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sábado, 16 de março de 2024

Bóer, Bur

 A propósito dum aportuguesamento levado a cabo em dicionários, levantou um leitor o caso de bóer e bur, ressalvando que o que ouve pronunciar é buar (búar).


 Para lhe responder de imediato fui ver primeiro bóer e, de feito, está aportuguesada assim. Não só portuguesada, como infopædiada e priberamizada, e tem já das tais coisas: os brasileiros abrasileiraram por seu lado bôer (embora digam que aportuguesaram, como de costume), que aliás é como me calha mais dizer. Somo a isto que a um compatriota nosso de Moçambique que ao depois passou à África do Sul ouvi sempre bur (e daí, talvez, búar…).


 Para mais cabal resposta e para minha própria ilustração, prometi que havia de ir aos dicionários impressos que tenho, do que dou agora nota.


Aulete, 1.ª ed. (Lisboa, 1881). Omisso.


Aulete em linha. Bôer,  com circunflexo, à brasileira. O verbete original (original não sei como porque na 1.ª ed. é omisso) remetia sem mais para bures, no plural, omitindo bur. O verbete actual bôer dá já definição e o plural bôeres. (O Aulete emigrou para o Brasil há muitos anos. Talvez hoje em dia um verbete original seja depois que lá chegou…)


Dicionário Enciclopédico Ediclube (1996). Boer (sem marcação de acento ou pronúncia). Como dicionário enciclopédico que é manda ver Guerra dos Boers [sic]. Não remete todavia para bur, mas no verbete deste remete para a forma anterior.


Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Morais, 2002). Boer (sem marcação de acento ou pronúncia). Omite bur.


Lello Prático Ilustrado (1976). Boer (sem marcação de acento ou pronúncia). Prefere bur, por grafia exacta, e remete para esta forma.


Porto (5.ª ed.,1974). Boer (sem acento), o mesmo que bur, verbete este onde refere que a pronúncia portuguesa mais vulgar é bóer (assim mesmo, com acento).


 Mais.


Dicionário Etimológico. Boér (palavra aguda); remete sem mais para bur, onde estabelece a entrada  do vocábulo na língua portuguesa em 1903 com a publicação de «A Guerra Anglo-Boer. Impressões do Transvaal» (2 vols., Lisboa, Typographia Universal). No verbete bur explica ainda que a pronúnicia vulgar, por influência da escrita, é boér, que é curioso…


«A Guerra Anglo-Boer. Impressões do Transvaal, Lisboa, Typ. Universal, 1903.


 O Corpus do Português regista boer (no singular) pela primeira vez na obra de 1903 vista acima, e boers (plural) nos Contrastes e Confrontos (1907) de Euclydes da Cunha, uma compilação de artigos de imprensa anteriormente publicados, no caso, n' O Estado de S. Paulo («Contra os caucheiros», 22/V/1904; «Civilização», 10/VII/1904) e duma entrevista ao Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 14/I/1906.


 Outras ocorrências do plural boers no Corpus são posteriores e o plural boeres surge ao depois em textos mais recentes. Os Boers da Terrivel Guerra na Africa do Sul entre Inglezes e os ditos, talvez anteriores a 1903, não estão no Corpus do Português e a forma Bur também lá não consta nenhuma vez.


Terrivel Guerra na Africa do Sul entre Inglezes e Boers. Folheto em língua portuguesa, s.d.,in Ephemera, apud The Delagoa Bay Review, 15/X/2010.


 Em todos os dicionários o sentido geral do nome ou adjectivo, em qualquer das formas, remete para africânder (gente) ou colono sul-africano branco de origem holandesa.


 Um outro sentido, porém, que, salvo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, nenhum dos dicionários aqui arrolados dá a boer é o de língua africânder. O africânder, ou holandês do Cabo, foi normalizado como língua escrita por 1875. Até aí a língua dos colonos do Orange e do Transval era também designada como boer. Não parece que este sentido tenha feito falta na língua portuguesa, porquanto nem do termo há registo antes da Guerra dos Boeres.


 Todos os dicionários remetem (quando remetem) ao holandês como origem da palavra, o que é verdade. Porém, cuido que boer nos veio ao português por via do inglês. Basta lembrar que foi da África do Sul (ou da Colónia do Cabo) que nos chegou pelas circunstâncias históricas que se conhecem. Nada mais lógico nesse contexto do que um plural já acabado à ingleza naqueles tempos (e hoje, mais do nunca!…) É o caso do plural que encontramos nos primeiros registos da palavra em textos portugueses — boers — o plural inglês; o holandês boeren e o africânder boere, nenhum deles consta (e de estranhar seria, dá-me impressão…)


 E bem, mas a final, boer, boér, bóer/bôer, bur?…


 Boer (boér > bóer/bôer) parece estar consagrado. De mais, é evidente que o vocábulo entrou no português pela escrita e foi dela que lhe moldámos a oralidade, não do holandês nem do holandês do Cabo (ao inglês já lá vamos…) Se no primeiro tempo o retorno da escrita sobre a oralidade deu a pronúncia boér, como nos indica José Pedro Machado no Dicionário Etimológico (cuja 1.ª ed. é, recordo, de 1952), os dicionários mais recentes convergem agora na pronúncia bóer/bôer, fenómeno de recuo da tónica a que não há-de ser estranho o tresandar «amaricano» na barbarização do português nas últimas décadas. (Cá está, pois, o inglês). Ante a escrita boer, sem acentos, de quando nos chegou a palavra em 1903, o génio do nosso idioma manda naturalmente ler boér em vez de bóer. Em todo o caso talvez o melhor fosse omitir de vez acentos em boer, como em tempos se decidiu para comboio ou dezoito por causa de pronúncias divergentes.


 Bur, por seu lado, ressoa a purismo de lexicógrafo tirado muito à medida sonora do holandês do Cabo (ou do inglês do Cabo), que não é nada nosso, daí que se só ache em dicionários. Se se de lá perder, quem dele dará por falta?




A Guerra Anglo-Boer. Impressões do Transvaal, Lisboa, Typ. Universal, 1903, in Livraria Fernando Santos.
Terrível Guerra na Africa do Sul entre Inglezes e Boers. Folheto em língua portuguesa imp. no Porto, [s.d.], in Ephemera, apud A.B.M., «Moçambique, Portugal e a guerra Anglo-Boer de 1899-1902», The Delagoa Bay Review, 15/X/2010.


 

2 comentários:

  1. Obrigado por este autentico "puxar de galões" para toda esta explicação da palavra boer, que nos veio pela escrita e não por via oral, já com o plural nem pela escrita nem pela oral foi um arranjar da norma do português, que em neerlandês é boeren.
    Durante mais de vinte anos visitava a cidade de Breda e arredores com frequência, que pertence à província de Brabante Norte.Havia sempre uma crispação quando falava com eles, mesmo em inglês* diziam que a Holanda é mais para os lados de Amesterdão, Roterdão ou Poortugaal, aqui somos neerlandeses diziam.
    O facto é bem à maneira do sentido comercial dos neerlandeses de uma maneira geral, os holandeses de Amesterdão aproveitaram o comércio com os ingleses e quiseram lá saber que aos Países Baixos (Nederland)lhe chamassem Holanda.
    *em inglês Países Baixos é Holand ou Netherlands
    Como curiosidade a localidade Poortugaal, perto de Roterdão, que conheci, foi formada por comerciantes portugueses, talvez de Tomar, no séc. XVI, por haver campas no cemitério local com nome de Templar, Templaro.

    Cumpts.

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  2. Mais foi puxar da meada, havendo o mote… Mera consulta a dicionários ao fim e ao cabo.
    Obrigado sou eu do seu interesse.
    Tem graça ser a Holanda mais para os lados de Amesterdão ou… Poortugaal.
    Cumpts.

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