— Ah! Sr. capitão, disse ella por fim pondo as mãos nas cadeiras, chegando a boca muito perto do rosto delle e abanando raivosa a cabeça: olhe que isto assim não vai direito; faz-me andar a cabeça á roda... põe-me os miolos a ferver… e eu estouro... já viu!…
— Mas o que há então, mulher?… Eu não lhe conheço…
— Não quero cá saber de nada!… Já lhe disse que isto não vai bem… e eu estouro…
— Mas porque?… o que é que tem… É preciso que você diga…
— Não tenho nada que dizer… Estouro, já lhe disse, Sr. capitão!…
— Pois estoure com trezentos diabos! mas ao menos diga pelo que é que estoura.
— Não tenho nada que dizer… já lhe disse… isto põe a cabeça da gente como uma cebola podre, não tem logar nenhum… Ir-me por lá com ares de santarrão comprar frutas…
— Quem, mulher de Deus? Você não se explicará?
— Qual explicar, nem meio explicar! Pois então por ser cá a gente uma mulher velha, que já perdeu os achegos ao mundo, e ella uma pobre rapariga tôla e bisbilhoteira, com vontade de saber de tudo, vir-me cá a mim pregar o mono na bochecha, e a ella em logar ainda mais melindroso…
— Mas quem é que pregou monos a você mais a ella? e quem é ella?…
— Faz-se de novo! continuou a mulher exasperando-se; pois o Sr. capitão já não tinha consentido no casamento?...
— Que casamento? com quem?…
— Ai, ai, ai, que cá me anda a cabeça como uma nora solta... Pois o Sr. capitão não sabe que tem um filho?...
— Sim, sei, respondeu este começando a descobrir o mysterio.
— E não sabe que elle é um pedaço de um mariola!…
A isto o capitão podia, porém não se animou a responder affirmativamente, e perguntou somente:
— E que mais?…
— E não sabe também que eu tenho uma filha que trouxe do Lumiar, a Mariazinha?
— Como, se eu nem a conheço?…
— Pois é uma rapariga muito capaz… e o diabo do tal cadete do seu filho andou por lá a entender com ella muito tempo: namoro para cá, namoro para lá, presentes daqui, promessas d'acolá… e afinal de contas… braz!… E então que lhe parece?
O capitão foi ás nuvens.
— Até lhe prometteu casamento, dizendo que o Sr. capitão consentia… Ora eu bem sei que ella tambem teve sua culpa mas eu desculpo isso, porque também já fui rapariga… e sei que quando começa cá o diabo no corpo, adeus! Mas isto põe a gente tonta, porque… emfim a rapariga podia vir a fazer fortuna.
O capitão tinha comprehendido tudo […]Memorias de um Sargento de Milicias, por um Brasileiro [Manoel Antonio de Almeida], Tomo I, Rio de Janeiro, Typographia Brasiliense de Maximiano Gomes Ribeiro, 1854, pp. 60-62.
Ora, se não é espantoso?!…
Um diálogo assim da pena dum brasileiro?!… Uma rábula destas com sotaque?!!… Um naco de prosa destes, num clássico da literatura… brasileira?! — É como costumam designá-lo…
Ná! Com certeza este diálogo da velha mãe da Maria da hortaliça com o capitão, pai dum cadete mariola que a desonrou (à Maria, não a velha), é zaragata alfacinha de mão na anca (ou nas cadeiras como se por ventura ainda dirá), se não mesmo castiça tirada duma revista no Parque Mayer; talvez cena de teatro radiofónico no Rádio Clube Português há umas décadas.
É o que me parece.
Isto é só um exemplo, porque o livrinho vai todo assim, por inteiro; se não na toada, pelo menos no estilo, pois a linguagem, a morfologia, a sintaxe, o contexto, as referências, o tempo, o espaço — Era o tempo do rei, a frase que abre o livro; o rei é D. João VI; ora no tempo de el-rei D. João VI o espaço era português —, pois bem, tudo ecoa Portugal!
Mais.
O malandrim herói do folhetim é um tal Leonardo, filho de Leonardo-Pataca, algibebe em Lisboa, bem apessoado maganão, e da tal Maria da hortaliça, saloia do Lumiar e quitandeira da praça, em Lisboa, rochonchuda e bonitota. Ambos se conhecem na passagem ao Brasil e, quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos… A história parte daqui e gira no Rio de Janeiro em torno das diabruras do rebento.
De maneira que, se bem assim a história se passa no Rio, se o autor é súbdito do imperador do Brasil, e o tempo da narração é o meado do séc. XIX, tudo não deixa de ser familiarmente português neste romance picaresco. Tão próximo, todavia tão distante que me deixa saudade; hoje Portugal acabou e o Brasil é qualquer coisa em que se não revê nem se tolera deixar rever Portugal. Não foi o caso com o A., Manoel Antonio de Almeida (1831-1861), cuja afinidade cultural — cujo o caldo de cultura em que viveu e laborou, não só a literária, se não distinguiu da cultura portuguesa. Assim seria o Brasil, dou eu em entender, ou pelo menos o Rio de Janeiro, em meado do séc. XIX; um Portugal de além-mar; daqui que hajamos um romance todo ele português, assenhoreado pelo Brasil por um acaso de jus soli.
Pela deriva do Brasil faz-me urticária pegar em edições brasileiras modernas, com português estropiado ou, nem sei já, se traduzido até para o idioma a que teimam chamar português, por inércia, esbulho ou má fé, naquelas terras de Santa Cruz a que vulgarmente passámos a chamar Brasil…
Comecei, portanto, pois, por tomar a edição da R.B.A./Público (Clássicos, n.º 12, 1994) com ortografia portuguesa de 1945 (que sigo neste escrito), e alternei ao depois a leitura com a 1.ª ed. (electrónica) que saquei à Biblioteca Nacional do Brasil. Nada como ler uma edição original do tempo do A., com a orthographia do próprio A., de antes de o mito da simplificação ortográfica degenerar em mania de acordos tortográficos para endireitar o que não estava torto.
Memorias de um sargento de Milicias, por um brasileiro é o título da 1.ª ed., em 2 tomos, do único romance de Manoel Antonio de Almeida, primeiramente publicado em folhetim no Correio Mercantil do Rio de Janeiro, de Junho de 1852 a Julho de 1853. A 1.ª ed. em livro é de 1854 (tomo I) e 1855 (tomo II), única publicada em vida do autor (Rio de Janeiro, Typographia Brasiliense de Maximiano Gomes Ribeiro).
O exemplar 113.927-AA 1951 da 1.ª ed. do Tomo II da B.N. do Rio de Janeiro, porém, tem intercalada a pp. 25 e 52 o f. dessas mesmas páginas, mas, do Tomo I. — Engano de encadernador? Trapalhice de digitalização?… — Vou mais pela primeira, mas ao certo não sei…
Ilustração: Chegada da Família Real Portuguesa ao Rio de Janeiro em 7 de Março de 1808. — Geoff Hunt., Soc. Hist. Britânica de Portugal, 1999. Óleo sobre tela, 60,9 x 91,4 cm. Colecção particular.

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