Tenho aqui criticado pecadilhos e azelhices, mas justo é que louve quando haja de louvar. Talvez seja agora caso...
O Fraga-hífen-Aurélio (Lisboa de Antigamente) que transcreve as Peregrinações de Norberto Araújo ilustrando-as com imagens do archivo photographico da C.M.L., publicou há dias uma chapa de José Arthur Leitão Barcia dumas casas e duma ermida na estrada da Penha de França; são umas velhas casas demolidas por volta de 1916 conhecidas ùltimamente por Pateos dos Condes de Soure e que povoaram até então o alto do Monte Agudo (*). Como são chãos onde hoje poisa a escola secundária de D. Luísa de Gusmão, que frequentei nos meus tempos do liceu, quando há uns anos li a passagem de Noberto Araújo acerca do lugar quis achar imagens do que me ele descrevia, mas foi em vão.
Segundo o olisipógrafo as casas ali vinham do tempo de el-rei D. Sebastião e eram pertença de uns Carvalhos, gente boa e de haveres, que vieram à posse dos condes de Soure pelo casamento em 1693 duma dama sua herdeira com o 3.º conde daquele título, D. João José da Costa e Sousa. Foi essa dama D.ª Luísa Francisca de Távora, dama da Rainha, filha e herdeira de Henrique de Carvalho e Sousa, senhor da Azambujeira, morgado de Patalim (Évora), comendador da Ordem de Cristo e provedor das Obras do Paço. Estes títulos e privilégios entraram assim na casa de Soure, a par das casas do Monte Agudo.
Pátios do Conde Soure e ermida de N. Sr.ª do Monte Agudo na Estr. da Penha de França, Lisboa, c. 1916.
José Arthur Leitão Bárcia, in archivo photographico da C.M.L.
O achado da fotografia tem o seu mérito porquanto vem etiquetada no archivo photographico da Câmara como, imagine-se, Palácio do Conde de Sôr (sic); e localizam-na na Rua da Vinha ao B.º Alto. — Se trocar Soure por Sôr é já digno de encómio, que dizer dele quando quem no faz atribui tão sàbiamente o lugar retratado à Rua da Vinha, rua ela que entesta nada mais nada menos com a Travessa do Conde de... Soure?!... — Mas aproveitemos a chave. Pesquisando por Sôr em vez de Soure, acha-se outra do palácio, da sua demolição (v. infra). Não deixa dúvidas: o brasão que encima a porta é dos Carvalhos; as casas demolidas deviam vir do séc. XVII, antes de passarem à casa de Soure.
Òbviamente o louvor ao Fraga-hífen-Aurélio vem inteiramente donde jazem o demérito e a asneira do archivista. Mas não é menor por isso. Parabéns!
Demolição do palácio do Conde Soure no Monte Agudo, Lisboa, c. 1916.
José Arthur Leitão Bárcia, in archivo photographico da C.M.L.
(*) O Monte Agudo, fronteiro ao Cabeço da Bola e sobranceiro ao B.º das Colónias, é hoje um topónimo pouco conhecido. Para ele confluem modernamente as ruas do Mestre Ant.º Martins e Heliodoro Salgado. A primeira é rua moderna, nada há a dizer. Mas a última é a antiga Calçada do Monte Agudo, topónimo do séc. XVII substituído por homenagem a Heliodoro Salgado (Santo Tirso 8/7/1861 – 12/9/1906), maçon fundador da Carbonária Lusitana e militante do Partido Republicano. Em 1944 e em 1950 a Comissão Municipal de Toponímia propôs que se tornasse ao topónimo seiscentista. O nome, porém, manteve-se. Imagino porquê...
Conheço tão bem essa zona e nunca imaginei que no início do século XX fosse esse o seu aspecto. A cidade mudou tanto.
ResponderEliminarQuanto ao elogio é merecido pois descobrir onde é que era uma determinada rua é obra de detective, mais a mais se há erros desses no arquivo.
Mudou. E perdeu encanto.
ResponderEliminarCumpts.