis do que falo... — Má sorte é ber-lh' a redacçom pela prunúncia na Exposiçom da Casa de Vragança na cámara municipal. Seria de o primeiro duque bir da linhagem pleveia do Varvadão ou cuidaria que uma escrita assim tinha, em compensaçom, muita flor nativa e fresca, como calhava à iletrada morgada de Romariz...? — Mas que maçada!
sábado, 15 de outubro de 2011
Um marco
Um marco que a meu ver marca bem o tempo presente mas que não perpetuará a sua mensagem em futuro nenhum. Era da indústria milenar que os marcos viários fossem de boa pedra afeiçoada e gravados para a posteridade por laboriosos lapicidas. A indústria moderna afina mais pela inovação que pelo saber ancestral; prefere o cimento e a lambuzadela tipo grafitti à pedra gravada. Por uma questão de custo - ou custos, no plural, como parece moda agora dizer-se, talvez por disfarçar comissões de inúmeros intermediários, não sei... - O preço (que é o que se sempre paga, mas não sabe ser calculado por decisores alpacas - seria irracional esperá-lo) será o esbarrondar do marco às três pancadas e o erodirem-se-lhe os dizeres em poucochinhas estações do ano. E o esboroar-se no século, caso se livre de ser alvejado por automóveis. A indústria (arte e engenho de fazer algo) já não se quere milenar; quere-se empreendedorismo... De feito, só empreendendo algo mais viremos nós, no terreno, a saber o que diz (ou havia de dizer) este marco em Braga. A menos que o Bom Jesus no-lo revele. Haja fé!
E.N. 103-3 (Braga - Bom Jesus), km 0 - (c) 2011.
Adenda imaginada:
(E.N. 103-3, marco hipotético.)
A José Pedro Rodrigues
Caro senhor,
Obrigado pelo apreço. Vamos a ver se lhe sei responder: 1) a Calçada do Jogo da Péla, veja-a no prolongamento da Calçada Nova do Colégio desde a Rua do Arco da Graça ao actual largo Martim Moniz (v. Google e o que deixei publicado no «Novo postigo da Rua da Palma e a Torre da Péla»); 2) as escadas do Arco da Graça são (eram) na travessa desse nome cujas só o cimo, ao chegar à Rua do Arco da Graça, me parece que existe (v. Google outra vez). Vinham da Rua da Palma.
A Rua do Martim Moniz (antiga de S. Vicente à Guia) atravessava a Mouraria de Este a Oeste (e vice-versa) ligando o Largo da Saúde (ao fundo das Escadinhas da Saúde) à de suso dita Calçada do Jogo da Péla; cruzava a Rua da Palma e, após esta, dela partiam do lado do Norte as ruas das Atafonas e do Socorro (cf. «Canos da Mouraria») que levavam ao Largo do Socorro e à igreja paroquial (onde começava e ainda começa a Rua de São Lázaro).
A fotografia da pág. 31 que refere e que julgo ser a que aqui mostro, mostra o que lhe descrevo e que vai em acordo com com a legenda. A outra que diz, que dá as escadas do «Arco da Graça» em fundo, não dá nada. Mostra as mesmas escadas que vemos nesta. O arquivista enganou-se; tomou escadas do Jogo da Péla pelas do Arco da Graça cuidando talvez que seriam a mesma coisa. Não eram.
Rua de Martim Moniz vista das escadinhas da saúde, Mouraria, post 1946.
Judah Benoliel, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
O topónimo da Rua de Martim Moniz alastrou no falar alfacinha pelos pavilhões de lojas até que se pespegou ao vazio que as demolições da Mouraria pariram. Foi tão oficial e diligentemente adoptado que se propagou ao subsolo, à estação do Metropolitano antiga do Socorro. Cuido que a fusão de freguesias em curso condenará ao lugar e freguesia do Socorro uma ainda mais vaga reminiscência da memória alfacinha.
Cumprimentos.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
prɔsɛniu
Não vou falar do 13º mês. Isso, a par do subsídio de férias, não são já contas do meu rosário dês (*) que o patrão os encomendou ao governo do sr. Sócrates em escambo duma qualquer redução de ordenados. Por isto, este primeiro ministro de ontem à noute não cuide ser má vontade, mas se me quere o 13º mês outra vez, trate por favor de ver com o patrão se este lhe quere dar o que antes prometeu ao sr. Sócrates. Eu, à partida, é que o já não tinha para dar.
Adiante, pois.
Colou-se-me no Kindle do iPad um dicionário de português da Priberam, gratuito, mas na versão brasileira. Há, porém, uma versão que dizem portuguesa (na verdade é brasileiro acordita) à venda por 13 dólares e tal. É natural que o refugo sempre seja oferecido, embora deixe mal visto por falta de maneiras quem no oferece. Mas agora que, sobre isso, a Priberam tenha o descaro de vender com rótulo de «português» (de cânone), o mesmo refugo que oferece ao desbarato com o justíssimo rótulo de «versão brasileira», nem sei que diga. Veja o benévolo leitor se é sério esbulharem-no em 13 dólares e tal só para (talvez) ter o «proscénio» na ribalta e o «proscênio» logo ali numa extensão no palco. Justificam-se 13 dólares e tal norte-americanos para ter duas vezes a mesmas e exactas definições de inúmeros «proscénios» num dicionário? Que necessidade há (**) de se inscrever a pronúncia brasileira num dicionário que não é prosódico e que sequer explicita a recta pronúncia portuguesa? — Em «proscénio» o acento agudo é tónico, não fónico, coisa que os dicionaristas da Priberam nunca devem ter aprendido da base XIX da ortografia de 1945. (Nem os acorditas, mas destes é escusado...)
Outra pergunta é se o benévolo leitor me sabe dizer como descravo este dicionário de refugo da aplicação Kindle do iPad?
(*) O m. q. desde (do lat. de + ex + de); o dic. Priberam dá-o como arcaísmo mas mantém-se corrente no uso popular.
(**) Os acorditas apressaram-se a tirar o hífen da conjugação das 1.ª, 2.ª e 3.ªs pessoas do presente do indicativo do verbo haver (hei-de, hás-de, há-de). Sucede que aí, com sujeito definido, é a pronúncia da proposição de como enclítica que o justifica (ao hífen). E é essa mesma razão (ou a ausência dela por o sujeito ser indefinido) que justifica esta construção que necessidade há-de se... sem hífen. Tão gramáticos que os acorditas são, não é verdade?
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Novas (e velhas) de Lanhoso
Reza a História (ou a lenda) que o alcaide de Lanhoso, certa vez que andava na guerra, soube que sua mulher se quedava assaz penitente a confessar-se com um frade de St.ª Maria do Bouro. Tanto pecado ela tinha que o frade a «confessava» havia já sete dias e sete noites. Em no sabendo, o alcaide deixou a guerra de tal maneira ferido na honra que, por se desagravar, tocou fogo ao castelo com a mulher e o frade lá dentro, e com todos os que lá havia; há quem diga que as bestas nem o cão se salvaram e como alguém lhe perguntasse: - «Mas até o cão?!...» - «Não interessa» - parece que respondeu. - «Todos lá estavam. Foram todos cúmplices na traição.»
Andaria o fantasma do alcaide hoje ainda cego de raiva a tocar fogo àquelas serranias de redor do castelo?
Incêndio, Lanhoso, 13/X/11.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Castelo de Almourol
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Av. da República, 37; notas soltas (obra 25.717)

Av. da República, 37 tomado da Av. Miguel Bombarda, Lisboa, 1961.
Augusto de Jesus Fernandes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Dos índices da obra nº 25.717 no arquivo da Câmara.
O edifício pode ter sido iniciado em 1917 ou perto; há notícia nesse ano da construção de alicerces e dum certo António Castanheira de Moura ter pedida licença para fazer um barracão. Em 1917 uma «empreza panificadora» requere construção duma padaria. Em 1919 uma Soc. de Padarias pede para ampliar a construção.
A notícia de vistoria e a atribução do nº de polícia indiciam a conclusão do prédio; foi dado como pronto a habitar em 1924... Um dono parece ter sido um sr. Alberto Graça (já não a «empreza panificadora», portanto) até, talvez, ao fim dos anos 40. Consta em processos de obra de ampliação (1920), alterações (1922-23), indicação de nº de polícia e vistoria (1924), limpeza e reparações (1929 e 36), limpeza geral e pinturas (1942), reparação (1944) e colocação de andaimes e beneficiação geral (1945).
Uma Soc. Americana, Lda. é referida como requerente de «junção de elementos» (lojas?), nos anos de 39 e 44 (23906/DSC/PG/1939, 31836/DAG/PG/1944).
O café «A Cubana», onde os anais do Surrealismo em Portugal dizem que Alexandre O'Neill conheceu Mário Cesariny, era neste prédio. O encontro foi em 1944 (cf. Mª de Fátima A. C. M. Saraiva, O Surrealismo em Portugal e a obra de Mário Cesariny de Vasconcelos, Porto, 1986, p. 20). Seria a Soc. Americana a designação comercial d' «A Cubana»?
Julgo que o dr. Francisco José Calheiros Lopes (de Benavente?) adquiriu depois disto o prédio. Há processos que o referem nos anos de 63 (beneficiação geral), 64 (pedido de instalação de elevador e obras de reparação), 65 (limpeza geral e obras de conservação), 66 e 67 (mais obras de conservação).
O Banco Lisboa & Açores mutilou a fachada no fim dos anos 50, ou nos anos 60 (61?). — Alvores duma prática assassina que descaracteriza inúmeros edifícios doutras eras pela a cidade inteira e ninguém liga...
Depois de tanta obra, não descurando um pedido de instalação dum elevador, a Câmara manda em 1969 (um ano após o passamento do dr. Francisco José Calheiros Lopes) o fotógrafo Artur Goulart documentar o prédio e arquiva a fotografia com um título sugestivo: «Prédio para demolir».
O prédio tem resistido. Há intimações e processos por obras clandestinas em 1962, 64, 65, 77, 78, 80 e 86. Daí para cá...
A florista (resiste ainda lá hoje) pediu parecer sobre o estabelecimento em 1981 (19894/DAG/PG/1981). Um eng.º Alberto Briosa e Gala figura em procº de obra (18830/DAG/PG/1967) como requerente de baixa de responsabilidade da obra. Um certo João Pedro Homem de Melo (?) figura em processo de obra; idem. — Só «lambendo» papel no arquivo se saberá mais. — Em 2004/05, uma Crunch (dentada?!) — sociedade de gestão de património imobiliário requer vistoria de propriedade horizontal.
O prédio está devoluto do r/c para cima e tem uns ricos logradouros...
domingo, 2 de outubro de 2011
Maria Oliveira em 1 de Outubro de 2011 às 23:54
« Se ela me escutasse, a Maria, gostaria de lhe dizer, do meio da pouca sanidade mental que me resta, que pensamos da mesma forma. Infelizmente, estou do outro lado, pois sou professora. Choro por dentro, quando me lembro da obrigação de "ensinar" aquele monstro, o "aborto ortográfico" aos meus alunos... Todos os dias procuro alguma forma, por rebuscada que seja, de fugir a isto. Expor, dar-lhes conhecimento sem ensinar, de facto? É uma infâmia ter sido sempre perfeccionista e ter alunos do 7º que perguntam (porque ainda não uso o "aborto ortográfico" e só "exporei" nos tempos que aí vêm). — "Professora, não tem ali um c a mais?"
A boca sabe a sangue!... É como se estivesse rodeada de fogo, de tal forma abomino o "aborto ortográfico"! À minha volta, havia energúmenos que queriam empurrar aquele lixo logo na 1ª semana, mas eu opus-me. Tenho sido crucificada e, sempre que toco no assunto entre colegas, passo a ter lepra e fico a falar sozinha, de tal forma TODOS têm um medo que nunca vi antes. Odeio este país, odeio esta bandeira, odeio este povo. Gostava, isso sim, da Língua-mãe. [Gostava] Era estar em casa. Lembro-me daqueles que, por terem tido A.V.C. ou doença degenerativa, já não sabem onde moram. Eu já não sei a que chame Pátria... Eu JÁ NÃO SEI ESCREVER... EU! Não sei que língua é aquela. Não compro livros editados após 2009, não os leio, nem compro jornais, nem vejo a R.T.P., nem leio os textos de que gostava na net... Não há palavras para descrever a minha angústia. É tão patológica a minha aversão como o é em tudo o que faz esta gente poucochinha, execrável, que merece todo o mal que lhe aconteça doravante. Um povo que deixa que lhe saquem o património é amorfo! Párias! Cambada de inúteis! Gado! Este povo é como gado. Fui crucificada, prejudicada pessoal e profissionalmente de forma indelével por dizer sempre o que penso e pensar sempre por mim. É ver-me falar, mesmo que com um sorriso nos lábios e ver os "bufos" e os SS a baixar o olhar, para irem logo a correr contar no Conselho Executivo o "escândalo" que é alguém ainda PENSAR no ensino português e OUSAR fazer perguntas ou fazer sugestões nas reuniõezinhas! É tudo para encher papel. Deus sabe a cruz que trago comigo. O ensino desespera-me, desgosta quem quer que tenha carácter, quem quer que não seja conivente. O que lhes interessa são as grelhazinhas, as "evidências", a organização de eventos em que são peritos, fazer umas flores, aparecer, despejar as matérias, ignorando o sofrimento que isto também causa aos alunos, interessa é rumar ao "excelente", ir ao gabinete das chefias engraxar, tratar os alunos como se fossem de vidro e colar-lhes à pele muitas mentiras diárias. OS ALUNOS SOFREM com isto, e muito! Quando leio comentários de gente que acusa os anti-acordistas de não aceitarem a mudança, costumo sonhar que tenho aqueles "modernistas" à minha mercê: arrancava-lhes os dentes à chapada, a essa corja infecta que nem merece o chão que pisa! Ala, vão p'rò Brasil! Viver neste país enlouquece. Devagar, muito paulatinamente por vezes e de forma descarada noutras, os pulhas que sentam a parte do corpo com que pensam na Assembleia destruíram tudo. O país "jaz morto e arrefece" e esses Filhos duma Grande Mãe ainda batem em quem já está no chão. Isto não é um país, é uma cloaca! Todos os dias tento não me afundar, mas a vaidade desta gentinha nula, o vazio das conversas, a inveja, a cega meretriz com a qual o Vate fecha o seu épico diz tudo sobre os tortulhos que crescem por tudo quanto é sítio. Isto não é um país, é um proto-qualquer coisa que perdeu a vergonha... Tal como a Maria, de bom grado eu deitaria AO LIXO TODOS os livros "A.O." que me sujam as estantes de casa. JURO por Deus que já não sei que terra é esta. Apetece-me queimar o meu B.I. de "cidadã nacional". Cuidado, quando se diz que os professores já "amocharam". Seja qual for a consequência desta vez (provavelmente, dão-me horário zero e correm comigo do ensino, que foi o que vi acontecer a alguns este ano), eu NUNCA ensinarei aquele aleijão aos meus alunos! Ontem, um pequerrucho de 7º ano percebeu-me nas entrelinhas, leu a minha mágoa: — "Que ironia, professora: decidiu começar a leccionar o Acordo após o feriado de 5 de Outubro, justamente a data que nos diz que somos livres de votar e escolher quem nos dignifique..."
De Maria Oliveira [Professora] em 1 de Outubro de 2011 às 23h54.
* * *
(Compendio de Grammatica Portugueza extrahido de... gramáticos portugueses para uso lá...)
Cogito cá comigo se fará algum sentido o envio de cópias desta e da da aluna Maria ao sr. ministro Crato, ao sr. primeiro ministro, ou a todos e cada um dos deputados à assembleia... Alguém responsável havia de ler isto.
(Verbete revisto e aumentado ao meio-dia.)
