| início |

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Em Coimbra &c.

Espelho de Portuguezes / Alberto  Pimentel. — Vol. II. — Lisboa : Parceria A. M. Pereira, 1901. — 186 p.; 18cm. — Collecção Antonio Maria Pereira, 43






SANTOS E DEFUNTOS (cont.)


« Em algumas localidades o peditorio popular realiza-se, já o indiquei, no dia de finados.
   Em Coimbra saem os rapazes de cestinhos ou saquitos no braço a pedir por portas. Vão batendo ao ferrolho cantando:
  


Bolinhos, bolinhós,
Para mim e para vós,
E para os vossos finados,
Que estão enterrados
Ao pé da vera cruz
Para sempre. Amen, Jesus.
     Truz. Truz Truz.


   É tambem com fructas do tempo, avellãs, nozes, castanhas ou figos sêccos, que se responde ao peditorio.
  No caso de recusa a rapaziada vinga-se, não rogando uma praga, mas vibrando epigramma aos somiticos da casa:


Esta casa cheira a unto:
Aqui morreu algum defunto.

Esta casa cheira a breu:
Aqui morreu algum judeu.


  Tomo esta informação do livro do fallecido e erudito escriptor Borges de Figueiredo — Coimbra antiga e moderna e devo dizer que a redacção d'estas parelhas estará talvez um pouco adulterada.
   Eu creio que será — o que vae até mais de geito com a toada metrica — como dizem as creanças do Porto, quando pelo Natal lhes recusam a consoada:


Esta casa cheira a unto:
Aqui mora algum defunto.

Esta casa cheira a breu:
Aqui mora algum judeu.


  Faz mais sentido isto, porque o epigramma vae direito ao dono da casa, que está vivo, e que recusa a esmola.
  Devo ainda dizer, por amor da verdade, que os garotos de Coimbra, segundo a versão de Borges de Figueiredo, dizem bella cruz, em vez de — vera cruz.
   Theophilo Braga dá noticia de que nos arredores de Lamego, em dia de Finados, se vendem uns bolos de pão de trigo com ovos, que lá chamam Santoros.
   Eu não sei se effectivamente se vendem.
   Santorum, segundo o Diccionario de Moraes, é o mesmo que pão por Deus, e  santoro deriva certamente de santorum.
   E´ comtudo possivel que alguem aproveite a occasião para comprar já feitos os santoros para a sua familia e para os rapazes pedintes, e que, portanto, exista em Lamego uma industria periodica.
   […]
   Em Roriz não se chama pão por Deus, nem bolinhos, nem santoros a comezaina que se dá aos rapazes no dia de Todos os Santos ou de Finados. O que os rapazes vão pedir por portas, segundo lá dizem, é — os fieis de Deus.
»


Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. II, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901. pp. 117-119.


2 comentários: