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terça-feira, 25 de outubro de 2016

As casas do conde de Soure no Monte Agudo

 Tenho aqui criticado pecadilhos e azelhices, mas justo é que louve quando haja de louvar. Talvez seja agora caso...
 O Fraga-hífen-Aurélio (Lisboa de Antigamente) que transcreve as Peregrinações de Norberto Araújo ilustrando-as com imagens do archivo photographico da C.M.L., publicou há dias uma chapa de José Arthur Leitão Barcia dumas casas e duma ermida na estrada da Penha de França; são umas velhas casas demolidas por volta de 1916 conhecidas ùltimamente por Pateos dos Condes de Soure e que povoaram até então o alto do Monte Agudo (*). Como são chãos onde hoje poisa a escola secundária de D. Luísa de Gusmão, que frequentei nos meus tempos do liceu, quando há uns anos li a passagem de Noberto Araújo acerca do lugar quis achar imagens do que me ele descrevia, mas foi em vão.
  Segundo o olisipógrafo as casas ali vinham do tempo de el-rei D. Sebastião e eram pertença de uns Carvalhos, gente boa e de haveres, que vieram à posse dos condes de Soure pelo casamento em 1693 duma dama sua herdeira com o 3.º conde daquele título, D. João José da Costa e Sousa. Foi essa dama D.ª Luísa Francisca de Távora, dama da Rainha, filha e herdeira de Henrique de Carvalho e Sousa, senhor da Azambujeira, morgado de Patalim (Évora), comendador da Ordem de Cristo e provedor das Obras do Paço. Estes títulos e privilégios entraram assim na casa de Soure, a par das casas do Monte Agudo.


Pátios do Conde Soure — Estr. da Penha de França, Lisboa (J.A.L. Barcia, ante 1916)
Pátios do Conde Soure e ermida de N. Sr.ª do Monte Agudo na Estr. da Penha de França, Lisboa, c. 1916.
José Arthur Leitão Bárcia, in archivo photographico da C.M.L.


 O achado da fotografia tem o seu mérito porquanto vem etiquetada no archivo photographico da Câmara como, imagine-se, Palácio do Conde de Sôr (sic); e localizam-na na Rua da Vinha ao B.º Alto. — Se trocar Soure por Sôr é já digno de encómio, que dizer dele quando quem no faz atribui tão sàbiamente o lugar retratado à Rua da Vinha, rua ela que entesta nada mais nada menos com a Travessa do Conde de... Soure?!... — Mas aproveitemos a chave. Pesquisando por Sôr em vez de Soure, acha-se outra do palácio, da sua demolição (v. infra). Não deixa dúvidas: o brasão que encima a porta é dos Carvalhos; as casas demolidas deviam vir do séc. XVII, antes de passarem à casa de Soure.
  Òbviamente o louvor ao Fraga-hífen-Aurélio vem inteiramente donde jazem o demérito e a asneira do archivista. Mas não é menor por isso. Parabéns!


Demolição do Palácio dos Condes de Soure no Monte Agudo, Lisboa (J.A.L.Bárcia, c. 1916)


Demolição do palácio do Conde Soure no Monte Agudo, Lisboa, c. 1916.
José Arthur Leitão Bárcia, in archivo photographico da C.M.L.


 




(*) O Monte Agudo, fronteiro ao Cabeço da Bola e sobranceiro ao B.º das Colónias, é hoje um topónimo pouco conhecido. Para ele confluem modernamente as ruas do Mestre Ant.º Martins e Heliodoro Salgado. A primeira é rua moderna, nada há a dizer. Mas a última é a antiga Calçada do Monte Agudo, topónimo do séc. XVII substituído por homenagem a Heliodoro Salgado (Santo Tirso 8/7/1861 – 12/9/1906), maçon fundador da Carbonária Lusitana e militante do Partido Republicano. Em 1944 e em 1950 a Comissão Municipal de Toponímia propôs que se tornasse ao topónimo seiscentista. O nome, porém, manteve-se. Imagino porquê...

2 comentários:

  1. Mandarinia25/10/16 17:47

    Conheço tão bem essa zona e nunca imaginei que no início do século XX fosse esse o seu aspecto. A cidade mudou tanto.
    Quanto ao elogio é merecido pois descobrir onde é que era uma determinada rua é obra de detective, mais a mais se há erros desses no arquivo.

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  2. Mudou. E perdeu encanto.
    Cumpts.

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