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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Do palácio e quinta dos condes das Galveias


Mas o Palácio das Galveias tinha aquele aspecto de degradação horrível, pelos anos de 19...?



Palácio Galveias, Lisboa (A.J.L. Bárcia, 1915-28)
Largo do Dr. Afonso Pena e Palácio Galveias, Campo Pequeno, [1915-28].
José Arthur Leitão Barcia, in archivo photographico da C.M.L.



  Torno com esta fotografia porque suscitou uma pregunta que me deu mote para o que resumo a seguir.


 O palácio Galveias chegou ao estado em que se viu antes de ser expropriado e convertido em biblioteca municipal. Foi construído pelos Távoras no séc. XVII, de que é exemplar arquitectónico de casas nobres desse tempo, mas, com a desdita dessa família no tempo de Pombal o palácio (e quinta, que era maior do que se imagina) mudou de dono. Chegou às mãos dos Abreus e Castros [Melos e Castros, quero dizer], condes das Galveias pelos alvores do séc. XIX até que estes o finalmente venderam a um Braz Simões, salvo erro industrial ou capitalista, uma coisa assim. Este arrendou-o em fracções a gente pobre como sudedeu a outros palácios fidalgos como p. ex. os casebres do Loretto (Marialva) ou o palácio dos Telles da Sylva (Alegrete). Até que decaíu no estado em que o vemos na imagem. Acabou expropriado pelos anos 20 por se dar remate às avenidas Barbosa du Bocage, Elias Garcia e Defensores de Chaves. Com a posse do Estado c. de 1928/29, em boa hora decidiu-se restaurá-lo e vertê-lo em biblioteca com o solene aspecto que lhe reconhecemos hoje.


 Mais uma nota. Os cartazes de espéctaculos na frontaria do palácio anunciam os filmes mudos Cabiria no Politeama e Maciste no Olympia. São filmes italianos de 1914 e 1915. Não sei ao certo quando foram estreados cá, mas já li alhures que foi por 1916. Ora aqui está uma data verosímil para a imagem.

  Por fim, para vermos por onde se estendia antes das avenidas a quinta das Galveias com suas terras de semeadadura e com quem confrontava, fica uma planta do eng.º Ressano Garcia, de 1902.


 



Frederico Ressano Garcia, Planta da zona de Picoas até ao Campo Grande, que inclui a avenida Ressano Garcia, actual avenida da República, a estrada de Picoas, o matadouro, o largo da Cruz do Taboado, a propriedade da condessa de Camaride, a estrada do Arco do Cego, a avenida Fontes Pereira de Melo, a praça de Touros, a propriedade do conde das Galveias, a estrada de Entrecampos [a quinta de Francisco Isidoro Viana] e o mercado Geral de Gados, C.M.L.,1902 (PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/09/01928), apud Francisco de Matos et al., Do Saldanha ao Campo Grande: os originais do Arquivo Municipal de Lisboa, Lisboa, C.M.L., 1999, pp. 26-27.

7 comentários:

  1. Ontem fugiu-me, estranhamente, um pequeno apontamento sobre este Palácio relativamente às notas que lhe acrescentou e mais uma curiosidade com ele relacionada. Hei-de voltar a repetir o comentário amanhã, se Deus quiser. Hoje já não consigo escrever mais.

    Ainda assim não posso deixar de acrescentar mais algumas palavras.
    Acho uma pequena maravilha todas as descobertas e informações que aqui vai deixando sobre estas pérolas arquitectónicas dos tempos passados, bem como um pouco das histórias familiares com elas relacionadas. Eu que aprecio sobremaneira tudo o que lhes diga respeito, agradeço-lhe duplamente as (possíveis) horas despendidas em tão dignificante tarefa traduzidas numa pesquisa criteriosa e num esforço intelectual dignos de registo.
    Maria

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  2. Acabei de perder outro comentário agora mesmo e quase acabado! Passa-se qualquer coisa com este computador, que é de aquisição recente e de belíssima qualidade e marca, que me faz duvidar se fiz bem em escolher uma marca japonesa...

    Vamos lá ver se desta não vou ficar a ver navios...

    Estive a rever as ligações que deixou anteriormente sobre o Palácio Telles da Syllva e o edifício Tarouca, em ângulo recto, mesmo ao lado. Se eles ainda existem bem gostaria de visitar aquela zona, que não conheço, para os observar em pormenor.

    Quanto ao excelente mapa (o segundo mais alargado e pormenorizado) que deixou sobre a localização do Palácio das Galveias e todos os vastos terrenos que o rodeavam, devo confessar que, porque a enorme quantidade e excelente legendagem, é de tal modo pequenina e esboroada que mal distingo os nomes nela inscritos. Consigo ler alguns nomes "Praça de Toiros" (e deste modo consigo imaginar, só imaginar..., a localização do Palácio do seu lado esquerdo), "Galveis" várias vezes, "talhão" inúmeras vezes, "Camaride" e pouco mais. Não penso que seja defeito do meu computador, que é recente e de muito boa qualidade, porque mesmo ampliando ao máximo a imagem, não resulta. E digo isto, porque com outras ampliações, noutros casos, tudo fica perfeitamente legível.
    O que vejo claramente são os bem desenhados e certamente lindos jardins contíguos e de certeza nos terrenos porteriores ao Palácio, mas quando procuro descortinar a exacta localização deste... tricles nicles!

    Vou deixar algumas curiosidades destas duas famílias (Teles da Silva e Galveias) no seu e-mail.
    Maria

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  3. Quanto à degradação do Palácio em 1919, verifico que nesta altura - e comparando com a sua feliz ecuperação - os medalhões sobre as janelas, brazão, desenhos das janelas na fachada e no pátio interior, o portão e mesmo a pedraria que rodeava a base do edifício, tudo isto se manteve graças a Deus. O que me horrorizou foram aquelas tábuas a fazerem de porta em duas das entradas. E o que acho uma pena imensa foi ter desaparecido todo o edifício(?) a partir do portão de ferro, este incluído, que existia ainda naquele tempo, do lado esquerdo da fachada e que certamente daria entrada para os imensos jardins que se estenderiam pelos vastos terrenos do lado esquerdo do portão de ferro e continuando pelos imensos terrenos posteriores do Palácio. Eu sei que o derrube de toda aquela zona do Palácio e da destruição dos seus vastíssimos terrenos e jardins, foram necessários para abrir as ruas e avenidas que posteriormente substituiram aqueles, mas foi uma grande pena (e perda) repito.
    Maria

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  4. O mapa não é muito legível. Alguma legenda entende-se:
    - Da Condessa de Camaride (ou Camarido) eram essas as terras das Picoas ao Campo Pequeno conforme v~e no mapa; o palácio era na Estr. das Picoas.
    Das propriedades desenhadas em baixo, da esq. para a direita:
    - D Luiz de Lencastre (Casa de Abrantes?) — a propriedade era conhecida por Terras do Alto. Cuido que por herança ficaram para as filhas; expropriadas em 1905 para fazer a Av. Casal Ribeiro e ruas adjacentes.
    - Theotonio Ornellas de Bruges (Conde da Praia).
    Companhia Carris de Ferro de Lisboa.
    - D. Marcos de Noronha (Vagos).
    - José Joaquim Rodrigues de Sousa.
    - D. Maria Luiza Martins Pereira (brasileira?)
    - Quinta das Galveias — duas partes divididas por uma serventia da Condessa de Camaride para o Campo Pequeno.
    - Quinta do Vianna — Francisco Isidro Vianna, duas partes cortadas por um caminho que ligava ao Rêgo. Confrontava com o Mercado Geral dos Gados (Feira Popular). Sobrava dela até aos anos 1930 o Retiro do Arco do Cego, afamado.
    ...
    No lado superior do mapa, em forma de triângulo: Sá Nogueira (Sá da Bandeira). O palácio destas terras é no Largo de S. Sebastião, no enfiamento da Estrada do Rêgo (R. Marques de Sá da Bandeira).

    Com paciência e tempo fazia-se uma rica história destas casas e destas famílias a ilustrar a planta de Ressano Gracia.

    Cumpts.

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  5. Que beleza de descrição e ainda por cima descrevendo ao pormenor a localização exacta de cada um daqueles imensos terrenos e os nomes dos respectivos donos e tudo! Assim sim. Lá irei (com o tempo que merecem) confirmar todas as excelentes informações que aqui deixou.
    Veja o seu email.
    Maria

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  6. Corrijo.
    D. Luiz de Lencastre. Mais rigorosamente D. Luiz Victorino de Lencastre, filho natural do 2.° conde da Lousã. Herdou de seu cunhado (3.° conde), de quem foi testamenteiro, as Terras do Alto (também quinta da salgadeira? — não tenho a certeza) e a propriedade de Cadafais, que passou a suas filhas.
    Este caso tem mais história que pode ter ou não interesse.
    Cumpts.

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  7. Eu sempre estive destinado à lavoura... também nestas terras, de que fala, Homens ilustres, das nossas letras e outras 'artes', aqui viveram e vivem É aconchegante os bandos de gente nova com que nos cruzamos pela noitinha. O Bairro remoçou
    Sou feliz nestas terras de pequenas e grandes estórias. Melhor,é o lugar onde me sinto mais feliz e de que guardo as mais belas estórias da minha desinteressante história

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