« Ocorrem-me agora os vocábulos: moral e espada.
Não raro é ouvir-se isto: «Fulano tem sido tão infeliz que já perdeu toda a moral».
Ora este substantivo empregado assim quer dizer que Fulano, em consequência das suas infelicidades, já não tem coragem para reagir nem ânimo para combater e deve empregar-se no masculino. Assim: «Fulano… perdeu de todo o moral».
Se, porém, quisermos referir-nos à ciência dos costumes, à ética dum povo, etc., então não se dirá o, mas a moral.
Digamos pois: «Respeitemos e acatemos os deveres da moral, mas levantemos o nosso moral perante as contrariedades da vida e os golpes da adversidade e do destino; não pratiquemos actos ofensivos da moral, mas conservemos bem o moral, perante a luta com os nossos adversários e até perante a doença».
Acerca de espada, toda a gente sabe o que é uma espada: arma feita com uma lâmina de aço que se mete numa bainha, e que usam os nossos oficiais do exército e os soldados de cavalaria. Mas há aí agora uns automóveis que, talvez por mais ou menos compridos, como as espadas, o nosso povo chama espadas e eu já ouvi a um motorista dizer que gostava de dirigir uma espada assim, quando, tratando-se de automóvel, se deve dizer um espada.
Portanto, «Fulano, que é muito rico, tem um rico e belo espada, mas, como oficial que é do exército, usa uma linda e rica espada, quando vai fardado. Não haja confusões.
Como estes dois vocábulos: moral e espada, há muitos outros, mas estes parece-me que são os que têm suscitado maiores dúvidas.»Prof. Faria Artur, «Salada francesa», in A Bem da Língua Portuguesa; Boletim mensal da Sociedade de Língua Portuguesa, Ano VI, n.º 7, Julho de 1955, pp. 310-311.
Em português e pela gramática não vamos lá… O português admite dois géneros, a saber, masculino e feminino. Tertium non datur. Outros idiomas há que admitem um neutro para objectos e seres inanimados; coisas e animais — não sei se não será o caso… — A falar português, porém, não se consegue e, por mais que se insista em mutilar a escrita, é a falar que se a gente entende. E desentende. Ou também subentende… Fora disto, passamos a grunhir. Mas isso, que cuido vir a tornar-se até bastante possível, não será já português.
Pela moral também lá não vamos, mas… Haja todavia alguma esperança e que se com ela ao menos algum moral alevante ante as contrariedades da vida, os golpes da adversidade e do destino, como isso que há agora de poder nascer-se peixe em carcaça de gente. Gente, se vamos bem a ver, sempre é comum de dois [ou mais] — inclusivo, portanto. E certo, certo é que um peixe pode muito bem por conseguinte ser uma pescada; se a culinária for a que julgo ser do preceito, dá até para pescadinhas de rabo na boca.
Só por fim um espada é que, não havendo de ser peixe — lepidopídeo que por sinal tem variedade de preto, por distinto —, pois bem, fora isso, um espada só dá isto.
![Edsel (publicidade), [publicação n/ id.], 1958. Col. da Portimagem, in Flickr.](https://live.staticflickr.com/65535/53511003251_c3d7820d7d_b.jpg)
Edsel (publicidade), [publicação n/ id.], 1958.
Col. da Portimagem, in Flickr.

«...O português admite dois géneros, a saber, masculino e feminino...»
ResponderEliminarVocê ainda vai ser preso, torturado, e levado para um campo de concentração.
Posto assim, é bem capaz!…
ResponderEliminarCumpts.