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terça-feira, 19 de março de 2024

Boer (ainda)

Grande Dicionário da Língua Portuguesa (de António de Morais Silva), 10.ª ed. rev. corrig. muito aum. e actualizada segundo as regras do Acordo ortográfico Luso-Brasileiro de 10 de Agosto de 1945 por Augusto Moreno, Cardoso Júnior eJosé Pedro Machado», vol II, [s.l.], Confluência, imp. 1950.


 


 Ainda «boer»; deu-me curiosidade de procurar na Biblioteca Nacional digital. No Grande Dicionário da Língua Portuguesa (dito de Morais, 10.ª ed., imp. 1949-1959) para referir que: 1) propõe a pronúncia bur de acordo com a fontética holandesa, não obstante, 2) o uso ser a) bó-er, mas, mais vulgarizado ainda, b) bu-ér.
 O vol. II, que dá a entrada «boer», foi impresso ou publicado em 1950, antes da data de publicação do Dicionário Etimológico em que José Pedro Machado, um dos co-autores desta 10.ª ed. do Dicionário de Morais, e corrobora aquele dicionário a pronúncia vulgar buér aqui mencionada.


 Isto para dizer que por 1950 a enunciação da palavra «boer» oscilava entre bóer e buér, sendo a segunda a mais vulgar nesse tempo. Reparo que desde aí a enunciação como como bóer se vulgarizou mais e mais e buér se perdeu. Pode ser ou não caso da prevalência crescente do modo inglês sobre a nossa língua [o recuo da tónica]; o que é certo é que em qualquer dos casos — bóer ou buér — foi a primazia da palavra tal como se via escrita sobre a oralidade que fez regra. De modo que a articulação bur, cuja fonética holandesa aconselha (holandesa do Cabo, não havia de ser?), é artificial, sòmente proposta que é por lexicógrafos, e como tal, naturalmente, só achada em dicionários. Assim mesmo se deduz da 2.ª ed. do Aulete, de 1925 (a 1.ª ed.,  de 1881, não regista a palavra), que para «boer» indica a pronúncia bure, a qual, como já vimos, se nunca vulgarizou, embora continuasse e continue a ser indicada nos dicionários como preferível.


Boer (Diccionario Aulete, 2.ª ed., Lisboa, Parceria A.M. Pereira, 1925


 Uma bizantinice lexicográfica como esta de indicar bur só porque os holandeses articulam bur, não será ela idêntica a querer Amsterdam, Rotterdam, e até London e por aí fora, para dizer Amesterdão, Roterdão, Londres? Ante a importação do vocábulo pela forma escrita, o génio do Português manda, a meu ver, realmente, ler e dizer bu-ér. E o uso vulgar assim o fez. Até, pelo menos, aos anos 50…




Dicionários:
Grande Dicionário da Língua Portuguesa / António de Morais Silva. — 10.ª ed. — [s.l.] :  Confluência, imp. 1949-1959 [vol. II, 1950].
Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza / F. J. Caldas Aulete (feito sobre o plano de). — 2.ª ed. actualizada. — Lisboa : Parceria António Maria Pereira, 1925.

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