Uma cousa pequena ou uma palavra faz conhecer melhor os costumes das pessoas que as disseram que os infinitos inimigos mortos em batalhas e as cidades destruídas e reinos conquistados.
José Hermano Saraiva (anot. e com.), Ditos Portugueses Dignos de Memória; História íntima do século XVI, 3.ª ed., Mem Martins, Europa-América, 1997.
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Eu e os Políticos pôs em alvoroço os fidalgos de pagode que vicejam na scena política do portugalinho dos nossos dias. A promiscuïdade da política com o jornalismo é a constante que lhe subjaz, mas o carácter do «escol» nacional impressa ali em letra de fôrma foi o que deu polémica. No fundo os jornais são papel de embrulho de todos os fretes e o livro descobre-o, bem temperado com as idiossincrasias da politicagem de turno.
Alguns aí como José Manuel Fernandes afoitam-se em louvor velado do livro já arrolado ao índex da democracia, mas diminuem-no em que se só lá acha o que todos sabem. — Todos sabem? Quem são todos? — Os do meio: jornalistas e políticos, pois!... Sobra o povoléu: o às vezes cidadão comum, passe a redundância tão necessária aos todos, esses outros cidadãos não comuns, lordes da democracia, que, enfim, sabem sempre mais. — Ao cidadão ninguém lho diria abertamente, mesmo que rumores corressem. Mas agora só não sabe quem não quiser ler. O testemunho foi dado.
Outros, também aí, porém, não têm contemplações: Luís Pedro Nunes afirmou que José António Saraiva, havendo como director do Expresso sido o jornalista mais poderoso do país e tendo perdido esse poder, escreveu o livro por ressentimento; a Fernanda Câncio, vedeta visada, diz que interpôs uma providência cautelar para banir o livro. — Jornalistas censurando jornalistas. — Ou comadres exhalando liberdade de expressão!... — Sintomático!...
Para não haver dúvidas o autor escreve na apresentação o seu objectivo: deixar testemunho para a História. É bom argumento; esperançoso quanto ao objecto focado, mas, que importa?!... Sabemo-lo filho e sobrinho de historiadores; está-lhe nos genes; deve ser mais forte do que ele... E é de valor. Quanto não daríamos por crónica viva assim, dum contemporâneo das personagens que rodearam D. Afonso Henriques, D. Dinis ou D. João II, legando-o a nós vindouros, dando-nos a conhecer o carácter particular e íntimo dos actores da autêntica História, grandes e pequenos? — Grandes ou pequenos os julgaríamos nós melhor por conhecê-los em retrato intimista e coetâneo. — Pois podem agora os nossos vindouros fazê-lo desta gente de agorinha mesmo — gente menor, ínfima, bem entendido, mas toda ela símbolo dum tempo. É o que há para legar, paciência!... O valor desta fonte de História quase íntima, os vindouros lho darão, portanto. Se não vier a ser convenientemente apagada.
Se estes actores da História recente são o que são, se valem o que valem, são todavia os que apareceram a figurar. — Castigo da Providência, má fortuna nossa... — Quereriam que o deixássemos na obscuridade? Mas não é a sacrossanta democaracia isto mesmo: o alçar da maioria, que é a mediocridade, por boa? Se o quadro em que figuram os farsantes é miserável, eles o necessàriamente assim compuseram — não há omoletes sem ovos.
Da promiscuïdade entre política e jornalismo (este mera câmara de ressonância daquela) que o livro dá imagem, verificamos que o principal (único?) objecto da política é, ao cabo e ao resto, a sua própria publicidade. Ora o livro demonstra essa desgraça dando de caminho a degradação de costumes, a falta de carácter, a ânsia de protagonismo, a vaidade, a ganância, a ostentação e o vício dos protagonistas retratados. Serem eles com isso tudo que os identifica a transmitir a pequena História deste tempo desgraçado e pela pena dum deles, jornalista, é irónico. Talvez daqui o maior choque e raiva que o livro causou. Essa gente menor não queria ficar assim impressa para o futuro? Mas, que dizer? Eles merecem!...
— Que a democracia lhes seja pesada! — Eis o valor do livro do arq.º Saraiva.