Tradução portuguesa a partir do francês, com arrimos de fórmulas e léxico antigo, o que dá tom de época ao texto.
Edição cuidada, mas o aportuguesamento dos nomes é conforme — em geral não… Num caso coexiste Mamude e Mahmud na mesma história.
A páginas tantas (666 e ss.) insinua-se a maricagem por novidade em voga — vício do fundo dos tempos e das civilizações a aflorar de maneira muito estranhamente actual — Modas!…
Ou será do tradutor?!…
As Mil e Uma Noites têm tiradas picarescas de certa graça. Aprecie-se, no caso, em que estilo…

(Marido à mulher, tida por estéril:)
« Juro que doravante prefiro cortar o meu zebb a meter-to na coisa! Vejo claramente visto que fazer coisas contigo é tempo perdido; tanto se me dá meter o instrumento num buraco de um penedo como tentar fecundar terra maninha como a tua: o resultado é o mesmo! Sim, por Alá! Tenho sido um perdulário e tenho passado a vida a desperdiçar fodas num abismo sem fundo!»
(Resposta:)
« Ah, velho frígido! […] Julgas então que, de nós dois sou a defeituosa? Não julgues tal, avô! Atribui as culpas aos teus tomates frios! Sim, por Alá! Os teus tomates é que arrefeceram e segregam um líquido sem qualquer virtude! Vai comprar qualquer coisa que engrosse essa água! E verás depois se o meu fruto possui boa semente ou se é maninho! […] Vai à drogaria e lá encontrarás a mistela que engrossa os tomates do homem.»
(A mistela:)
« Tomou duas onças de xarope de cúbeda-da-china, mais uma onça de extracto de cânhamo-da-jónia, mais uma de cariofília fresca, mais uma de cinamomo-vermelho de Serendib, dez dracmas de cardamomo-branco do Malabar, cinco de gengibre-da-índia, cinco de pimenta-branca, cinco de pimento, mais uma onça de bagas de bauínia-da-china e meia onça de tomilho-bravo. Misturou tudo com muita habilidade, depois de pisado e peneirado, e misturou-lhe mel puro, para ligar bem a massa, acrescentando por fim cinco grãos de almíscar e uma onça de ovas de peixe piladas. Não deixou de adicionar também xarope de água de rosas, posto o que deitou tudo na malga de porcelana. […] Aqui tens a mistura soberana, que endurece os tomates do homem e dá espessura ao suco fluido de mais […] Tens de comer estas papas duas horas antes de cada arremetida.»
Em geral as histórias são mais estéreis do que o que se pode ler acima.
Fui lendo e repondo na estante, por anos.
As Mil e Uma Noites: Noites 1 à 270 / J.-C. Mardus (ed.), Manuel João Gomes (trad.). — [Lisboa] : Círculo de Leitores, 2007. — 750 p.; 24cm. — A Mil e Uma Noites, v. 1 (marcador incluído no vol.).
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