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quarta-feira, 13 de março de 2024

Jipe

 Ontem estendi-me em reminiscências da escola primária. Desse tempo de aprender a ler e a escrever e contar o que me custava mais eram as redacções. Eram o mais difícil. Não gostava. Não gostava porque embatucava. Nunca sabia o que dizer e ficava aflito de não saber, logo escrevia pouco. E uma redacção curtinha era sempre má.


Atrelado de tracto, Matchbox, [197…]Tractor Ford, Matchbox


 Fora as redacções, na escola, era tagarela. Ao depois, gostava era de brincar e do que gostava mais era brincar com carrinhos. Carrinhos a imitar os carros de verdade, nunca carrinhos de fantasia que não existiam. Outros miúdos tinham desses e achavam-nos cheios de pinta, galácticos futuristas. Eu achava-os irreais e feios porque eram mesmo feios e não reproduziam a realidade. Não gostava. De modo que os que tinha eram um Fiat 127, um BMW 3.0 C.S.i., um Citroën Maseratti (este eu dizia Mesaráti), um Rolls Royce bordeaux que abria as portas, uma debulhadora encarnada, uma escavadeira, um tractor Ford amarelo e azul com atrelado, um camião de cavalos Leyland… E um Jeep amarelo.


MB24A-2-G.jpgJeep, Matchbox, [197…]


Camião de cavalos Leyland, Matchbox, [197…]Escavadeira de empurrar Matchbox (16D-3-G), [197…]


  Certa vez arranjei maneira de pôr o Jeep numa redacção. — Há-de ter saído uma coisa esperta, essa redacção! — Mas escrevi jipe. Era como dizia. Não me lembro de nenhuma das redacções que fiz, nem desta senão por ter nela posto o jipe, que era o meu jipe. E lembro-me talvez porque a senhora professora me emendou a palavra jipe para jeep (ou Jeep).


 (Agora que vou a meio desta redacção sobre o jipe, fui ver e vejo já escrevi antes sobre o Jeep. Repito-me, portanto, deve ser a velhice.)


 Emendou para jeep — ou talvez melhor, Jeep, cuido crer — porque Jeep era a maneira de escrever o nome duma marca que se tornou nome comum. O caso será como fazer a barba com uma Gillette e não uma gilete (que se até lê gilête por mais que os entendidos priberem de pressa a dizer o contrário), cortar papel com um X-Acto e não com um xisacto (e muito menos x-ato, que só corta na inteligência) ou escrever com uma Bic e não uma bique. De devirem designações comuns não devem deixar-se de escrever correctamente como nomes próprios que são, é o que julgo.


 Voltando aos carrinhos, aqueles a lembrar naves espaciais com rodas de que eu não gostava e outros putos achavam com uma grande pinta a armar a um futuro estilo Mr. Spock e capitão Kirk. Esses putos cresceram e são já são tão velhos como eu, mas tiveram herança em filhos de pior gosto e pranchetas donde uns e outros deram em desenhar os mais modernos automóveis que vejo passar na rua. Nessa voragem até noção (e o modelo) do Jeep foi tragada resultando em horríveis suves.


 Suves!


 Neste caso abro excepção com suves e não S.U.V. só para amesquinhar a coisa.


 


(Os carrinhos são da rede, mas não sei donde.)

7 comentários:

  1. Em todo o caso eu creio que fico por S.U.V. (ésse iu vi, assim mesmo), como designação desses carros e se manifestamente "carro", na circunstância, não chegar). "Suve" ou "suves" é coisa que me faz lembrar "Soldados Unidos Vencerão", denominação, gente e tempo de má memória.
    Se não convém esquecer, nunca esquecer, esse tempo, essa gente e suas intenções (que podendo voltariam e em força), não quereria eu insultar quem de boa-fé por estes dias possua e conduza esses carros.

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  2. jeep para jipe, football para futebol, e outros anglicismos que ficaram traduzidos conforme o aportuguesamento sonoro das palavras.
    Com surf para surfe seria o mesmo se fosse para sarfe que é como todos dizem menos os brasileiros que dizem surfe.
    E pior é o caso de bóer, de boer que é a palavra em neerlandês de camponês, agricultor, mas que é pronunciada buar e até bur. Para quê a Porto Editora dicionarizou bóer e não buar que é como se ouve, como foi jipe e futebol.
    Cumpts.

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  3. Como não os aprecio desdenho. Dos carros e de quem os concebe, não de quem os possua, bem entendido, embora não gabe o gosto, ou a preferência. Mas isso a final é com cada um. Poucos pelo seu lado me gabarão o gosto no automóvel que tenho, talvez…
    Em quanto aos carros, pois, poder-lhe-ia chamar jipões, porque são grandes. Mas como não passam de carros comuns agigantados sem parecença com Jeeps, Land Rovers ou Portaros, lá será apropriada a sigla para não haver confusões. Mas lá que transportam pretensão a Jeep… Mais que Jeep, Range Rover.
    No fim e empreendendo nos tais suves ou S.U.V. de péssima memória, mas que me não ocorreram, melhor é chamar carros aos ditos carros.
    Cumpts

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  4. Grassa muita incoerência neste campo. E total preguiça da Academia das ex-Sciencias.
    Búar ou bóer? A primeira carece de acento; a segunda di-la-ia bôer. Os holandeses dizem bur, mas também dizem a Haia Den Haag e Amesterdão Amsterdam e eu não digo nada disso. Nem escrevo, embora no caso de nomes próprios e topónimos haja ùltimamente uns finórios a chamar William ao príncipe Guilherme e Kate à princesa Catarina de Gales; e Genève a um lago suíço, entre outras coisas… Modas!
    No que refiro de nomes próprios de marcas, como é o caso de Jeep, Gillete, X-Acto ou Bic, não confundir com nomes comuns como football/futebol, surf/surfe (ou sârfe), que são os exemplos que deu. Doutro modo podia escrever-se com bique. Calhando, pode… Mas nunca vi quem escrevesse…
    Torno em fim a lembrar-me da Academia… Melhor é esquecer, porquanto aportuguesar o vocábulo inglês «iceberg» por icebergue e indicar a pronúncia do i como ai até faz doer a alma.
    Cumpts.

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  5. Referi-me com exemplos de anglicismos devido à pronúncia.
    No caso de estar dicionarizado bóer é por um aportuguesamento da palavra e não como é dita em neerlandês, como jipe e futebol.
    Mas, no caso de plural escreveremos bóeres, sendo em neerlandês boeren pronunciando buarra.

    Cumpts.

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  6. Não faria sentido aportuguesar o plural holandês, claro.
    Está aportuguesado «bóer». Aportuguesado, infopædiado e priberamizado. Mas tem das tais coisas. Os brasileiros por seu lado abrasileiraram (embora digam que aportuguesaram, como de costume); abrasieliraram «bôer», com circunflexo, que aliás é como me calha dizer. A um compatriota nosso de Moçambique que ao depois passou à África do Sul ouvia sempre bur. Natural.
    Não vi ainda mas ao depois vejo os dicionários impressos que tenho. Darei nota.
    Cumpts.

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