
« […] As palavras de uma língua vão mudando de sentido a pouco e pouco, ou, se o não mudam inteiramente, vão pelo menos adquirindo, com o volver dos anos [ou de um dia para o outro, hoje em dia…], valores significativos diferentes.
[…]
A ordem social, ou melhor, o ambiente social, ou mais exactamente, os meios sociais em que vivem núcleos de indivíduos com as mesmas tendências, as mesmas ideias afins, as mesmas ocupações e preocupações [e já agora, também, desocupações], levam os membros desses agregados a empregar palavras da fala geral e comum a que dão sentido especificado, e inoculam-lhes, para uso do clã, valores significativos diferentes e muitas vezes, aberrantes… A camada social da chamada «gente bem» serviria para mostrar à evidência que as palavras mudam realmente de sentido em certos meios sociais. Quando, por exemplo, nessa camada, senhoras e meninas empregam a torto e a direito, — mas muito mais «a torto», é claro, — as palavras «chato», «chatice», não há duvida de que lhes transformam o sentido originário, visto que não coram ao proferi-las… e supõem que tais vocábulos significam apenas maçador, maçada, aborrecimento, —enfim, chatice!»
Augusto Teixeira, «Breves noções de semântica», in A Bem da Língua Portuguesa; Boletim mensal da Sociedade de Língua Portuguesa, Ano VI, n.º 2, Fevereiro de 1955, pp. 107-108.
Assim vejo, em 1955, as senhoras e meninas da camada social chamada de «gente bem» eram referência em torções à linguagem quotidiana. Mas seria em registo familiar, quero crer, se bem que, pelo chic alastrasse e até se alcandorasse, como no caso, a publicações eruditas. Eram todavia outros tempos…
De outros tempos, também e já, ainda repetia o meu bom Jaime a emenda do sisudo Rev.º P.e Albino no meio dalguma chatice que nos surgisse:
— Não diga chato! É aborrecido!…
Ironia subtil!… — Era isto pelos anos 80. Tão longe veio, e vai, já, a valia e o imperativo da emenda!…
Lembra-me também, já agora, de que afinal continuam, deveras, a ser senhoras e meninas (mais meninas porque hoje amadurecem pouco) da camada social chamada de «gente bem» (a nova, a moderna, a actual) a ser referência de muitas e novas torções à semântica do falar geral. O caso é que deixou de ser no tradicional registo familiar (porque… já lá vamos…) com alastramento aleatório e fortuito ao uso geral. Dá-se o fenómeno antes, hoje, em registo mediático com rijo suporte mural. As senhoras e meninas (não reclame aqui menino algum de sua omissão neste passo; conte-se antes nas meninas porque é a melhor maneira que conheço de se ser inclusivo) da novel camada de «gente bem», quando, pois, empregam a torto e a direito — mas muito mais «a eito», é claro — fascismo, racismo, colonialismo, intolerância, fobia, homem, mulher, pai, mãe, família (cá está!) e por aí fora, torcendo-lhe ao absurdo o sentido originário, mais não supõem, portanto, que tais vocábulos significam apenas ofensa, agressão, ódio, violência.
Violência sobre a semântica, enfim! E sobre as paredes. Uma chatice!

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