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domingo, 9 de outubro de 2016

Dos fracos já reza a História

 Uma cousa pequena ou uma palavra faz conhecer melhor os costumes das pessoas que as disseram que os infinitos inimigos mortos em batalhas e as cidades destruídas e reinos conquistados.

José Hermano Saraiva (anot. e com.), Ditos Portugueses Dignos de Memória; História íntima do século XVI, 3.ª ed., Mem Martins, Europa-América, 1997.

*     *     *


J.A. Saraiva, «Eu e os Políticos» (Gradiva, 2016)


 Eu e os Políticos pôs em alvoroço os fidalgos de pagode que vicejam na scena política do portugalinho dos nossos dias. A promiscuïdade da política com o jornalismo é a constante que lhe subjaz, mas o carácter do «escol» nacional impressa ali em letra de fôrma foi o que deu polémica. No fundo os jornais são papel de embrulho de todos os fretes e o livro descobre-o, bem temperado com as idiossincrasias da politicagem de turno.


 Alguns aí como José Manuel Fernandes afoitam-se em louvor velado do livro já arrolado ao índex da democracia, mas diminuem-no em que se só lá acha o que todos sabem. — Todos sabem? Quem são todos? — Os do meio: jornalistas e políticos, pois!... Sobra o povoléu: o às vezes cidadão comum, passe a redundância tão necessária aos todos, esses outros cidadãos não comuns, lordes da democracia, que, enfim, sabem sempre mais. — Ao cidadão ninguém lho diria abertamente, mesmo que rumores corressem. Mas agora só não sabe quem não quiser ler. O testemunho foi dado.
 Outros, também aí, porém, não têm contemplações: Luís Pedro Nunes afirmou que José António Saraiva, havendo como director do Expresso sido o jornalista mais poderoso do país e tendo perdido esse poder, escreveu o livro por ressentimento; a Fernanda Câncio, vedeta visada, diz que interpôs uma providência cautelar para banir o livro. — Jornalistas censurando jornalistas. — Ou comadres exhalando liberdade de expressão!... — Sintomático!...


 Para não haver dúvidas o autor escreve na apresentação o seu objectivo: deixar testemunho para a História. É bom argumento; esperançoso quanto ao objecto focado, mas, que importa?!... Sabemo-lo filho e sobrinho de historiadores; está-lhe nos genes; deve ser mais forte do que ele... E é de valor. Quanto não daríamos por crónica viva assim, dum contemporâneo das personagens que rodearam D. Afonso Henriques, D. Dinis ou D. João II, legando-o a nós vindouros, dando-nos a conhecer o carácter particular e íntimo dos actores da autêntica História, grandes e pequenos? — Grandes ou pequenos os julgaríamos nós melhor por conhecê-los em retrato intimista e coetâneo. — Pois podem agora os nossos vindouros fazê-lo desta gente de agorinha mesmo — gente menor, ínfima, bem entendido, mas toda ela símbolo dum tempo. É o que há para legar, paciência!... O valor desta fonte de História quase íntima, os vindouros lho darão, portanto. Se não vier a ser convenientemente apagada.


 Se estes actores da História recente são o que são, se valem o que valem, são todavia os que apareceram a figurar. — Castigo da Providência, má fortuna nossa... — Quereriam que o deixássemos na obscuridade? Mas não é a sacrossanta democaracia isto mesmo: o alçar da maioria, que é a mediocridade, por boa? Se o quadro em que figuram os farsantes é miserável, eles o necessàriamente assim compuseram — não há omoletes sem ovos.
 Da promiscuïdade entre política e jornalismo (este mera câmara de ressonância daquela) que o livro dá imagem, verificamos que o principal (único?) objecto da política é, ao cabo e ao resto, a sua própria publicidade. Ora o livro demonstra essa desgraça dando de caminho a degradação de costumes, a falta de carácter, a ânsia de protagonismo, a vaidade, a ganância, a ostentação e o vício dos protagonistas retratados. Serem eles com isso tudo que os identifica a transmitir a pequena História deste tempo desgraçado e pela pena dum deles, jornalista, é irónico. Talvez daqui o maior choque e raiva que o livro causou. Essa gente menor não queria ficar assim impressa para o futuro? Mas, que dizer? Eles merecem!...


 — Que a democracia lhes seja pesada! — Eis o valor do livro do arq.º Saraiva.

13 comentários:

  1. Mandarinia10/10/16 09:40

    Muito bem visto.Eles estão por dentro de tudo, sabem tudo, ouvem tudo, mas só entre eles (somos todos iguais mas há uns mais iguais que outros). O povo, que só serve como arma de arremesso político e para pagar impostos, não tem nada de saber destas coisas, não senhor. Acho que nunca irão perdoar ao arquitecto. Alguns dos detractores têm mesmo a audácia de afirmar que o livro não se venderá porque eles acreditam nos leitores e sabem que eles não querem lixo. Pois o que eu não quero é o lixo que nos dão diariamente na nossa imprensa e que tenta passar por notícias. Pastiches mal escritos, mal traduzidos e mal transmitidos. A menina que queria um apartamento no Chiado e que agora quer proibir o livro, tem de facto um descaramento sem fim. Por respeito ao blog, ao autor e aos seus leitores abstenho-me de a chamar pelo nome que realmente ela merecia.

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  2. joebernard10/10/16 12:42

    Já li o livro.
    Nada de especial.

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  3. Assim parece. Mas é preciso não deixar de ligar algumas pontas:

    Marante. A desgraça deste país ressalta dos pormenores destas 9 págs.: ah! as longas horas de necrológio laudatório da T.S.F. quando morreu o Rangel. Afinal consumiu 22 mil contos de coca num ano; abençoadas lavagens de dinheiro com o banco Totta; rico escol de intrigas, adultério, putedo, porrada e sexo.
    Jornalismo de fretes que cala a natureza de toda essa gente da orla do Poder.
    Miséria!

    Sócrates. Intriguista, mentiroso, amoral, toleirão, rancoroso e vingativo. Pouco mais ou menos, sobressai isso tudo. Um caso de psiquiatria, porventura. A sua ligação à Câncio e de ambos á Marante e ao Rangel expõem vícios calados. Deve ser isso que moveu a Câncio a querer banir o livro.

    António Costa. O pequeno Babouche. Cínico sem carácter.

    Paulo Portas. Oportunista.
    O melhor sobre a personagem vem no resto do livro: homossexual; o A. possui uma fotografias dele vestido de mulher em festa rodeados de homens asquerosos.

    Passos Coelho. Balão de ar... aprumado. (Condescendência do A.) Espelha a qualidade medíocre que chega a primeiro-ministro!...

    «Alberto João da Madeira.
    Letra da escola primária.
    Pressões sobre notícias.
    Uma vez absolvido e todas as demais condenado... Comentário mordaz do A. sobre a (não) independência dos tribunais da Madeira.»

    Marcelo Rebelo de Sousa. «Professor catedrático com a traquinice de aluno da escola primária.» Intriguista...

    Balsemão impôs ao A., quando lhe deu a direcção do Expresso, não contratar Marcelo porque lhe fizera patifarias. Marcelo, porém, manteve-se a fonte de J.A.S.
    Irónico.
    Mais irónico: Marcelo ascende a P.R. alcatruzado pela imprensa toda, excepto a de Balsemão.

    Etc.

    Cumpts.

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  4. Fica sempre tudo em surdina. O argumento é sempre da vida particular. Pois é! Com ele sugam-nos o país que nos resta. e ainda temos de ficar na crença que é tudo boa gente.
    Cumpts.

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  5. As anotações supra são minhas, feitas à medida que ia lendo.
    As aspas no cacique da Madeira estão a mais.

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  6. Excelente descrição/crítica do livro de A.J.S. e óptimos pedaços de texto dele extraídos. Depois de os ler talvez compre o livro. Parece merecer a pena pelo menos para verificar até que ponto foi/vai o cinismo, a falsidade, o oportunismo, a interesseirice, a mentira, a corrupção e sobretudo a traição a Portugal e aos portugueses que, como povo bom, ingénuo e crente, aceitou este bando de malfeitores de braços abertos para vir a ser por eles vilmente traído desde a primeira hora em que pisaram solo português. Uns pulhas que se auto-intitularam libertadores do povo para trair criminosamente esse mesmo povo, reduzindo a quase nada um País que outrora havia sido Nobre e Soberano e orgulhoso da sua Independência durante quase mil anos. Lacráus venenosos e a personificação do Mal é o que todos eles são, com as pouquíssimas excepções que se podem contar pelos dedos de uma só mão.

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  7. J.A.S., queria eu dizer.

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  8. Não há uma sem duas, nem duas sem três..., lá diz o povo. Os dois comentários anteriores são meus. Mas isso nota-se, não é assim? Não os assinei pela habituação que tenho em escrever noutros blogos que automàticamente os encimam com o nome de quem comenta.
    :)Maria

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  9. Note a prezada Maria que: as anotações sobre os visados no livro são minhas, não são citações do dito livro.
    Obrigado da estima!

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  10. Por acaso até julguei:) Mas olhe que estão como o ouro está para o azul. Ou seja, não podiam estar mais adequadas às personagens em causa!

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  11. Lá estou eu a esquecer-me d'assinar! Isto já não é defeito é feitio...
    :)Maria

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  12. A verdade dói, até aos que (hipocritamente) gritam pela verdade!

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  13. Esses gritos pela verdade não são que histeria fanfarrona.
    Cumpts.

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