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domingo, 31 de março de 2024

Senhora da Hora

Senhora da Hora, Portugal (G.  Woods, 1974)
Senhora da Hora, Portugal, 1974.
Jorge Woods, in Flickr.

sábado, 30 de março de 2024

Do tempo

 Anda aí muita mente embotada pela propaganda, que o tempo não anda certo, tão invernoso nos alvores da Primavera, e que isso é…


 É certo que o tempo nunca foi certo. E mais certo ainda que a memória é curta. Até a minha. Há sete anos dizia também eu do tempo que, pois, não andava calhado…


 


Casal de melros no galho da macieira. Basil Ede, 1978


 O melro tímido que me apareceu há sete anos (ou um novo por ele) canta agora em pleno. Este ano, desde Fevereiro. As mentes pensem lá o que queiram…



 




A aguarela do Casal de melros no galho da macieira é de Basil Ede, 1978. 
A cantoria, ou o som de Lisboa ao acordar, foi captada nuns quintais alfacinhas em 14/III/24 às 5h32.

quinta-feira, 28 de março de 2024

Casa do Douro ou Portugal nas vésperas do fim

Portugal nas vésperas do fim, Alto Douro (G. Woods, 1974)
Ponte ferroviária do Corgo, Peso da Régua, 1974.
Jorge Woods, in Flickr.

domingo, 24 de março de 2024

Variedades: Chatanooga Choo Choo

 Chatanooga Choo Choo — Serenata ao Sol, 1941.
Glenn Miller & Orquestra;
Tex Beneke, Paula Kelly & The Modernaires;
The Nicholas Brothers & Dorothy Dandridge.


 

Do vazio à escrita (textos com recheio de nada)

Sabias que Marco Aurélio praticava Journaling?


 É um diário? É um journal? É um imperador romano de inspiração amaricana?


 Não. É o diário de uma quarentona, uma journal coach com artigos publicados até na imprensa. Sabias? — Diria-me talvez ela por tu…


 É verdade!


 Em momentos de solidão e silêncio, o Imperador mergulhava no seu mundo interior e nos seus pregaminhos [sic].


 Pergaminhos de bom coiro, bem vejo. Em formato electrónico, com trocadilhos à antiga portuguesa (Escrita C' Alma) e à moderna portuguesa (Write from the Soul), para que todos popularmente entendam.


 Onde vai já a romanização!…


 Marco Aurélio (ou Marcus Aurelius, no original amaricano) foi a primeira pessoa da história a manter um diário, ou Journal [sic], como é hoje popularmente conhecido.


 A primeira, pessoa, da história, nem mais!


 «Escreve como o Imperador!» — Assim mesmo: por tu e em modo imperativo. Está nas recomendações de blogos. By Sapo muito naturalmente…


SapoBlogs [sic] (blogs.sapo.pt, 24/III/2024)

quinta-feira, 21 de março de 2024

Do rectângulo…

 De vez em quando o supermercado global das notícias menciona o rectângulo. Menos a fazer caso das razões dos Portugueses, mais para afagar a opinião de estrangeiros [e estrangeirados]. Não é de agora…
 Mais raro é haver alguém de fora que corrija o tiro.



« Para contexto, sou um imigrante (inglês) que vive, trabalha e tem uma família jovem aqui em Portugal […]


   Para perceber a extensão e rapidez da mudança na imigração, há só 10 anos a minha mulher conhecia pelo nome todos os vizinhos da sua rua. Toda a gente da rua se cumprimentava, e não pensaria duas vezes em deixá-la regressar a casa sòzinha à meia-noite. Agora, não conhecemos quase ninguém, sendo talvez os últimos residentes naturais numa rua de «Airbnbs» e de aluguer de quartos baratos a imigrantes do terceiro mundo. O soar suave do fado da telefonia dos antigos vizinhos em cada manhã de sábado foi trocado pelo ribombar repetitivo dos graves repelentes do quizomba. Todas as mercearias de portugueses da rua, menos duas, que vendiam enchidos, frutas e legumes, foram tomadas por asiáticos que falam só inglês macarrónico (e de Português nem palavra) e vendem apenas bebidas alcoólicas, tabaco e comida de plástico. O café central é uma loja de kebab. Nem parece Portugal. Para nós, por muito torcionários e injustos que sejam cá os impostos, é caso de menor importância do que garantir que o país onde os nossos filhos cresçam seja seguro e decente.


   Quando pomos em dúvida estas mudanças trazidas por um volume nunca antes visto de imigração a resposta da velha-guarda, como o meu sogro, é que os imigrantes contribuem com seis vezes mais do que recebem (ou sete, segundo o Guardian). A origem desta estafada estatística é dúbia, mas mesmo sendo verdadadeira não deveria então perguntar-se: — Muito bem, mas quais imigrantes? — Eu sou imigrante, contribuinte numa quantia exorbitante de impostos e não colho quase nada em retorno (temos até um nosso seguro de saúde); devo por conseguinte ser metido na mesma estatística das mulheres asiáticas que vêm para cá simplesmente para ter os filhos nos hospitais do Estado? Mais, mesmo que seja certo que os imigrantes aumentam o nosso P.I.B., muitos aceitaríamos de bom grado ser um pouco mais pobres se pudéssemos voltar a ter o  Portugal ensonado, pacato, culturalmente homogéneo doutros tempos. »


Granger, «In Portugal, the Voice of the People is at Last Being Heard», The Daily Sceptic, 20/III/2024 (excerto; trad. minha).


 



«O pintor dos Galos de Barcelos. Artesanato na década de 1950», Portugal. Foto © Editions Lumière et Beauté, in Colecção da Fundação Portimagem.
O pintor dos Galos de Barcelos. Artesanato na década de 1950, Portugal.
Foto © Editions Lumière et Beauté, in Colecção da Fundação Portimagem.

Vestígios de Portugal

 Li não sei onde que, estando na Guiné, em diálogo, alguém dizia — Aquilo que se vê aí feito, foram os Portugueses. Os outros a seguir não fizeram nada, só partiram tudo.
 Não sei se é verdade, mas lembrei-me.
 De Portugal, ao depois de devir em rectângulo, e olhando ontem vestígios fotográficos dele, bem parece.

Liceu D. Felipa de Lencastre, Lisboa, [s.d.] (A. n/ id., in DOCOMOMO Ibérico)
Liceu D. Felipa de Lencastre, Lisboa, [s.d.].
A. n/ id., in DOCOMOMO Ibérico.

Liceu D. Felipa de Lencastre, Lisboa, 1976 (Álvaro Campeão, in archivo photographico da C.M.L.)
Liceu D. Felipa de Lencastre, Lisboa, 1976.
Álvaro Campeão, in archivo photographico da C.M.L.

terça-feira, 19 de março de 2024

Boer (ainda)

Grande Dicionário da Língua Portuguesa (de António de Morais Silva), 10.ª ed. rev. corrig. muito aum. e actualizada segundo as regras do Acordo ortográfico Luso-Brasileiro de 10 de Agosto de 1945 por Augusto Moreno, Cardoso Júnior eJosé Pedro Machado», vol II, [s.l.], Confluência, imp. 1950.


 


 Ainda «boer»; deu-me curiosidade de procurar na Biblioteca Nacional digital. No Grande Dicionário da Língua Portuguesa (dito de Morais, 10.ª ed., imp. 1949-1959) para referir que: 1) propõe a pronúncia bur de acordo com a fontética holandesa, não obstante, 2) o uso ser a) bó-er, mas, mais vulgarizado ainda, b) bu-ér.
 O vol. II, que dá a entrada «boer», foi impresso ou publicado em 1950, antes da data de publicação do Dicionário Etimológico em que José Pedro Machado, um dos co-autores desta 10.ª ed. do Dicionário de Morais, e corrobora aquele dicionário a pronúncia vulgar buér aqui mencionada.


 Isto para dizer que por 1950 a enunciação da palavra «boer» oscilava entre bóer e buér, sendo a segunda a mais vulgar nesse tempo. Reparo que desde aí a enunciação como como bóer se vulgarizou mais e mais e buér se perdeu. Pode ser ou não caso da prevalência crescente do modo inglês sobre a nossa língua [o recuo da tónica]; o que é certo é que em qualquer dos casos — bóer ou buér — foi a primazia da palavra tal como se via escrita sobre a oralidade que fez regra. De modo que a articulação bur, cuja fonética holandesa aconselha (holandesa do Cabo, não havia de ser?), é artificial, sòmente proposta que é por lexicógrafos, e como tal, naturalmente, só achada em dicionários. Assim mesmo se deduz da 2.ª ed. do Aulete, de 1925 (a 1.ª ed.,  de 1881, não regista a palavra), que para «boer» indica a pronúncia bure, a qual, como já vimos, se nunca vulgarizou, embora continuasse e continue a ser indicada nos dicionários como preferível.


Boer (Diccionario Aulete, 2.ª ed., Lisboa, Parceria A.M. Pereira, 1925


 Uma bizantinice lexicográfica como esta de indicar bur só porque os holandeses articulam bur, não será ela idêntica a querer Amsterdam, Rotterdam, e até London e por aí fora, para dizer Amesterdão, Roterdão, Londres? Ante a importação do vocábulo pela forma escrita, o génio do Português manda, a meu ver, realmente, ler e dizer bu-ér. E o uso vulgar assim o fez. Até, pelo menos, aos anos 50…




Dicionários:
Grande Dicionário da Língua Portuguesa / António de Morais Silva. — 10.ª ed. — [s.l.] :  Confluência, imp. 1949-1959 [vol. II, 1950].
Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza / F. J. Caldas Aulete (feito sobre o plano de). — 2.ª ed. actualizada. — Lisboa : Parceria António Maria Pereira, 1925.

segunda-feira, 18 de março de 2024

«Abrunheiro-de-jardim em flor», Cruz do Tabuado — © 2023
Abrunheiro-de-jardim em flor, Jardim da Cruz do Tabuado — © 2023


 


 De há dias que o tempo se pôs com cara primaveril. Alguém ontem comentava-o.
 — O tempo finalmente está a ficar bom.
 Ao depois, como toda a gente que não ouve senão o evangelho do notíciário vigente, logo contrapôs.
 — Mas em São Paulo estão 60º; temperatura sentida — não fosse o tempo primaveril no advento da Primavera fazer esquecer o dogma.
 Ora bem — pensei —, 60º no lombo em São Paulo é obra. Obra apostólica, com missa rezada…
 Lá procurei sossegar a pessoa.
 — Não deve haver problema. Os brasileiros estão todos cá.

domingo, 17 de março de 2024

Variedades do tempo da guerra


Buddy Clark & Dolly Mitchell — Moonlight Cocktail
(Realização: Dave Gould, 1942)

sábado, 16 de março de 2024

Bóer, Bur

 A propósito dum aportuguesamento levado a cabo em dicionários, levantou um leitor o caso de bóer e bur, ressalvando que o que ouve pronunciar é buar (búar).


 Para lhe responder de imediato fui ver primeiro bóer e, de feito, está aportuguesada assim. Não só portuguesada, como infopædiada e priberamizada, e tem já das tais coisas: os brasileiros abrasileiraram por seu lado bôer (embora digam que aportuguesaram, como de costume), que aliás é como me calha mais dizer. Somo a isto que a um compatriota nosso de Moçambique que ao depois passou à África do Sul ouvi sempre bur (e daí, talvez, búar…).


 Para mais cabal resposta e para minha própria ilustração, prometi que havia de ir aos dicionários impressos que tenho, do que dou agora nota.


Aulete, 1.ª ed. (Lisboa, 1881). Omisso.


Aulete em linha. Bôer,  com circunflexo, à brasileira. O verbete original (original não sei como porque na 1.ª ed. é omisso) remetia sem mais para bures, no plural, omitindo bur. O verbete actual bôer dá já definição e o plural bôeres. (O Aulete emigrou para o Brasil há muitos anos. Talvez hoje em dia um verbete original seja depois que lá chegou…)


Dicionário Enciclopédico Ediclube (1996). Boer (sem marcação de acento ou pronúncia). Como dicionário enciclopédico que é manda ver Guerra dos Boers [sic]. Não remete todavia para bur, mas no verbete deste remete para a forma anterior.


Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Morais, 2002). Boer (sem marcação de acento ou pronúncia). Omite bur.


Lello Prático Ilustrado (1976). Boer (sem marcação de acento ou pronúncia). Prefere bur, por grafia exacta, e remete para esta forma.


Porto (5.ª ed.,1974). Boer (sem acento), o mesmo que bur, verbete este onde refere que a pronúncia portuguesa mais vulgar é bóer (assim mesmo, com acento).


 Mais.


Dicionário Etimológico. Boér (palavra aguda); remete sem mais para bur, onde estabelece a entrada  do vocábulo na língua portuguesa em 1903 com a publicação de «A Guerra Anglo-Boer. Impressões do Transvaal» (2 vols., Lisboa, Typographia Universal). No verbete bur explica ainda que a pronúnicia vulgar, por influência da escrita, é boér, que é curioso…


«A Guerra Anglo-Boer. Impressões do Transvaal, Lisboa, Typ. Universal, 1903.


 O Corpus do Português regista boer (no singular) pela primeira vez na obra de 1903 vista acima, e boers (plural) nos Contrastes e Confrontos (1907) de Euclydes da Cunha, uma compilação de artigos de imprensa anteriormente publicados, no caso, n' O Estado de S. Paulo («Contra os caucheiros», 22/V/1904; «Civilização», 10/VII/1904) e duma entrevista ao Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 14/I/1906.


 Outras ocorrências do plural boers no Corpus são posteriores e o plural boeres surge ao depois em textos mais recentes. Os Boers da Terrivel Guerra na Africa do Sul entre Inglezes e os ditos, talvez anteriores a 1903, não estão no Corpus do Português e a forma Bur também lá não consta nenhuma vez.


Terrivel Guerra na Africa do Sul entre Inglezes e Boers. Folheto em língua portuguesa, s.d.,in Ephemera, apud The Delagoa Bay Review, 15/X/2010.


 Em todos os dicionários o sentido geral do nome ou adjectivo, em qualquer das formas, remete para africânder (gente) ou colono sul-africano branco de origem holandesa.


 Um outro sentido, porém, que, salvo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, nenhum dos dicionários aqui arrolados dá a boer é o de língua africânder. O africânder, ou holandês do Cabo, foi normalizado como língua escrita por 1875. Até aí a língua dos colonos do Orange e do Transval era também designada como boer. Não parece que este sentido tenha feito falta na língua portuguesa, porquanto nem do termo há registo antes da Guerra dos Boeres.


 Todos os dicionários remetem (quando remetem) ao holandês como origem da palavra, o que é verdade. Porém, cuido que boer nos veio ao português por via do inglês. Basta lembrar que foi da África do Sul (ou da Colónia do Cabo) que nos chegou pelas circunstâncias históricas que se conhecem. Nada mais lógico nesse contexto do que um plural já acabado à ingleza naqueles tempos (e hoje, mais do nunca!…) É o caso do plural que encontramos nos primeiros registos da palavra em textos portugueses — boers — o plural inglês; o holandês boeren e o africânder boere, nenhum deles consta (e de estranhar seria, dá-me impressão…)


 E bem, mas a final, boer, boér, bóer/bôer, bur?…


 Boer (boér > bóer/bôer) parece estar consagrado. De mais, é evidente que o vocábulo entrou no português pela escrita e foi dela que lhe moldámos a oralidade, não do holandês nem do holandês do Cabo (ao inglês já lá vamos…) Se no primeiro tempo o retorno da escrita sobre a oralidade deu a pronúncia boér, como nos indica José Pedro Machado no Dicionário Etimológico (cuja 1.ª ed. é, recordo, de 1952), os dicionários mais recentes convergem agora na pronúncia bóer/bôer, fenómeno de recuo da tónica a que não há-de ser estranho o tresandar «amaricano» na barbarização do português nas últimas décadas. (Cá está, pois, o inglês). Ante a escrita boer, sem acentos, de quando nos chegou a palavra em 1903, o génio do nosso idioma manda naturalmente ler boér em vez de bóer. Em todo o caso talvez o melhor fosse omitir de vez acentos em boer, como em tempos se decidiu para comboio ou dezoito por causa de pronúncias divergentes.


 Bur, por seu lado, ressoa a purismo de lexicógrafo tirado muito à medida sonora do holandês do Cabo (ou do inglês do Cabo), que não é nada nosso, daí que se só ache em dicionários. Se se de lá perder, quem dele dará por falta?




A Guerra Anglo-Boer. Impressões do Transvaal, Lisboa, Typ. Universal, 1903, in Livraria Fernando Santos.
Terrível Guerra na Africa do Sul entre Inglezes e Boers. Folheto em língua portuguesa imp. no Porto, [s.d.], in Ephemera, apud A.B.M., «Moçambique, Portugal e a guerra Anglo-Boer de 1899-1902», The Delagoa Bay Review, 15/X/2010.


 

quinta-feira, 14 de março de 2024

Determine-se e mande-se publicar (a idade da T.A.P.)

T.A.P.79 Anos (Notícias ao Minuto, 14-3-2024)


 


 Diz hoje que há greve de jornalistas, mas o gabinete de comunicação e relações públicas da T.A.P. sempre conseguiu furá-la. A notícia aí está. Vamos a ela.


 «São 79 anos a abraçar o mundo»? Talvez.


 «[A] Companhia aérea assinala esta quinta-feira o seu 79.º aniversário»? Não.


«Transportes Aéreos Portuguese, S.A.R.L. Capital 120.000.000$00 (Sobrescrito)», post  1/6/1953.


 A companhia aérea Transportes Aéreos Portugueses, S.A.R.L., i.é, a T.A.P., foi criada em 1 de Junho de 1953 pela conversão da secção de Transportes Aéreos Portugueses da Direcção-Geral da Aeronáutica Civil em sociedade por acções. Até aí, os Transportes Aéreos Portugueses, i.é, os T.A.P. mais não foram que uma secção do Secretariado da Aeronáutica Civil (S.A.C.) e em seguida da D.G.A.C. até 1953.


 A companhia aérea tem por conseguinte 71 anos incompletos. Completá-los-á, se Deus quiser, no próximo dia 1 de Junho e, por mais de 20 anos, a companhia aérea contou o aniversário da sua fundação como era devido, no dia 1 de Junho. Disso, desses tempos, há boas provas na colecção do seu boletim trimestral «Inter TAP» que então a Companhia publicava.




« Em 1 de Junho [de 1971], às 20 e 30, foi celebrado, condignamente, em Lisboa, o 18.º aniversário de nossa Organização […]
 Houve, pois, um jantar de confraternização, no Hangar n.º 6, no qual  participaram cerca de três mil funcionários.
 Presidiu o Eng. Vaz Pinto, presidente do Conselho de Administração da Companhia, que dava a direita ao Ministro das Comunicações, Eng. Rui Sanches [&c.]»


Inter TAP, n.º 33, 2.º trim. de 1971, p. 15.



 18.º aniversário em 1971. Com representação do governo. Era, portanto, oficial.


 Até que veio a viradeira e (trivial!) rescreveu-se a História.


10 anos de naciolnalização (medalha comemorativa), Comissão de Trabalhadores [da T.A.P.], 1985.


 Em 16 de Abril de 1975 (Dec.-Lei 205 E/75, de 16/4/1975) a «companhia dos Transportes Aéreos Portugueses, S. A. R. L., é declarada nacionalizada com eficácia a contar de 15 de Abril de 1975». (Dez anos depois disto afadigava-se a Comissão de Trabalhadores em comemorar os 10 anos da bem dita nacionalização. Mais um aniversário para multiplicar a festa… Cf. «10.º Aniversário da nacionalização da TAP-Air Portugal», in Jornal da TAP, n.º 64, 15/1/1985.) E em Setembro de 1975 [22.º ano da constituição da companhia] a T.A.P. comemorou o seu… 31.º aniversário!


 Motivo?


 Num artigo do Jornal da T.A.P. da época, que não tenho posso agora identificar, um certo Jorge Lemos Peixoto aduz as razões do recuo da data da fundação da Companhia de 1953 — «com a passagem ao Capital Particular» — a 1944:



« […] Com a TAP nacionalizada, nada mais lógico que a reposição da verdade histórica, tanto mais que o seu primeiro Director — não havia Conselho de Administração — foi essa figura inconfundível, de dinamismo sem par, Humberto Delgado […]»



 O sublinhado é meu. A «verdade histórica» é do articulista entendido no caso. A colagem ao Humberto Delgado é o mais evidente. Òbviamente…


 A nacionalização e os colectivistas de 75 galgaram assim a fundação da T.A.P. para a data criação do Secretariado da Aeronáutica Civil (um órgão da administração do Estado, hoje A.N.A.C., criado pelo Decreto-Lei n.º 33 967, de 22/9/1944), a descaso da sua real constituição como sociedade anónima apenas em 1 de Junho de 1953, e que valera como já vimos até àquele ano de 75. (Atente-se aqui a profundidade da dedicação dos revolucionários para revolver as mais ínfimas coisas: mudar a idade da T.A.P. é um formidável exemplo.)


 Não estranha a confusão, porém, porque para colectivistas uma empresa nacionalizada e a administração pública é tudo o mesmo, mormente num período revolucionário em curso.


 Tábua rasa à criação da companhia aérea, ignoraram também que os T.A.P. só apareceram em 1945 no âmbito do S.A.C., como mero departamento seu, ou sua secção, pela Ordem de Serviço n.º 7 do próprio director do dito Secretariado, Humberto Delgado. É por esta O.S. do S.A.C., publicada em 14 de Março de 45 que, por fim (ou até ver), o C.A. da T.A.P. em 6/7/1982  (Acta n.º 1194) deliberou  que a partir de 1/1/1983 fosse considerado o dia 14 de Março como referência do aniversário da T.A.P. e a idade da companhia aérea passasse a ser contada a partir de 1945.


 Resumindo: a T.A.P. comemorou 20 anos em Junho de 1973 (há umapublicação comemorativa de que não possuo a ref.ª agora); não comemorou 22 anos em Junho de 1975, mas festejou o 31.º aniversário em Setembro desse ano louco; e deixou de haver de fazer 39 anos em Setembro de 1983 porque deliberou fazer 38 logo em Março desse ano.


 Saldo final: mais 8 anos [uma dessas conquistas de Abril]. E assim parece que faz 79.


 Conclusões: a História é o que foi; a historiografia é o que se queira; e a idade da T.A.P. é um bocadinho como agora essa coisa da identidade de género.


McDonnell Douglas DC-4, CS-TSD dos T.A.P., Aeroporto da Portela, c. 1947-50.
McDonnell Douglas DC-4, CS-TSD, dos T.A.P., Aeroporto da Portela, c. 1948.
Col. da Portimagem, in
Flickr.


 


(Revisto às 11h25 da noite.)

(Acrescentadas imagens do sobrescrito da companhia T.A.P., S.A.R.L. e medalha comemorativa da nacionalização em 17/III às 4h20 da tarde, ambas do Museu da T.A.P., in TAP Portugal (TAP70) no Flickr.)

Visa (ainda) não são só cartões (e outros àpartes)

Visa (Citroën), Estefânia (prox.) — © 2024
Visa (Citroën), Lisboa — © 2024


 


Por cartões, ocorre-me agora: não são eles de há tempo para cá todos em plástico? [A tanto chega a semântica de cartão…] Como não se lembraram deles quando proscreveram as palhinhas?! É que — testes de laboratório comprovam — os maricoplásticos andam para aí espalhados por todo o lado e são muito, muito maus para o planeta.


Por planeta, já agora também. Se a Terra é redonda, por que lhe chamam plan… eta?!

Greve de jornalistas

Hoje não há missa.


 


Barraca fechada, Algarve — (c) 2021
Barraca fechada, Algarve — (c) 2021

quarta-feira, 13 de março de 2024

Jipe

 Ontem estendi-me em reminiscências da escola primária. Desse tempo de aprender a ler e a escrever e contar o que me custava mais eram as redacções. Eram o mais difícil. Não gostava. Não gostava porque embatucava. Nunca sabia o que dizer e ficava aflito de não saber, logo escrevia pouco. E uma redacção curtinha era sempre má.


Atrelado de tracto, Matchbox, [197…]Tractor Ford, Matchbox


 Fora as redacções, na escola, era tagarela. Ao depois, gostava era de brincar e do que gostava mais era brincar com carrinhos. Carrinhos a imitar os carros de verdade, nunca carrinhos de fantasia que não existiam. Outros miúdos tinham desses e achavam-nos cheios de pinta, galácticos futuristas. Eu achava-os irreais e feios porque eram mesmo feios e não reproduziam a realidade. Não gostava. De modo que os que tinha eram um Fiat 127, um BMW 3.0 C.S.i., um Citroën Maseratti (este eu dizia Mesaráti), um Rolls Royce bordeaux que abria as portas, uma debulhadora encarnada, uma escavadeira, um tractor Ford amarelo e azul com atrelado, um camião de cavalos Leyland… E um Jeep amarelo.


MB24A-2-G.jpgJeep, Matchbox, [197…]


Camião de cavalos Leyland, Matchbox, [197…]Escavadeira de empurrar Matchbox (16D-3-G), [197…]


  Certa vez arranjei maneira de pôr o Jeep numa redacção. — Há-de ter saído uma coisa esperta, essa redacção! — Mas escrevi jipe. Era como dizia. Não me lembro de nenhuma das redacções que fiz, nem desta senão por ter nela posto o jipe, que era o meu jipe. E lembro-me talvez porque a senhora professora me emendou a palavra jipe para jeep (ou Jeep).


 (Agora que vou a meio desta redacção sobre o jipe, fui ver e vejo já escrevi antes sobre o Jeep. Repito-me, portanto, deve ser a velhice.)


 Emendou para jeep — ou talvez melhor, Jeep, cuido crer — porque Jeep era a maneira de escrever o nome duma marca que se tornou nome comum. O caso será como fazer a barba com uma Gillette e não uma gilete (que se até lê gilête por mais que os entendidos priberem de pressa a dizer o contrário), cortar papel com um X-Acto e não com um xisacto (e muito menos x-ato, que só corta na inteligência) ou escrever com uma Bic e não uma bique. De devirem designações comuns não devem deixar-se de escrever correctamente como nomes próprios que são, é o que julgo.


 Voltando aos carrinhos, aqueles a lembrar naves espaciais com rodas de que eu não gostava e outros putos achavam com uma grande pinta a armar a um futuro estilo Mr. Spock e capitão Kirk. Esses putos cresceram e são já são tão velhos como eu, mas tiveram herança em filhos de pior gosto e pranchetas donde uns e outros deram em desenhar os mais modernos automóveis que vejo passar na rua. Nessa voragem até noção (e o modelo) do Jeep foi tragada resultando em horríveis suves.


 Suves!


 Neste caso abro excepção com suves e não S.U.V. só para amesquinhar a coisa.


 


(Os carrinhos são da rede, mas não sei donde.)

terça-feira, 12 de março de 2024

Gente de paz depois da fase de o povo é sereno

 «História de Portugal», 13.ª ed., Agência Portuguesa de Revistas, 1968.Na 3.ª ou na 4.ª classe, a senhora professora veio um dia e fez introdução a um tema para lá das contas e da tabuada, dos ditados, das redacções e do Meio Físico e Social (esta, uma coisa importante). A partir daquele dia íamos começar a ter também, regularmente, lições de História de Portugal. 


 Não foi o caso!…


 Bem, logo ali, foi. Contou do Viriato, dos Lusitanos, dos Romanos, e eu fascinou-me a história heróica do Viriato contra os Romanos e, por conseguinte, a História de Portugal que estava para vir. Queria mais. Como lá por casa havia uma caderneta que eu folheava havia muito (ainda a tenho, era do meu irmão), e já lá tinha visto os cromos do Viriato e dos Lusitanos, a par de Lígures, Celtas, Iberos, Celtiberos, dispunha-me agora a ler as legendas dos cromos e não só olhar os bonecos como até aí. Tal foi o interesse que a lição de História de Portugal me suscitou: fiquei augado.


 Dava-se todavia que, de História, aos 8 para 9 anos, foi o único que consegui: a tal caderneta de cromos, incompleta e riscada por mim na primeira infância, antes de saber ler ou escrever, quando descobri o uso que podiam ter as canetas Bic. Livros não tinha, salvos uns Zés Cariocas do meu irmão, um livro do Nodi sem capa, também seu… — De meu, havia um livrinho infantil com a história dum sapato que encontrou o seu par. Uma outra sr.ª professora lá da escola dera-mo em troca dum postal da T.A.P. que eu arranjara não sei já como, o qual lhe agradara. De livros, então, não me lembro de mais nenhum… Ainda estavam para me chegar o do Robinson Crusoë, que me deu a minha madrinha e me fascinou, e o primeiro d' Os Cinco, prenda de Natal da Cristina gorda, uma namoradinha do meu irmão. Nenhum deles de História, porém, mas apreciei-os.


 De lições regulares de História de Portugal não foi porém o caso, disse lá atrás, porque a sr.ª professora acabou por não dar mais nenhuma; eu bem desejei, mas fiz a 4.ª classe e adeus! Ficámos no Viriato. Só ao depois no 2.º ano do ciclo preparatório me consegui desaugar… No 1.º, pelo jeito, ainda era cedo; em vez de História de Portugal havia antes Estudos Sociais, coisa mais importante, como o Meio Físico e Social… — Agora que nele penso, dá-me para parafrasear Salazar: estava muito bem assim e não podia ser doutra forma; Portugal acabara de acabar e com o processo revolucionário em curso ou logo a seguir, ensinar a sua História aos meninos tornara-se supérfluo!…


 Saciei-me enfim no ano do meu 2.º ano e foi também nesse tempo que na televisão apareceu um programa a falar de História. Em 78 foi para o ar a «Gente de Paz» e foi com ela que fiquei a saber do prof. Hermano Saraiva. Como outros escolhiam o Eusébio, acho que escolhi ali um ídolo (o Yazalde nem o Damas também já não jogavam no Sportem, portanto…)António Gomes Ferreira, Radiotelevisão Portuguesa, 197…


 Tem graça porque ao princípio dava o programa e não liguei muito, como era natural. Era coisa de conversa aborrecida assim ao modo do Vitorino Nemésio (o homem das letras, chamava-lhe a minha mãe), nada que despertasse interesse a uma criança. Mas liguei o suficiente para achar certa vez que o Gomes Ferreira, que era locutor, estava para ali a falar havia um ror de tempo e disse-o, calhando, frustrado de não ser antes um filme de cowboys ou do Espaço. Ao que me a minha mãe respondeu: —«Este não é o Gomes Ferreira, filho. Esse é locutor. Este é o Hermano Saraiva, o que fala da História.»


 De maneira que, foi assim: como falava da História pus-me a ver.



José Hermano Saraiva, Sebastianismo.
(Gente de Paz, R.T.P., 1978)

segunda-feira, 11 de março de 2024

Sabeis aquela sensação de conhecer um lugar?…

 Começou-me por parecer um lugar familiar… — Eh pá, eu conheço este sítio!… — E fazia-me espécie pois não conseguia atinar com ele.
 — Eu conheço isto, com um raio, mas onde, onde diabo é?!… — e olhava… — O carro é um mini… Dos autênticos… — e tornava a olhar…
 — Eh pá, pois se eu conheço este lugar, como diabo não sei agora dizer onde é?!…
 Até que descobri e, é do tempo em que as empenas eram da cor do resto do prédio…


«Saudade, 1553», Lisboa [s.d.]. Col. da Portimagem, in Flickr.
Saudade, 1553, Lisboa, [s.d.].
Col. da Portimagem, in Flickr.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Uma pitada de barroco pela noitinha


Guilherme Boyce — Sinfonia n.º 1 em si bemol (Allegro)
Simão Murphy (maestro), Orquestra Barroca da Haia, Nova Academia Holandesa.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Peque

 A menina do super não me pôde vender um yoghurt porque só se vendia, citei, «em packs de quatro».


 Conjunto parece que diz agora que é pack… Parece mesmo porque a chancela da Porto Editora dos dicionários faz parecer que parece que é mesmo oficial. Foi isto que me um leitor anónimo irònicamente deu por mote…


 


Porto Editora – «pack» Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2024-03-07 19:24:59].


 


 Dantes era isto simplesmente vender ou comprar «por atacado», coisa que já noutro tempo também ficava mais em conta. Mas, é lá isto maneira agora de falar?!… Só por piada, como quando se ainda ouve que «à dúzia é mais barato» — outra locução que não serve hoje senão à piada (e cuido que muitos que a lançam nem bem sabem quanto é uma dúzia). Depois, a graça daqueles modos de dizer antigos verteu todinha ela agora para o uivar em «pack» que se ouve.
 Posto isto, o lexicógrafo trabalhou para aquecer ao adicionar tão inútil verbete ao dicionário: os antigos que haja entendem-se com clareza sem ele, como bem vemos; os modernos sabem «amaricano» a rodos, pelo que não hão-de ir a dicionários por «pack» nenhum. Mas que não esmoreça o nosso lexicógrafo nem a Porto no afã de encher chouriços e forrar de ganga estrangeira o idioma. E louve-se-lhes a prolixidade eloquente da língua de pau em que elaboram «um determinado produto e um ou vários produtos complementares» para dizer um conjunto de artigos afins vendidos a preço mais em conta (perdão!) «a um preço inferior ao dos produtos comprados individualmente», embora em rigor, nesta última, devessem antes ter redigido «a um preço unitário inferior ao de cada produto» &c.

terça-feira, 5 de março de 2024

Alguns grandes pontos… (diz agora)

Iogurte Grande Ponto


 A menina do super não me pôde vender um yoghurt porque só se vendia, cito, «em packs de quatro».


 Conjunto parece que diz agora que é pack.
 
Salvo, cuido, se for musical, caso em que se dirá banda. Mas só se for ela de rock, porque se for de coreto já (ou ainda) será filarmónica. — Fanfarra também se já não diz ou não ouve (dizer), apesar de fanfarrões não faltarem…
 Não confundir em tudo isto, porém, banda com bando, porque bando, diz agora, é gang. Mas só se for de malfeitores, porque se for de pássaros é bando como dantes…
 Hum!… Ocorre-me também que ele há quem chame passarões aos malfeitores… Isto é, se for um bando deles, ou gang. É que se for só um passarão, especialmente em interrogatórios da polícia, há muito quem o diga melro: no caso, logo que o melro começa a cantar…


 Deste arrazoado parece agora que o português só se deixa de armar ao fino com ganga estrangeira (yoghurt, pack, rock, gang) quando o caso mete polícia. É o que parece.

domingo, 3 de março de 2024

Variedades: Miss Dionne Warwick


Dionne Warwick — I Say A Little Prayer
The Ed Sullivan Show, 1968