Ainda «boer»; deu-me curiosidade de procurar na Biblioteca Nacional digital. No Grande Dicionário da Língua Portuguesa (dito de Morais, 10.ª ed., imp. 1949-1959) para referir que: 1) propõe a pronúncia bur de acordo com a fontética holandesa, não obstante, 2) o uso ser a) bó-er, mas, mais vulgarizado ainda, b) bu-ér.
O vol. II, que dá a entrada «boer», foi impresso ou publicado em 1950, antes da data de publicação do Dicionário Etimológico em que José Pedro Machado, um dos co-autores desta 10.ª ed. do Dicionário de Morais, e corrobora aquele dicionário a pronúncia vulgar buér aqui mencionada.
Isto para dizer que por 1950 a enunciação da palavra «boer» oscilava entre bóer e buér, sendo a segunda a mais vulgar nesse tempo. Reparo que desde aí a enunciação como como bóer se vulgarizou mais e mais e buér se perdeu. Pode ser ou não caso da prevalência crescente do modo inglês sobre a nossa língua [o recuo da tónica]; o que é certo é que em qualquer dos casos — bóer ou buér — foi a primazia da palavra tal como se via escrita sobre a oralidade que fez regra. De modo que a articulação bur, cuja fonética holandesa aconselha (holandesa do Cabo, não havia de ser?), é artificial, sòmente proposta que é por lexicógrafos, e como tal, naturalmente, só achada em dicionários. Assim mesmo se deduz da 2.ª ed. do Aulete, de 1925 (a 1.ª ed., de 1881, não regista a palavra), que para «boer» indica a pronúncia bure, a qual, como já vimos, se nunca vulgarizou, embora continuasse e continue a ser indicada nos dicionários como preferível.
Uma bizantinice lexicográfica como esta de indicar bur só porque os holandeses articulam bur, não será ela idêntica a querer Amsterdam, Rotterdam, e até London e por aí fora, para dizer Amesterdão, Roterdão, Londres? Ante a importação do vocábulo pela forma escrita, o génio do Português manda, a meu ver, realmente, ler e dizer bu-ér. E o uso vulgar assim o fez. Até, pelo menos, aos anos 50…
Dicionários:
Grande Dicionário da Língua Portuguesa / António de Morais Silva. — 10.ª ed. — [s.l.] : Confluência, imp. 1949-1959 [vol. II, 1950].
Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza / F. J. Caldas Aulete (feito sobre o plano de). — 2.ª ed. actualizada. — Lisboa : Parceria António Maria Pereira, 1925.
![Grande Dicionário da Língua Portuguesa (de António de Morais Silva), 10.ª ed. rev. corrig. muito aum. e actualizada segundo as regras do Acordo ortográfico Luso-Brasileiro de 10 de Agosto de 1945 por Augusto Moreno, Cardoso Júnior eJosé Pedro Machado», vol II, [s.l.], Confluência, imp. 1950.](https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G5c17c858/22617941_ueqQC.jpeg)

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