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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Motivos apropriados

Melendez (Natureza Morta,1770)

Melendez (Natureza-morta 1772)

 Ontem embelezei... (acho que sim) a cozinha com dois quadrinhos: mostram tupperwares muito muito antigos, entre outros motivos apropriados.
 




Óleos: Luís MeléndezNatureza-morta com melão e peras (1770) e Natureza-morta com laranjas e nozes (1772), respectivamente no Museu de Belas-Artes de Boston e na Galeria Nacional de Londres.

Cosmética 125

 Domingo passado o sr. primeiro ministro anunciou com pompa e circunstância a concessão da E.N. 125 ao Grupo Rodoviário Algarve Litoral. Ouvi nas notícias que a concessão é por 30 anos; mas o valor do negócio é tão mal papagueado que nem se percebe... Vamos lá ver se entendi eu.
 A concessão da E.N. 125 por 30 anos assemelha-se-me uma enfiteuse (*). O enfiteuta há-de pagar de foro € 28.400.000,00 pelo senhorio útil da estrada.


" Segundo o M.O.P.T.C., a escolha do vencedor baseou-se ainda no facto da Edifer propor o pagamento de 28,4 milhões à Estradas de Portugal, S.A. (E.P.) pela exploração da concessão ao longo de 30 anos, o que é inédito no programa de concessões rodoviárias apresentadas pelo Governo, uma vez que a E.P. vai receber em vez de pagar, quando o estudo de viabilidade apontava para um esforço financeiro da parte da Estradas de Portugal próximo dos 50 milhões de euros."
A.E.C.O.P.S., in Algarve Litoral
.


 Se bem entendo, num estudo de viabilidade (o mesmo é dizer um estudo) feito por si, a empresa Estradas de Portugal, S.A. previa uma perda (esforço financeiro é mais chique, bem sei) com a E.N. 125 de quase 50 milhões em 30 anos; a enfiteuse (ou concessão) produz um ganho superior a 28 milhões.
 Sei pouco destes negócios e nem sei como se obtém ganho na exploração duma estrada nacional onde não há nem vai haver (em princípio) portagens. Mas, sendo possível fazer das rodovias sem portagens um negócio lucrativo, a sucessora da J.A..E. devia sabê-lo. E a final de contas faz um estudo de viabilidade (mas viabilidade porquê?) em que estima gastar ao todo 804 milhões em grandes obras nos próximos três anos, mais manutenção nos próximos trinta; somada a renda obtida da exploração da estrada (que inclui dotação dos impostos, presumo) obteria um saldo negativo de 50 milhões. Em simultâneo, um consórcio de empresas propõe-se, se lhe derem o senhorio útil da estrada, fazer o mesmo gastando ao todo 399 milhões (e daqui tirando necessariamente o seu lucro) e ainda por cima pagando ao Estado (por intermédio da Estradas de Portugal, S.A.) 28 milhões e tal.
 Admitindo que ambas as partes, a Estradas de Portugal e a foreira Edifer, são ambas idóneas para estimar estas coisas, será possível tamanha disparidade nas contas duns e doutros? Fizeram as mesmas contas? Com as mesmas variáveis?!...
 Será paranóia minha?
 Entendamos-nos: a viabilidade do tal estudo parece manobra para disfarçar o contrário.
 Fazem-me espécie estas concessões de obras em estradas nacionais. Dantes era missão da J.A.E. construir e zelar pelas rodovias nacionais. Missão e trabalho. Noto que desde há tempo as sucessoras da J.A.E. pegaram com ambas as mãos na missão mas foram descartando os trabalhos... O assunto é polémico. Julgo que seja dos últimos tempos da J.A.E.  a sua metamorfose em singela central de concursos de empreitada com comissão de avaliação de propostas. Cuido que lá subsista residualmente um qualquer gabinete de estudos... de viabilidade...
 No fim disto lembra-me o seguinte: um consórcio de empresas que não são públicas que tome o senhorio útil duma estrada nacional pode entregar directamente todas as subempreitadas que entender: a empresários familiares, amigos, conhecidos, ex-condenados, ex-o-que se-queira... Inclusive governantes... O potencial de transferir riqueza desta forma a partir do erário é aliciante e pode ter compensações inimagináveis. Não é ilegal nem constitui ilícito, como dizem agora esquecendo que ilícito também significa contra a moral. Ora, que eu ouvisse no anúncio de domingo passado, o imperativo moral são 1000 empregos nas obras para os compatriotas do sr. primeiro ministro (e ninguém fala em discriminação?!). O resto é cosmética:
 A E.N. 125 tem pontos negros.
 A E.N. 125 vai ter 71 rotundas.

Da antiga E.N. 125 (Manuel, 1993)
Da antiga E.N. 125, Algarve, 1993.
Fotografia de Manuel, in
H-Gasolim Ultramarino.




(*) Em rigor, a ser enfiteuse, o enfiteuta seria em primeiro lugar a Estradas de Portugal, S.A., que subcontrataria a concessão. Em todo o caso, neste negócio, a Estradas de Portugal parece que se limitou a ser consultora do governo. O tracto da E.N. 125 parece ter sido directamente tomado em mãos pelo governo; depreendo isto pelo grosso volume de informação (só propaganda) na página do M.O.P.T.C. e a omissão completa dela na da Estradas de Portugal, S.A..

Monumento a D. Pedro IV

« O monumento, nada famoso, concepção dos franceses Elias Robert, escultor, e Jean Davioud, arquitecto, que venceram o concurso aberto, e no qual foram apresentados 87 projectos vindos de todos os pontos da Europa! A construção é de Germano José Sales.


 O pedestal é de mármore de Montes Claros, e a coluna coríntia, canelada, foi arrancada de Pero Pinheiro; a base é de granito dos arredores do Pôrto.
 
Essas figuras nos ângulos da base do pedestal representam a Justiça, a Prudência, a Moderação, a Fortaleza; quatro figuras em baixo relêvo adornam a parte superior do fuste. O segundo envasamento é ornamentado com os escudos de dezasseis cidades dos país.
  E lá em cima, a 18 metros de altura, no bronze «eterno», D. Pedro IV, em general, cobertos ombros pelo «régio manto», cabeça coroada de louros. »

Rossio (M.Novais, post 1938)

Rossio, Lisboa, post 1938.
Fotografia: Estúdio de Mário de Novaes (1933-1983), in bibliotheca d' Arte da F.C.G.


 


 « [...] Finalmente em 29 de Abril de 1867, a esforços de uma comissão de que fizeram parte o Duque de Palmela, os Marqueses de Sá da Bandeira e de Sousa Holstein, o Conde de Farrobo, os Viscondes de Benagazil e de Menezes, lançou-se a primeira pedra para o monumento que aqui vês, inaugurado três anos depois, a 29 de Abril de 1870, com extraordinária solenidade. »


Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, XII, 2.ª ed., Vega, Lisboa, 1993, pp.67-68. 

terça-feira, 28 de abril de 2009

Discursos

Oliveira Salazar« Na produção [ao plutocrata] não lhe interessa a produção, mas a operação financeira a que pode dar lugar; na finança não lhe interessa a regular administração dos seus capitais, mas a multiplicação por jogos ousados contra os interesse alheios. [...] Não conhece os direitos do trabalho, as exigências da moral, as leis da humanidade.

 [...] O plutocrata age no meio económico e no meio político sempre pelo mesmo processo - corrompendo.»


António de Oliveira Salazar, «Problemas da organização corporativa, discurso proferido na sede do S.P.N. em 13 de Janeiro de 1934», in Discursos 1928-1934, Coimbra Editora, 1939, pp. 283-298, apud Helena Matos,  Salazar, vol. 2 (A Propaganda), Círculo de Leitores, [2003], pp. 11, 12.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O gigante

 O sr. ministro Lino gesticulava muito ontem no Algarve defendendo as obras na E.N. 125, queixando-se da visão cinzenta e salazarenta dalguns sobre o fomento nacional que - segundo disse - nos deixou um país atrasado (v. RTP, Telejornal de 27/4/2009).

 
O sr. ministro Lino, bem vejo, ignora que o plano rodoviário nacional que lhe legou a E.N. 125 foi feito em 1945 com recursos próprios do Estado. Pode, pois, o sr ministro Lino agigantar-se aos ombros dum anão, como corta-fitas de emprazamentos a 30 anos para umas quantas rotundas. Mas por mais cinzento ou salazarento, é devido que um anão que realize um plano rodoviário como o de 45 seja no mínimo considerado gente capaz.



Estrada marginal, Caxias (M.Novais, s.d.)

Estrada Marginal, Caxias, [s.d.].

Fotografia: Estúdio de Mário de Novaes (1933-1983), in
Biblioteca de Arte da F.C.G..



(Ligeiramente ajeitado às 4h25 da tarde.)

domingo, 26 de abril de 2009

Marques da Silva

 Marques da Silva porquê? — foi a pergunta que deixei por responder no Caracol da Penha. Ainda que um dos comentários lá haja dado já a solução (habilmente colhida na Toponímia da C.M.L.), não deixa de ter interesse — cuido eu — para o benévolo leitor curioso de novidades antigas, a história da demanda do topónimo pelo ilustre olisipógrafo e amigo de Lisboa, Luiz Pastor de Macedo. Ei-la, a demanda do Marques da Silva da rua do dito, tresladada abaixo em pública forma. Se bem que um pouco extensa, pode o leitor apreciar nela a uma vez o belo estilo e o método simples, mas rigoroso, do ilustre autor da Lisboa de Lés-a-Lés:



« [...] Perguntemos agora: Marques da Silva porquê? quem foi aquele senhor? que fêz ele? Marques da Silva que conhecêssemos com probabilidades de merecer consagração municipal por intermédio duns letreiros de tinta preta pintados nas esquinas de qualquer artéria, só nos lembrávamos de um, o arquitecto Adolfo António Marques da Silva, que foi um dos fundadores da Associação dos Arquitectos Portugueses, o auxiliar de Parente da Silva nos trabalhos preparatórios para o projecto de restauro da Sé, etc. Mas este Marques da Silva não podia ser o que ficou memorado nos cunhais do antigo Caracol da Penha porque tendo nascido em 1876 não podia com 15 anos de idade merecer a atenção dos edis lisbonenses. Que Marques da Silva era pois aquele? O padre António Marques da Silva, ex-frade dominicano, que publicou dois sonetos e uns Erros de concordância do relativo «cujo» demonstrados e emendados em 13 páginas, segundo informação de Inocêncio, e que acabou os seus dias empregado na Biblioteca Nacional? Ná... Não víamos ponta por onde se lhe pegasse... E fomos ao local. Talvez nos dísticos camarários houvesse alguma indicação. E havia, sim senhor. Lá estava Rua Marques da Silva — 1844/1907 — Escritor.
  O leitor que não se dá ao trabalho inglório da investigação, mal adivinha a alegria que experimentam os rebuscadores de novidades antigas, quando, perante um caso fechado se encontra, laboriosamente, uma porta de entrada. Não é a sorte grande, por certo (que nós não sabemos o que é ser-se contemplado com a sorte grande da Santa Casa) mas é a sorte que dá uma alegria que por sua vez garante umas horas ou dias, conforme o alcance da descoberta, de esplêndida disposição. Pois nós, depois de termos passado um ror de tempo a querer vislumbrar o autêntico Marques da Silva, através de mil hipóteses formuladas de parceria com os nossos botões, não tivemos uma alegria ao lermos o dístico da artéria, tivemos e justificadamente um alegrão. Pronto. O Marques da Silva era afinal um escritor que tinha nascido em 1844 e que falecera em 1907. Não era tudo, evidentemente, mas era quási tudo.
  No entanto — confissão completa, que o leitor merece a nossa consideração e a nossa confiança — no entanto a‑par da nossa alegria, ìntimamente, muito ìntmamente, revirava-se com certa irreverência uma pontinha de despeito. Sim. E bem vistas as coisas, a pontinha de despeito tinha toda a razão em revirar-se no nosso íntimo, travando e arrefecendo um pouco o nosso alegrão. Na verdade era imperdoável que não soubéssemos que tinha havido um escritor Marques da Silva e para mais um escritor que tinha merecido uma homenagem municipal. Mas se a pontinha de despeito, passados os primeiros momentos, refreou a alegria, a alegria, por sua vez não consentiu que nos sentíssemos excessivamente envergonhados perante a nossa indesculpável ignorância. E começámos a deitar abaixo as nossas prateleiras à procura do escritor que com certeza todos conheciam excepto nós.
  Trabalho baldado. Nem um breve rastro se nos deparou. Decidimo-nos então a perguntar e escolhemos claro está o nosso amigo mais íntimo. Sempre é menos vexactório mostrarmos a nossa ignorância a um amigo íntimo.
  — Ora diga-me cá. V. sabe quem foi o escritor Marques da Silva?
  — Quem?
  — ... Aquele que mereceu em vida pintarem-lhe o nome nas esquinas do Caracol da Penha...
  — Marques da Silva?

  — Sim. Que faleceu em 1907...
  E quando esperávamos que o nosso amigo exclamasse admirado: — Pois V. não sabe quem foi? Essa agora..., etc. etc. — respondeu naturalmente:
  — Não. Marques da Silva que fosse escritor, não me recordo de nenhum...
  Mais afoitos, perguntámos a outro amigo, depois a outro, em seguida a outros, por fim a todas as pessoas do nosso conhecimento que encontrávamos. Não. Marques da Silva e então um Marques da Silva que merecesse como escritor aquela homenagem muncipal, ninguém conhecia, ninguém se lembrava...
  Fomos em seguida aos livros de actas das sessões camarárias e dispostos a ir ao fim do mundo se nos palpitasse que só lá descobriríamos o decantado escritor. Mas felizmente não tivemos necessidade de passarmos das actas. Na que diz respeito à sessão de 25 de Setembro de 1891 lá está patente em bom cursivo o Marques da Silva almejado. Caiu-nos porém a alma aos pés. O Marques da Silva que se tratava não nascera em 1844, não falecera em 1907, nem fora escritor... Então? Era ao tempo um comerciante que morava na rua dos Anjos e que era proprietário da célebre Quinta da Imagem, ali ao Caracol da Penha, ao virar para a rua de Arroios, quinta da qual o sr. João Marques da Silva, — era este o seu nome — ofereceu uma fatia à Câmara para alargamento da travessa do Caracol! E lá vimos que foi nessa sessão que o vogal da Comissão Administrativa do Município, sr. Costa Lima, propôs, e foi aprovado, para que a travessa passasse a ter o nome do proprietário local que contemplou a cidade com aquela nesga de terreno da sua quinta.
  Ora veja lá o leitor como estas coisas são!
  Mas ficava ainda um caso por resolver: o dos letreiros com a indicação do homenageado ter sido escritor e ter nascido e morrido em tais datas. Que estava mal, estava; mas as indicações também não tinham sido postas ali à toa. Tratava-se pois, evidentemente, duma confusão. E o escritor Marques da Silva aparecia outra vez. Com que homem de letras se teria confundido o Marques da Silva da Quinta da Imagem? Continuámos percorrendo a vereda das pesquisas, até que por fim chegámos à conclusão de que o escritor que os serviços camarários supunham estar memorando nos dísticos da artéria era o Salvador Marques que também era da Silva e que na verdade nascera em 1844 e falecera em 1907. Deve-se porém notar que o escritor dramático Salvador Marques foi sempre conhecido por este nome e nunca por Marques da Silva.
  E basta. Ponhamos de lado este assunto mas já agora convidemos a Ex.ma Câmara a apagar dos dísticos da torcicolada via pública as datas que lá estão e a substituir o adjectivo escritor pelo de benemérito.


Luiz Pastor de Macedo, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. IV, Pub. Culturais da C.M.L., Lisboa, 1968, pp. 54-58.




 À Quinta da Imagem lá iremos... a seu tempo.



Rua Marques da Silva, 44 (antigo nº 7 ou 9?) e Av. Almirante Reis, 107 (actual 113), Lisboa, 1898-1908.
Arquivo Fotográfico da C.M.L..

sábado, 25 de abril de 2009

Caracol da Penha

 Numa jornada atrasada vinha eu na Rua de Arroios. Tinha o propósito de chegar ao Largo e dizer algo da sua história mas detive-me um pouco abaixo para falar antes na Fábrica de Lanifícios; entretanto dispersei-me. Torno aqui àquele caminho, mas antes de prosseguir para Arroios merece o benévolo leitor que reproduza aqui o que nos disseram os autores antigos sobre o (passe a repetição) antigo Caracol da Penha:

Rua Marques da Silva, Lisboa (A.Goulart, s.d.)
Rua Marques da Silva, Lisboa, [s.d.].
Artur Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..



« Marques da Silva (Rua) — Freguesia de Arroios e da Penha de França — O nome mais antigo que sabemos ter tido é o de calçada da Penha de França (desde 1710), passando alguns anos depois, ao tempo do terremoto, a ser designada por Caracol da Penha ou por travessa do Caracol da Penha.
   Castilho, que na sua Lisboa Antiga [vol. IX, 2ª ed. p. 173] se ocupou desta serventia pública, diz-nos: « O próprio Caracol da Penha (que parece tão calado) se o interrogarmos, dir-nos-á que ainda em 1857 não era mais que uma estreita e pitoresca azinhaga, com foros de caminho de pé posto. Passar aí de noite, só Amadis de Gaula ou Ferrabraz da Alexandria; quaisquer outros mortais eram exterminados.
   « Em sessão de 2 de Abril desse ano de 1857 (nos dirá o Caracol) recebeu da Câmara de Lisboa participação de haver sido aprovada pelo Conselho Distrital a deliberação tomada em 2 de Março antecedente, para expropriação de certo terreno afim [sic] de se começarem ali alguns melhoramentos projectados (Anuário do Mun. de Lisboa, 1857, n.º 33, p. 260).
   « Em sessão de 10 de Dezembro, autoriza a Câmara o alargamento do Caracol, segundo a planta do engenheiro (Idem 1859, n.º 44, p. 361).
   « Finalmente, em 11 de Julho de 1859 determinou-se que se anunciasse a arrematação da obra da muralha (Id., ib.), na estrada que trepa elegantemente aquela encosta a pino.»
   As obras então ali feitas tiveram incontestàvelmente alguma importância, e por isso, em 1863, Vilhena Barbosa já nos dizia: « do lado oeste mostra o monte a sua maior altura com muito íngreme declive, por onde dantes subia o escabroso e tortuoso caminho chamado Caracol da Penha de França, que ora vemos substituído por uma bela estrada macadamizada, em zig-zag, orlada de árvores e iluminada a gaz» (Arq. Pitoresco, vol. VI, p. 71.).
   No entanto não teriam de ser estes os últimos melhoramentos com que a Rua foi beneficiada, e assim, chegados a 1891, vemos a que a artéria tinha sido de novo alargada, se não em toda a sua extensão, pelo menos na parte que desemboca na Rua de Arroios. Neste ano, também, foi a rua crismada e da pitoresca denominação de Caracol da Penha passou, insìpidamente, a ter a de Rua Marques da Silva. Assim o determinou o edital saído a 5 de Outubro.
   Perguntemos agora: Marques da Silva porquê? [...] »


Luiz Pastor de Macedo, Lisboa de Lés-a-Lés, vol. IV, Pub. Culturais da C.M.L., Lisboa, 1968, pp. 52-54.



Rua Marques da Silva, Lisboa (A.Goulart, s.d.)
Rua Marques da Silva, Lisboa, [s.d.].
Idem, ibidem.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A apropriação da memória

Salazar (c) Time Inc.



 Inaugurar o Largo Dr. Salazar no dia 25 de Abril é idêntico à apropriação do nome da ponte sobre o Tejo. Cuido que há forma mais elevada de fazer as coisas. No caso do largo em de Santa Comba Dão seria inaugurá-lo na data de nascimento do homenageado, dia 28 de Abril. Temo é que não haja gente à altura.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Porto. Anos 80


Porto, Anos 80 (Pura Terylene Virgem)


 



Porto, Anos 80 (Pura Terylene Virgem)



Porto, Anos 80 (Pura Terylene Virgem)



Porto, Anos 80 (Pura Terylene Virgem)



Porto, Anos 80 (Forum Auto-Hoje)



Porto, Anos 80 (Forum Auto-Hoje)






Música: Ribeira, Jafu-Mega (1981).
Fotografias: Carlos Duarte, in
Pura Terylene Virgem.
Postais: Fórum Auto-Hoje.


(Revisto em 26/XI/17 e na sexta-feira Santa de 2020 (cantiga).)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Uma fantástica antologia de 'thrillers'



 O que eu gostava de saber é se alguém usou a minha televisão, com o objectivo de obter alguma vantagem, ilegítima...
 O que eu gostava de saber é se alguém usou a minha televisão, com o objectivo de obter alguma vantagem, ilegítima...
 O que eu gostava de saber é se alguém usou a minha televisão, com o objectivo de obter alguma vantagem, ilegítima...



(Imagens... da R.T.P.)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida [!!!]

 Quando os fundadores da Biologia, da Botânica, etc. se dedicaram à taxionomia, como homens eruditos que eram, foi com naturalidade usaram o Latim (e o Grego) para nomearem as espécies. (Mesmo os casos extravagantes obtêm nomes latinizados.) Desde então (ou na era mais recente) a banalidade ganhou foros de ciência e muito iletrado alfabetizado em massa ganhou estatuto de doutor.

 Isto posto, alguém encontra a razão do sórdido nome do conselho para o tratamento da infertilidade?

 


Maternidade Alfredo da Costa, Lisboa (M.Novais, s.d.)

Maternidade Dr. Alfredo da Costa, Lisboa,[s.d.].

Fotografia: Estúdio de Mário de Novaes (1933-1983), in
Biblioteca de Arte da F.C.G..



(Ajeitado às 11h20 da noite.)

domingo, 19 de abril de 2009

Know by Now


Robert Palmer - Know By Now
(1994)

Semântica do enriquecimento

"ilícito", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2009, http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx?pal=ilícito [consultado em 2009-04-19].

 Ouvi anteontem a srª procuradora Cândida de Almeida a enunciar o enriquecimento sem causa. - Esta façanha de haver alguém enriquecendo sem causa deve remeter para o Divino pois não se concebe nada sem causa senão Ele. Por este ponto de vista só, seria avisado pôr mais ponderação na caça aos ricos, vá lá saber-se em que malha nos iremos enredar... - No caso, faltou à srª procuradora dizer, é claro, causa conhecida. O como enriquece alguém.

 Este assunto de como se ganha muito dinheiro na vida assombra alguma gente (como eu, que fico assombrado com a dor de cotovelo que me sempre dá ver passar qualquer figurão num descapotável). Até aqui, a Lei considerava o enriquecimento como tendo causa legal ou ilegal. Ultimamente uns novos moralões ditam que se incrimine quixotes-

camente o porquê da riqueza; a Assembleia legisla obedientemente e delega na consciência do almoxarife (o que torna a dor de cotovelo aleatoriamente perigosa).

 Está certíssima a nova terminologia enriquecimento ilícito: a semântica da nova lei propõe penas ao enriquecimento contrário à moral e à consciência. Conto que a moral dos ricos e a consciência dos enriquecidos venha a ser muito debatida na especialidade para servir de guião aos fiscais dos impostos. Como exemplo estude-se o caso daquele ex-ministro das Obras Públicas que se demitiu de consciência (politicamente) pesada por ruir uma ponte; por ironia ganha agora honestamente a vida como administrador duma grande empresa de obras. Calculo que fique mais rico de ano para ano, sem negar que pague justamente os seus impostos. Ele próprio admitiu em entrevista que, por conhecer governantes, ex-governantes, políticos de aparelho, todos os banqueiros e outros empresários, família, amigos, compadres, etc. potencia os negócios do seu patrão. Disse-o tão naturalmente quanto sabe o impossível que é taxar a rede clientelar de qualquer tratante (salvo indirectamente nos próprios negócios, se forem claros). Tal como não se pode incriminar alguém por ganhar dinheiro só porque conhece muita gente de negócios. Este modo de ganhar a vida pode só recriminar-se, nada mais. Não gera receita fiscal. Mas pode fazer-se de conta: através duma lei que cobre 60% ou 70% de imposto quando alguém tropeçar, digamos... numa mala cheia de dinheiro. Propaga (propagandeia) isto com vantagem uma certa moral que colhe votos e a mim reconforta da dor de cotovelo pelos descapotáveis dos outros.

 Aos fiscais das Finanças não imagino...

sábado, 18 de abril de 2009

Surpresa?


A Susan Boyle é feia? Ou somos nós? No sábado à noite ela esteve em placo no Britain's Got Talent [espécie de Chuva de Estrelas?];  baixa, gorducha, com nariz achatado, dentes tortos e cabelo mal amanhado. Vestia um vestido rendilhado que lhe dava o ar dum porquinho num napperon. Entrevistada antes pelo Ant e pelo Dec [elementos do júri, suponho], disse-lhes que estava desempregada, era solteira, vivia com um gato chamado Pebbles e nunca fora beijada [...] "


Tanya Gold, The Guardian, 16/4/2009 (a tradução é minha).


 Parece impossível, do que vejo da televisão e do mundo do espectáculo, que não houvesse naquele programa um maquilhador, uma cabeleireira, etc... O fenómeno Susan Boyle é tão burlescamente encenado que mete dó. Que os fabricantes da moda fashion e os anotadores da agenda mediática se possam sentir mal com os modelos frívolos que propõem não me admira. Agora que queiram pespegar em mim os engulhos de consciência que (não) têm, desenganem-se.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Cautela e caldos de galinha

 Tem-me certas vezes dito alguém que prezo que as ironias daqui sobre alguma gente grada despertam poucos comentários porque as pessoas se arreceiam.
 Bom! Sei que no tempo antigo o respeitinho era muito bonito, mas oiço por todo lado dizer que isso era dantes e que entretanto acabou. Em boa verdade, ele pode ser que sim, pode ser que não... Não sei. Certo é que uma mentira muitas vezes repetida parece que se torna verdade; a gente convence-se. Mas também sei que a ironia é um exercício difícil e, em sendo fraca, tende a não suscitar comentários de espécie nenhuma. — Como no caso da gente grada que viso daqui! — Cuido que é disso que se trata: falta de acerto com a ironia. Vale-me que cativam facilmente, sem obrigar a tomar partidos, umas fotografias nostálgicas ou umas historietas de quando era miúdo... — Como aquela de eu gostar de comer caldos Knorr aos bocadões, sem moderação. A minha mãe não apreciava aquilo; dava-me só umas lascas e dizia: — "Cautela, filho, que isso em demasia pode fazer mal!"


Caldo de galinha(Imagem adaptada dos Dias que Voam.)

 Não acho que tenha nada a ver. A Origem das Espécies fechou.

Visita de médico

Visitaante nº 152.611

- Não se demora mais um bocadinho?!...
- Beba mais um copo! As sardinhas estão ao lume.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Ministro da Fazenda

Estatística...

Achei que devia pôr aqui uma palavrinha de boas-vindas ao sr. ministro.


(Fonte: Analytics do Google)

Mangas de alpaca (geração XXI)

Chimpanzés de gravata certificada



 Ontem pus  que o sr. primeiro ministro fora a Sintra dizer coisas sobre comarcas judiciais. Em rigor em rigor, a coisa agora dá pelo nome de 'Mapa Judiciáiro'. A diferença aparente de nos referirmos a comarcas ou a um 'mapa' é a que vai dum sisudo oficial da velha guarda do ministério a um assessor de fato folgado, nó de gravata certificado e gabinete a seguir ao do ministro... E que faz desenhos num mapa.


(A imagem é da Não-Enciclopédia e só por disparate calhou cá.)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Do discurso

 O sr. primeiro ministro - que aparece todos os dias na televisão a dizer coisas - foi hoje a Sintra dizer coisas sobre comarcas judiciais. O sr. presidente da Câmara de Sintra - que aparece todas as semanas na televisão dizendo sobre coisas da bola - lá o recebeu ao pé do tribunal.
 O que eu gostaria de ouvir destes senhores é se acham que o I.C. 19 já vale a pena.

Cacém (c) 2008
I.C. 19 vai valer a pena, Cacém, 2008.
(c) Luísa Gonçalves.

Das inaugurações

 Hospital de Santa Maria inaugura hoje farmácia... O sr. primeiro ministro e a srª ministra da Saúde comparecem à cerimónia. O hospital inaugura e Suas. Exas. comparecem. Parece macarrónico mas ficaria mal pôr no jornal: Primeiro ministro e ministra da Saúde inauguram hoje uma farmácia...
 De todo o modo, abrir lojas de remédios ao lado das Urgências dos hospitais é um ovo de Colombo. Mérito ao governo, pois claro! Mais brilhante - assim que me lembre agora - só se fosse abrir lojas de inaugurações ao lado de ministérios.
 De dar a um particular o rendoso negócio da venda de remédios à saída da Urgência, enfim... é a moda que nos rege: é de senso comum que os hospitais não são para gerir farmácias, mesmo possuindo dispensários. Calhando sabem melhor ser senhorios. E inaugurar inquilinos.



Hospital de Santa Maria, Lisboa (A. Passaporte, c. 1954)
Hospital Escolar - entrada principal, Lisboa, c. 1954.
António Passaporte, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Sumos e refrigerantes

 Houve tempos em que refrigerantes à refeição - em todas as refeições - era coisa que não acontecia. Só no Verão, nas férias em casa do avô isso se tornava regra. Achava engraçadas as marcas das gasosas e das laranjadas que havia lá na terra. Nunca eram as que conhecia na cidade.
 Esta era das da cidade.


Cirel (c) Sandra Longo Fernandes
Cirel, s.l., 2007.
Sandra Longo Fernandes, in Olhares.

domingo, 12 de abril de 2009

Alteração de tarifas

 A partir do dia 12 de Abril de 1951 (quinta-feira) a tarifa para as viagens entre os Restauradores e a Praça do Comércio e vice-versa nos autocarros da carreira nº 4 é reduzida para 5 tostões.


Autocarro 4, Lisboa, 1983.
Fotografia: Phill Trotter.

sábado, 11 de abril de 2009

A.E.C.

Autocarro nº 3, Santo Amaro (anos 40)


 Uma das coisas que me intrigava em miúdo era a marca dos autocarros. Via-lhes uma pequenina chapa triangular nos radiadores que dizia A.E.C., mas naquele tempo ninguém lá na rua tinha ouvido falar de nenhuma marca A.E.C.; muito por isso duvidávamos que A.E.C. fosse a marca dos autocarros.
 O Rui Brandão é que duvidava menos... 


« Conhecem-se as matrículas atribuídas pela D.G.V. e, dadas as características similares a todos os veículos então importados, justifica-se patentear aos leitores a descrição técnica destes autocarros de cor verde que, no ano de 1940, os lisboetas viram pela primeira vez circular nas suas ruas. Esta descrição, conforme o respectivo livrete de um destes veículos, designava a marca do construtor A.E.C. / The Associated Equipment Co., fábrica com sede em Southall Middlessex, Inglaterra. O modelo Regente havia sido fabricado em 1939. No seu livrete figura o n.º do quadro, o n.º do motor, a potência do seu motor Diesel (31 cavalos), bem como o n.º de 6 cilindros, de 7,7 litros de cilindrada, com designação da respectiva tara em vazio (6 820 Kilos), o peso do quadro (4 164 Kilos) o n.º de lugares (28), as dimensões dos pneumáticos, o tipo de transmissão. A sua caixa de velocidades era conhecida pela firma Weymann ou do tipo Wilson. As suas dimensões atingiam os 7,975 metros de comprimento por 2,283 metros de largura e 2,900 metros de altura. Todos estes carros estavam providos com travões manuais e de vácuo. Calçava pneumáticos de 900 x 20 de dimensão, o sistema de iluminação e a data de entrada em Portugal: 12 de Abril de 1940. Refere-se que a este veículo da pré-história dos “verdes”, que por dezenas de anos circularia nas artérias da capital, foi concedida a matrícula GA-11-09.
 […]
 Ainda por altura dos preparativos para o iniciar do novo serviço, com data de 11 de Abril, existe nos arquivos da Carris um curioso requerimento da C.C.F.L., dirigido ao Eng.º Director dos Serviços de Viação de Lisboa. Encontra-se assinado pelo Director Baptista Coelho:
  A Companhia Carris de Ferro de Lisboa, Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada, com séde em Lisboa, e escritórios na Rua Primeiro de Maio N.ºs 101 e 103, vem solicitar a V.Exa. se  digne autorizar que o Snr. R. J. WILKINSON, possuidor da carta de condução de autos-ligeiros N.º 40901, possa conduzir o auto-carro que esta Companhia  recentemente adquiriru e que se encontra na Alfandega de Lisboa, visto não haver ao seu serviço, outra pessoa com practica para conduzir o dito auto-carro, que é equipado com dispositivos mecânicos diferentes de todos os outros carros pesados existentes no paiz. Foi já solicitada por esta Companhia autorização á P.V.D.E. (Secção Internacional), para vinda de um perito inglês para ensinar os motoristas que, de futuro, irão trabalhar com os auto-carros. Esta Companhia torna-se responsável pelos desastres ou acidentes causados pelo acima mencionado auto-carro quando conduzido pelo Snr. Wilkinson”.»


História da Companhia de Carris de Ferro de Lisboa em Portugal (1901-1946), Lisboa, C.C.F.L. e A.P.H., 2006, pp.79 e ss.





Fotografia: Autocarro n.º 3 e grupo de funcionários na estação de Santo Amaro. Década de 40.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Passeios de charme?

Só para turistas vip e convidados de S. Ex.ª o sr. M.O.P.T.C..
 


Portas de Benfica, Lisboa, 2009
Portas de Benfica, Lisboa, 2009.


 




Nota: o telefone indicado é da sucessora da J.A.E. e destina-se a queixas de má sinalização ou estragos nas estradas; para turismo propriamente dito pode eventualmente tentar aqui... mas não garanto nada.

O ovo do Colombo

Torre(s) Colombbo, Lisboa, 2009

Torres - no plural - Colombo. É só uma. Vai haver mais, percebe-se. A falta de rigor é, pois, aparente: trata-se já do ovo no cu da galinha. Ou do Colombo.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Quartier Suisse


A Câmara de Lisboa aprovou hoje o projecto de arquitectura que vai transformar o quarteirão da pastelaria Suiça, no Rossio, num hotel de cinco estrelas [...]



 Não se podia refazer as casas? Para morar Gente.
Com uma campanha certa nas iholas e nas Caras Notícias, com gente chique e cheia de charme ditando o bom gosto que é morar no Rossio, mostrando casos que é como se faz lá fora, em New York ou em Paris, sei lá!...
 Com tantas iniciativas não há marketeer camarário que pense nisto? Fazer da Baixa uma luxuosa downtown, com Gente bonita, sofisticated, com as melhores cadeias de lojas mundiais que logo haveria. Isso sim, é que seria. Vá, coragem!
 Agora turistas contentorizados... Ora que chatice!

Xé-Xé, figura proeminente do Carnaval (Rossio, 1898?)
O Xé-Xé: figura proeminente do Carnaval, Rossio, [1898?].
LISBOA. Câmara Municipal. Arquivo Municipal - Rocio-Rossio: terreiro da cidade. Porto : Edições Asa, 1990.

Do alto da Graça à Europa, em declive acentuado

A Graça fica numa colina e as ruas têm quase todas uma certa inclinação pouco europeia [...]



Calçada da Graça, Lisboa (E. Portugal, 1940)
Palácio dos senhores de Trofa, Calçada da Graça, [s.d.]
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Blé

 Uma vez que estava em casa do Rui Jorge, a avó dele, a Dª Engrácia, estava a dizer do filho do cigano Sabastião. Que coitadinho, era tonto; que passava o tempo a chuchar no dedo e não dizia nada que prestasse. Ou melhor, dizia; uma palavra: blé. E que fora ela quem, em virtude disso, o crismara Blé. - Ou Bulé, há quem diga. - Na realidade não sei ao certo se foi a Dª Engrácia. Inclino-me a acreditar que sim, que foi. E também me inclino a crer que o Blé se chama João. Mas não sei... Nem sei quantos saberão se o Blé é João ou outro nome qualquer. A verdade é que o Blé, por menos tino que tivesse, veio a aprender a dizer o suficiente para não se perder por aí por onde vagueia. Isso e algum dinheiro que lhe daria o pai, o Sabastião... - que a minha mãe dizia era sério, que não enganava as freguesas na venda. - É um trota mundos, o Blé.

 Há dias tive uma conversa séria com o Blé, quando o apanhei por acaso na Carlos Mardel e me meti com ele:

 - Então Blé, estás bom? Onde vais tu com um ramo de flores?

 Ia à igreja.

 - E à tarde vou a um funeral. Duma rapariga que morreu. Da Curraleira.

 - E vais a qual igreja, Blé? À de Arroios?

 - Não. Á de... de... Não me lembro - e abanou a cabeça como quem diz: - "olha que parvoíce, esqueci-me!"

 - Não te lembras?! Mas sabes o caminho?

 - Sei. Dá-me uma moedinha. Para ir no autocarro.

 ...

 



 


O Blé pode ser tonto. Mas lá parvo é que ele não é.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Sorria! Está a ser filmado



 


 Uma empresa nacional – ouço na telefonia – fabricou um engenho para rastrear crianças. Como é uma empresa nacional designou a invenção como ‘child locator’.

 Um pedopsiquiatra entrevistado põe reservas, e bem, à trela rastreadora. Salvo nos casos de crianças deficientes, sujeitas a confusão e a poderem perder-se por aí.

 – Que diabo?!... Vede lá afinal a febre controleira pousando de mansinho sobre os indivíduos mais fracos! - Não tarda, quando a paranóia da protecção dos desprotegidos estiver toda vendida, haverá uma grande manápula a pôr-

-nos todos na linha. Melhor que dantes…

 A este propósito acho graça à converseta desta era da inclusão e aos estigmas que ela cegamente lança. Tudo com a desculpa de protecção: às crianças, aos fraquinhos. Já nem podem as crianças crescer à vontade (ou mais ou menos à vontade) só com o dever tradicional dos pais olharem por elas. Na forma tradicional, bem entendido. - Ah! os pais estão a trabalhar, pois é!... E é precisso encarreirar os meninos no modo de produção… Ora bem!...

 O Blé ainda há dias vinha pela Carlos Mardel no seu andar característico que parece arrastar o pé esquerdo. Vinha com um ramo de flores. Para a capela da igreja, pela certa; algum recado que lhe deu a florista da praça para fazer. Pois bem, voltando ao início: o Blé  não pensa bem. Nasceu assim, é inofensivo, e é filho do cigano Sabastião. Nunca foi preciso pôr-lhe coleira ou açaimo nem nunca se perdeu. Em rigor, nem mesmo quando o careca da leitaria o foi buscar ao aeroporto (dizem que se transviara a ponto de o apanharem a embarcar num avião); nem sequer quando o Barão do táxi correu a Aveiro (cf. "O Nobre Planeador") para tornar cá com ele. Mas parece que os humanos se perdem por falta de protecção. No fundo não passam de crianças ao serviço dum desígnio maior: o modo de produção de excelência. E nisso devem seguir as boas práticas.

domingo, 5 de abril de 2009

Agulheiro

Estação de Campolide, Lisboa (M.Novais, s.d.)

Estação de Campolide
, Lisboa,[s.d.].

Fotografia: Estúdio de Mário de Novaes (1933-1983), in
Biblioteca de Arte da F.C.G..

sábado, 4 de abril de 2009

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Aprovado!

Obra a obra, Lisboa melhora...

Av. Duque de Loulé, Lisboa (Estado Sentido, 2009)
Rua Luciano Cordeiro, Lisboa, 2009.
Fotografia de Lisboa arruinada in Estado Sentido.



Adenda: adicionado um ponto de exclamação ao título às vinte para a três da tarde.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Gasoso

 Uma máquina de sandes vende o ¼ de água com gás por mais 20$00 (€ 0,10, há-de corrigir-me alguém…) que o ¼ de água sem gás.

 São ambas águas de nascente...

 Partindo do princípio que encanar e engarrafar águas de nascente deve custar o mesmo independentemente do tipo de água, posso deduzir, porém, que o preço mais caro da água com gás se deva ao gasoso. Mais ar são mais vinte mil réis, portanto.




%3Fgua do Vimeir.jpg

(Autocolante do 1140.)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dia das mentiras


 O dia 1 de Abril é o dia das mentiras. Não vou agora contar nenhuma, estou só a lembrar-me que a propósito deste dia das mentiras vi uma reportagem na televisão — creio que foi já há dois anos — sobre a mentira, o boato e a calúnia lançadas sabe-se lá com que propósito sobre as pessoas. Um dos casos usados para ilustrar a reportagem foi o da 'amizade colorida' do sr. engenheiro Sócrates com o actor Diogo Infante, que salvo erro até apareciam entrevistados. Não tenho a certeza se a expressão «campanha negra» foi já então usada pelo sr. engenheiro Sócrates para qualificar o boato. Que ele se achava infamemente caluniado pelas mentiras já tenho menos dúvida.
 Ora na altura achei curiosa a ironia desta espécie desmentido ter ido para o ar no próprio dia das mentiras. Hoje admiro-me que, consideradas as últimas ideias do sr. primeiro-ministro Sócrates acerca de dois homens poderem vir a casar-se um com o outro, ele se tenha sentido tão caluniado com o teor do tal boato. É que não se vê razão.


 


(Imagem do blogo da Disney.)