Primeiro, o primeiro-ministro pediu a demissão. A seguir, o presidente da república aceitou-a. Ao depois, o primeiro-ministro que se demitiu continuou em primeiro-ministro como se nada houvesse. E agora em cima disto tudo, o primeiro-ministro que está demitido mas não está, mai-lo o presidente que confirmou a demissão mas não faz caso, foram os dois oficialmente à Guiné em viagem de Estado.
Posto desta maneira simples, é de rir.
Empreendendo um nadinha mais no caso, porém, vejo aquele par de jarras ir assim prestes à Guiné para comemorar os 50 anos, dizem, da independência daquilo e — Ora! Independência de gargarejo, digo-o eu e é verdade, porque bradada sem consequência em Setembro de 1973 pelo P.A.I.G.C. do fundo do matagal africano.
Simplesmente, parece que vivemos tempos em que a História aldrabada é que conta e contra isso pouco se há-de fazer. Mas ainda assim o arriar da bandeira em Bissau foi e não deixa de ter sido só em Novembro de 1974 — de 1974! — Contas feitas foi mais dum ano após a tal independência que foram agora lá estes dois daqui comemorar. Um ínterim em que houve gente nossa a defender o próprio coiro e a pátria contra esses outros, os dos 50 anos agora. Mas pior é o que dá a entender a ida deste par de altas jarras com rótulo de portugueses a Bissau, porque alguns dos nossos bravos da Guiné tombaram lá justamente nesse ínterim de 73, 74; o que dá a entender, pois, é que os renegam. Os dois fregueses a que me refiro demonstraram, indo oficialmente e em nome de Portugal a Bissau para os 50 anos deles, o mais ignóbil desprezo pelos nossos que dignamente lá tombaram. — Tristes tornadiços tão cheios de Estado eles são! Uma enorme vergonha os cobriria, se a tivessem! Mas não. Nem espanta: um, parece com isto e tanto mais que tenho visto, renegar até o pai, que foi governador de Moçambique; o outro, filho dum goês, linhagem de gentes há 500 anos criada por Portugal, é igual e ainda por cima a braços com a lei. — Foi no que o portugalinho servil dAbril veio a dar.

Landerset-Simões, «Jerónimos», in Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, n.º 9, Abr...-Jul. 1934, p. 94.
Estes abrileiros da treta não se ensergam?
ResponderEliminarO que a vista lhe não alcança, atingem-no pela sem-vergonha.
ResponderEliminarCumpts.
Como seria a Guiné em 1934 ?
ResponderEliminarEm 1963 a 1974 muitos milhares de jovens souberem como era a Guiné, aquela gente sem saber falar português e aquelas terras sem igrejas que nunca tinham visto um "branco".
A única bandeira nacional era a do quartel da tropa, que os havia quase em todas as povoações.
Cumpts.
E hoje? Que espécie de coisa será a Guiné?
ResponderEliminarCumpts.
Hoje a Guiné é dos países mais pobres de África, já o era em 1934 e também em 1961 com o Estatuto do Indígena.
ResponderEliminarCumpts.