| início |

terça-feira, 12 de março de 2024

Gente de paz depois da fase de o povo é sereno

 «História de Portugal», 13.ª ed., Agência Portuguesa de Revistas, 1968.Na 3.ª ou na 4.ª classe, a senhora professora veio um dia e fez introdução a um tema para lá das contas e da tabuada, dos ditados, das redacções e do Meio Físico e Social (esta, uma coisa importante). A partir daquele dia íamos começar a ter também, regularmente, lições de História de Portugal. 


 Não foi o caso!…


 Bem, logo ali, foi. Contou do Viriato, dos Lusitanos, dos Romanos, e eu fascinou-me a história heróica do Viriato contra os Romanos e, por conseguinte, a História de Portugal que estava para vir. Queria mais. Como lá por casa havia uma caderneta que eu folheava havia muito (ainda a tenho, era do meu irmão), e já lá tinha visto os cromos do Viriato e dos Lusitanos, a par de Lígures, Celtas, Iberos, Celtiberos, dispunha-me agora a ler as legendas dos cromos e não só olhar os bonecos como até aí. Tal foi o interesse que a lição de História de Portugal me suscitou: fiquei augado.


 Dava-se todavia que, de História, aos 8 para 9 anos, foi o único que consegui: a tal caderneta de cromos, incompleta e riscada por mim na primeira infância, antes de saber ler ou escrever, quando descobri o uso que podiam ter as canetas Bic. Livros não tinha, salvos uns Zés Cariocas do meu irmão, um livro do Nodi sem capa, também seu… — De meu, havia um livrinho infantil com a história dum sapato que encontrou o seu par. Uma outra sr.ª professora lá da escola dera-mo em troca dum postal da T.A.P. que eu arranjara não sei já como, o qual lhe agradara. De livros, então, não me lembro de mais nenhum… Ainda estavam para me chegar o do Robinson Crusoë, que me deu a minha madrinha e me fascinou, e o primeiro d' Os Cinco, prenda de Natal da Cristina gorda, uma namoradinha do meu irmão. Nenhum deles de História, porém, mas apreciei-os.


 De lições regulares de História de Portugal não foi porém o caso, disse lá atrás, porque a sr.ª professora acabou por não dar mais nenhuma; eu bem desejei, mas fiz a 4.ª classe e adeus! Ficámos no Viriato. Só ao depois no 2.º ano do ciclo preparatório me consegui desaugar… No 1.º, pelo jeito, ainda era cedo; em vez de História de Portugal havia antes Estudos Sociais, coisa mais importante, como o Meio Físico e Social… — Agora que nele penso, dá-me para parafrasear Salazar: estava muito bem assim e não podia ser doutra forma; Portugal acabara de acabar e com o processo revolucionário em curso ou logo a seguir, ensinar a sua História aos meninos tornara-se supérfluo!…


 Saciei-me enfim no ano do meu 2.º ano e foi também nesse tempo que na televisão apareceu um programa a falar de História. Em 78 foi para o ar a «Gente de Paz» e foi com ela que fiquei a saber do prof. Hermano Saraiva. Como outros escolhiam o Eusébio, acho que escolhi ali um ídolo (o Yazalde nem o Damas também já não jogavam no Sportem, portanto…)António Gomes Ferreira, Radiotelevisão Portuguesa, 197…


 Tem graça porque ao princípio dava o programa e não liguei muito, como era natural. Era coisa de conversa aborrecida assim ao modo do Vitorino Nemésio (o homem das letras, chamava-lhe a minha mãe), nada que despertasse interesse a uma criança. Mas liguei o suficiente para achar certa vez que o Gomes Ferreira, que era locutor, estava para ali a falar havia um ror de tempo e disse-o, calhando, frustrado de não ser antes um filme de cowboys ou do Espaço. Ao que me a minha mãe respondeu: —«Este não é o Gomes Ferreira, filho. Esse é locutor. Este é o Hermano Saraiva, o que fala da História.»


 De maneira que, foi assim: como falava da História pus-me a ver.



José Hermano Saraiva, Sebastianismo.
(Gente de Paz, R.T.P., 1978)

Sem comentários:

Enviar um comentário