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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Blé

 Uma vez que estava em casa do Rui Jorge, a avó dele, a Dª Engrácia, estava a dizer do filho do cigano Sabastião. Que coitadinho, era tonto; que passava o tempo a chuchar no dedo e não dizia nada que prestasse. Ou melhor, dizia; uma palavra: blé. E que fora ela quem, em virtude disso, o crismara Blé. - Ou Bulé, há quem diga. - Na realidade não sei ao certo se foi a Dª Engrácia. Inclino-me a acreditar que sim, que foi. E também me inclino a crer que o Blé se chama João. Mas não sei... Nem sei quantos saberão se o Blé é João ou outro nome qualquer. A verdade é que o Blé, por menos tino que tivesse, veio a aprender a dizer o suficiente para não se perder por aí por onde vagueia. Isso e algum dinheiro que lhe daria o pai, o Sabastião... - que a minha mãe dizia era sério, que não enganava as freguesas na venda. - É um trota mundos, o Blé.

 Há dias tive uma conversa séria com o Blé, quando o apanhei por acaso na Carlos Mardel e me meti com ele:

 - Então Blé, estás bom? Onde vais tu com um ramo de flores?

 Ia à igreja.

 - E à tarde vou a um funeral. Duma rapariga que morreu. Da Curraleira.

 - E vais a qual igreja, Blé? À de Arroios?

 - Não. Á de... de... Não me lembro - e abanou a cabeça como quem diz: - "olha que parvoíce, esqueci-me!"

 - Não te lembras?! Mas sabes o caminho?

 - Sei. Dá-me uma moedinha. Para ir no autocarro.

 ...

 



 


O Blé pode ser tonto. Mas lá parvo é que ele não é.

6 comentários:

  1. Olá!
    Conheço o Blé. Em muitas das vezes que se fala dele, o meu marido conta da vez em que ele conseguiu entrar no aeroporto e se meteu dentro de um avião. A intenção dele era ir visitar a família nos Açores...

    Cumprimentos

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  2. Conta-se que certa vez o careca da leitaria foi ao aeroporto com o cigano Sabastião (ou a pedido dele) buscar o Blé. Uns diziam que ia a entrar no avião, outros que já tinha embarcado e sentara-se lá dentro. A intenção não sei.
    Provavelmente andaria só perdido no terminal da Portela.
    Cumpts.

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  3. Attenti al Gatti15/4/09 23:09

    Não me admiraria que o Bolé apanhasse o avião. Há-de haver uns 25 anos encontrei-o eu, ao raiar da aurora, sózinho, à beira da estrada, em Grândola. O nomadismo está-lhe na genética.
    O destino da moedinha pedida é que não corresponderá à realidade, já que o Bolé anda muito de autocarro, mas à "borla". Se calhar tem um livre trânsito atribuído em função do seu estatuto.
    A.v.o.

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  4. Não se perdeu nada não ter uma para lhe dar, então. Menos mal.
    Cumpts.

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  5. Rui França3/5/09 14:03

    Ao vaguear por este blog espectacular eis de uma coisa que conheço bem. Já nem me lembrava dele, do Blé. Cresci no bairro da picheleira e desde sempre me lembro dessa personagem. Continue com este excelente blog. Quando puder conte algumas "histórias" da minha Picheleira. Obrigado

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  6. Para esse efeito permita-me sugerir-lhe o Pipàterra. Cumpts.

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