José Hermano Saraiva (anot. e com.), Ditos Portugueses Dignos de Memória; História íntima do século XVI, 3.ª ed., Mem Martins, Europa-América, 1997.
O texto de chamada na contracapa desacerta com o teor dos «Ditos», descrevendo-os desprimorosamente como «mesquinharias», «invejas», dando-os estrondosamente como denúncia de «um país fendido pela intolerância e pela cupidez, onde se assiste ao naufragar das estruturas morais e ao esboroar das estruturas económicas». Um resumo delirante, errado, talvez indigente, de quem não leu ou não esteve para ler o livro e debitou um recado panfletário, viciado de juízos de valor típicos dum certo modo muito em voga hoje de, não só promover a História, como de olhar as coisas do passado em geral.
Ridículo!
O livro é um singelo rol de situações avulsas, comezinhas, quotidianas, algumas ligadas a factos de relevo histórico, outras só com o fundo que mostra Portugal há quinhentos anos, condimentadas com tiradas espirituosas ou galhofeiras dos intervenientes. Abarca ditos de gente de corte e não só, dos reinados de D. Afonso V, D. João II, D. Manuel I, D. João III e D. Sebastião. É desse colorido do dia-a-dia, raro de achar para tempo tão antigo, que lhe vem o interesse, porque, como o A. diz:
«[...] Uma cousa pequena ou uma palavra faz conhecer melhor os costumes das pessoas que as disseram que os infinitos inimigos mortos em batalhas e as cidades destruídas e reinos conquistados.»
Desconhece-se o A., mas foi contemporâneo de Camões — há dois ditos na compilação que se lhe referem. Conjectura o prof. Hermano Saraiva que era cristão-novo, provàvelmente oficial subalterno da Fazenda no reinado de D. João III.
«[749] Luís de Camões, que em oitava rima compôs parte da história da Índia tão bem como se vê, estando na Índia quando D. Antão de Noronha era viso-rei, considerando que, por o viso-rei não fazer armadas grossas, faziam os Malabares muito dano aos Portugueses, tomando-os onde os achavam poucos a poucos por razão da pouca resistência que, sendo assim poucos, lhes podiam fazer nas armadas miúdas que o viso-rei fazia, disse-lhe: «Este nosso viso-rei perde-se pela saca», aludindo ao jogo da primeira, onde se quem não aventura, quando lhe parece tempo, a restos grossos perde pouco a pouco o dinheiro que tem pela saca.»
«[750] Convidando um fidalgo chamado Heitor da Silveira um dia a jantar certos amigos e, entre eles, a Luís de Camões, depois que comeram, lançaram-se quatro deles sobre dois catres que somente havia na casa. E um dos convidados, a quem chamavam Lourenço Vaz Pegado, sentou-se no canto de uma janela; e Heitor da Silveira, tomando a tábua da mesa e atravessando-a sobre duas cadeiras de espaldas e lançando-lhe um pano de grã por cima, rogou-lhe que se encostasse ali. E ele recusando-o, fez-lhe Luís de Camões de repente esta trova:
Para homen tão honrado
fazem-vos mui pouca festa;
mas se ere[i]s avisado
nunca em tábua como esta
tu, Lourenço, vás pegado.»
[749] Parte da história da Índia: referência a Os Lusíadas que talvez seja a mais antiga referência elogiosa feita ao Poema em documento não oficial. Do mesmo modo que no alvará de privilégio e na autorização da Inquisição, Os Lusíadas são considerados um livro de história redigido em verso. Perde-se pela saca: o jogo da primeira, muito corrente nesta época, era um jogo de cartas no qual os parceiros deveriam tomar para si a parte ainda restante do baralho. Os jogadores audaciosos recolhiam-no quando as cartas que compunham essa parte eram muitas (restos grossos), correndo desse modo o risco de ficarem com cartas na mão quando o jogo terminava; mas, de outro modo, corriam o risco de ver as suas cartas «sacadas» a pouco e pouco pelo parceiro mais ousado. A isso se chamava «perder pela saca». Camões comparava, portanto, o viso-rei a um jogador tímido, que perde por medo de arriscar.
[750] Heitor da Silveira: filho de Francisco da Silveira, que foi coudel-mor no tempo de D. João III. Era ainda parente da família dos condes da Sortelha, mas em grau afastado (o avô de Heitor era irmão do avô do 1.º conde da Sortelha e do irmão deste, António da Silveira, o herói do primeiro cerco de Diu). Eres: é a 2.ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo ser em espanhol. No manuscrito da Academia figura éreis, 2.ª pessoa do plural do pretérito imperfeito do mesmo verbo em português. O tratamento «vós» indica que a forma do manuscrito da Academia é a correcta. Sobre o sentido do improviso camoniano e o possível trocadilho que ele contém ver o meu livro Vida Ignorada de Camões, p. 251 [p. 276 na 2.ª ed.]. [N. do E.]


![Av. da República, 55, Lisboa, [s.d.]. Horácio Novais, in bibliotheca d' Arte da F.C.G.](https://live.staticflickr.com/65535/52957361594_d93c1b3586_h.jpg)
![Landerset Simões, Norton de Mattos (pref.), Babel Negra: etnografia, arte e cultura dos indígenas da Guiné, [Porto], [Of. Gráficas d’ «O Comércio do Porto»], [1935], p. 25.](https://live.staticflickr.com/65535/53339027546_59707841a2_o.jpg)







