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sábado, 11 de novembro de 2023

«Se às seis estiver bom vou-se embora»

 No 7.º ano calhou-me um trabalho de grupo. Era para História. Sobre os Egípcios. O grupo era eu, o Jorge, o Fumaça (creio que já aqui o referi; ganhou a alcunha de Fumaça logo no primeiro dia de aulas porque lhe encheram a mochila de beatas e parece que uma estava acesa) e... não me lembro se o Nuno também era do grupo...
 Alguém propôs a biblioteca da Gulbenkian para pesquisarmos o tema e o Jorge ofereceu a casa da avó — um 5.º andar na Marquês de Sá da Bandeira — que calhava mesmo à mão para podermos levar a cabo o trabalho.
 Combinámos então uma tarde, fomos à Gulbenkian e ao depois para a avó do Jorge para começar a redigir o trabalho. Logo nessa vez o Fumaça saiu-se com uma frase que me ficou até hoje: — Se às seis estiver bom vou-se embora.
 Ouvimos aquilo e ficámos intrigados com o sentido do disparate — Se às seis estiver bom vou-se embora — mas logo ali ninguém fez muito caso.
 Eis senão quando, às seis da tarde, o Fumaça levanta-se e, sem água vai, abalou. Foi-se embora. Os que ficámos entreolhámo-nos estupefactos, até que um de nós recobrou o pio e disse:
 — Este gajo vai-se embora assim? Sem dizer nada?!
 — Bom! Ele tinha dito que se às seis estiver bom vou-se embora...
 — Mas se estiver bom?!... Se estiver bom o quê?!...
 Ninguém sabia.
 E repetíamos connosco, como se não estivéssemos nós próprios… bons:
 — Perceberam aquilo? Se às seis estiver bom o quê?!...


Rua Marquês de Sá da Bandeira, Lisboa. Artur Goulart, 1964
Rua Marquês de Sá da Bandeira, Lisboa, 1964.
Artur Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

 A avó do Jorge era naquele lado da rua, num prédio em frente aqui à mota do Chico. Só que se daqui não vê.


(Publicado originalmente em 1/VI/10 às dez e dezoito da noite. Revisto há pedaço.)

7 comentários:

  1. Mesmo em frente ao "castelo" do conde de Vilalva...

    É um dos edificios mais curiosos e com uma história muito bizarra...

    Quando o 1º titular foi um dia à Escócia comprar cavalos, ficou instalado num castelo "igual" a este, e o marquês que o recebeu disse-lhe ao jantar e na companhia de outros "bifes", que em Portugal não sabiam tratar de cavalos.

    Assim D. José Maria Eugénio de Almeida chegou a Lisboa, mandou edificar no jardim uma cocheira que era uma cópia precisa do castelo desse mesmo marquês, tendo-o convidado depois para vir ver como se tratavam os cavalos em Portugal...

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  2. Ah! Ah! Ah!
    Riquíssima história. Desconhecia.
    Cumpts.

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  3. Anónimo2/6/10 17:29

    Vou-se embora.

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  4. Eu também. Se às seis estiver bom!
    Abraço

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  5. Bic Laranja2/6/10 19:33

    Ora!...
    Cumpts. :)

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  6. Attenti al Gatti3/6/10 01:51

    "A mota do Chico". Ainda no Domingo passado falei sobre ela por causa de um desfile que houve em Setúbal, onde ví vários exemplares semelhantes, entre outras marcas e modelos. Matei saudades do pulsar grave do motor, tão diferente do esganiçado das outras "lambrettas".
    A.v.o.

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  7. Bic Laranja3/6/10 16:19

    Uma Heinkel de 175 cc. Cumpts.

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