![João Reis, «A gata». Óleo s/ tela, 1908, in Pedro Carlos Reis, Carlos Reis, A.C.D. Editores, [s.l.], [2006], p. 128.](https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/ob617df9c/22599086_QFdcE.jpeg)
João Reis, A gata.
Óleo s/ tela, 1908.
Tenho, com o tempo, desmoralizado de Portugal — de Portugal e de tudo, até. — Esta desmoralização tem-me esmorecido a vontade de dizer já o que seja das coisas portuguesas, de que algumas me sempre ia lembrando quando me empolgava nos escritos aqui e, quando as datas calhavam de feição a dizer algo. Era muito caso de chover no molhado, dizer o que já todos sabiam, mas havia ainda assim esperança de que sempre havia gente nova a chegar. Não creio mais que haja… Sobra o desfastio, às vezes…
O regicídio fez cento e nem sei quantos anos no dia 1. — Estou já, vejo, como o outro tonto do «é fazer as contas», tanto assim que me nem a conta sai já!… — Bem! Cento e dezasseis anos.
É como digo, passei há dias por ele, pela data, sem recordá-lo como fazia em tempo. Sucedeu-me porém, que peguei ontem no livro de Carlos Reis, como às vezes pego para reler e me regalar das Belas Artes do mestre pintor, da elegância e nobreza do homem. Do que Portugal tem (teve) de muito bom, enfim! — É que a memória esbate-se a cada dia, enquanto o mundo se me vai desfazendo em redor… Por vezes convém contrariar a desmoralização que nos cerca, mais que não seja, para não morrer ainda, já… Vai daí, volto a estas coisas que me acarinham um pouco o ânimo, a parecer que redimem de toda a desmoralização.
Pois bem…
Carlos Reis, que sempre gostou muito de gatos, recebe do seu filho o retrato a óleo da sua gata preferida, que embevecido, leva para o seu «atelier» e acaba por mostrá-lo ao Rei D. Carlos, que também gostava de gatos, e que, a partir daí, o cobiça… tinha João Reis sete para oito anos.
Em 1908, no dia 1 de Fevereiro, o Rei D. Carlos, que vinha do Alentejo, tinha feito saber a Carlos Reis, que antes de ir para o Palácio Real, passaria pelo seu «atelier» e que gostaria que o filho de Carlos Reis, pintor da «tal gata», estivesse presente.
Assim, Carlos e João Reis foram para o «atelier», no Convento de S. Vicente, onde ficaram à espera de El-Rei.
No final da tarde, convictos de que o Rei já não viria, sairam para a rua e souberam da notícia do regicídio.
Carlos Reis perde um grande Amigo, Portugal um grande Rei e um grande artista.
Intensifica-se a acção da Maçonaria e da Carbonária.Pedro Carlos Reis, Carlos Reis, A.C.D. Editores, [s.l.], [2006], p. 128.
Carlos Reis, Retrato do Rei D. Carlos I, 1908.
Óleo s/ tela (?), 100 x 130 cm.
Col. da Fundação da Casa de Bragança, Vila Viçosa, in Pedro Carlos Reis, op. cit., p. 129.
Cento e dezasseis anos, pois!… E cada vez mais carbonàriamente vamos…
![Carlos Reis, «Retrato do Rei D. Carlos I», 1908. Óleo s/ tela (?), 100 x 130 cm. Col. da Fundação da Casa de Bragança, in Pedro Carlos Reis, Carlos Reis, A.C.D. Editores, [s.l.], [2006], p. 129.](https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/o2e18bef0/22599085_kjgjj.jpeg)
Continue, caro BIC. É um prazer lê-lo.
ResponderEliminarObrigado.
Então, com o resultado das eleições nos Açores, não será interessante ver @s gatinh@s assanhad@s pelo poder e como se vão governar?
ResponderEliminarObrigado eu!
ResponderEliminarOs Açores ainda são Portugal? Nem sabia que iam a eleicinhas.
ResponderEliminarCumpts.