Diz que o pavimento da nova Ribeira das Naus só durou um dia e vai ser reparado. Não espanta. Trabalho de qualidade é só no lançamento e adjudicação de empreitadas vistosas. Depois é o que se sabe: mais negócios e propaganda... A simples reparação de buracos no asfalto da cidade quotidiana, calçar passeios, etc., não faz parte desses planos; quem passe nas ruas Andrade Corvo, José Falcão, Dona Estefânia, Fernão Lopes [junte o benévolo leitor aqui as do seu itinerário quotidiano] as crateras que achar na calçada, no asfalto das ruas, são imagem do vai entre as orelhas da vereação e, principalmente, do presidente. Suponho ainda assim que cavidades como estas que digo [em ambos os casos], cheias de brita, fizessem serviço com mais proveito do aquilo que temos em Lisboa.
A abertura da Avenida da Ribeira das Naus em 1948, em Lisboa de hoje e amanhã -1948, in Metakinema.
domingo, 31 de março de 2013
Ribeira do naufrágio
sábado, 30 de março de 2013
Nova carreira (novidade antiga)
« No dia 30 de Março de 1963 (sábado) pelas 9h é inaugurada a carreira 41 de autocarros, que complementa o serviço da carreira 26A assegurando ainda a ligação ao Bairro de Padre Cruz.
A partir dos Restauradores, esta carreira circula pela Avenida da Liberdade, Marquês de Pombal, Avenida Fontes Pereira de Melo, Avenida António Augusto de Aguiar, São Sebastião, Praça de Espanha, Avenida Columbano Bordalo Pinheiro, Rua Doutor António Granjo, Estrada de Benfica, Sete Rios, Estrada das Laranjeiras, Estrada da Luz, Largo da Luz, Rua da Fonte, Rua Neves Costa, Carnide, Estrada da Pontinha, Estrada Militar e Azinhaga da Pentieira até ao Bairro Padre Cruz, onde efectua terminal.»C. Filipe, A minha página Carris.
Inauguração da Carreira de Autocarros Restauradores-B.º P.e Cruz a que assisiram o presidente França Borges, o vice-presidente Aníbal David, Vicente Rodrigues, o director de Finanças Manuel dos Santos Ferreira, o capelão do bairro, P.e Francisco e outras individualidades [e os vizinhos do bairro], Bairro Padre Cruz, 1963.
Armando Serôdio, Arquivo Fotográfico da C.M.L., A41172.
quinta-feira, 28 de março de 2013
«Fourty four»
Uma fotografia do Cais do Sodré no dia 5 de Outubro de 1980. Aviva-me esta bem a memória acerca da Lisboa daqueles tempos. Era assim, realmente, desmazelada e suja, com lixo espalhado sempre pelo chão. Não melhorou; primeiro porque há hoje fatalmente mais lixo; depois porque sobra agora maior empenho em elaborar rodriguinhos ambientais e campanhas recicláveis (por ajuste directo ou para adjudicar a amigalhaços) do que em recrutar almeidas e tê-los a varrer as ruas. Sendo o lixo mais, hoje, como sabeis, deu ultimamente a Câmara de Lisboa em recolhê-lo só três vezes por semana. Entretanto, ou o atulhamos em casa, ou fazemos da porta da rua uma esterqueira. 
Cais do Sodré, Lisboa, 1980.
Fotografia: Biblioteca de Wood.
Neste sítio do Cais do Sodré paravam muitos autocarros. Podeis ver aí na imagem um 45, um 44, -- cujas paragens eram ali, exactamente ali, como diria o saudoso prof. Hermano Saraiva --, um 2, e um 35 meio escondido pelo Daimler Fleetline com publicidade à Efacec, cuja paragem era mais cá, justamente no passeio onde poisa o indígena à esquerda em primeiro plano.
Pois certa vez, por 1979 ou 80, estava eu por ali na paragem do 35 e havia um casal de turistas camones de roda da planta da rede de autocarros, apontando inúmeras vezes com o dedo e repetindo fourty four, fourty four em cada frase. O mais que diziam não o entendia, mas fourty four, fourty four era fácil: eles queriam o 44. Ora eu, mesmo sem saber amaricano, sabia justamente qual era a paragem do 44. Puxei ao senhor do casal pelo braço e disse-lhe -- Fourty four! -- fazendo-lhes o gesto de come on. E assim os guiei à paragem do 44, que era logo ali diante, como bem vedes, apontando-lhes lá, orgulhoso, a tabuleta que exibia em algarismos o número da carreira tanta vez repetido: o fourty four.
A paga foi uma festa na cabeça e um sorridente Thank you! You're very smart (mais tarde nesse dia soube o que significava e inchei).
O 44 apareceu num instante e, para o meu destino, que era o que calhasse, tanto dava o 35 como 44. -- Andava eu a espremer rendimento ao passo-social procurando descobrir a cidade. -- De maneira que apanhei logo ali o 44 também, levado por certa curiosidade acerca do casal de estrangeiros. Plantei-me uns quantos bancos atrás deles a ver do seu (e do meu) destino. O autocarro partiu, por alturas da Rua Augusta apareceu o condutor (o pica-bilhetes) e então assisti a um diálogo de surdos. O condutor perguntava em sonoro português: -- Para aonde? -- e a os turistas camones respondiam sabe-se lá o quê. Isto por umas quantas vezes. E então, já passados do Rossio, o homem dos bilhetes resolveu que tinha mais que fazer e decidiu-lhes o destino: -- Para o aeroporto? Muito bem! -- e rasgou-lhes do maço dois bilhetinhos de 7$50 (sete e quinhentos).
Os turistas camones sairam no Marquês de Pombal. A viagem até lá era só 5$00 (cinco escudos). Paciência.

Bilhetes desta colecção. Planta da rede de autocarros em Cruz-Filipe, História das Carreiras da Carris.
(Texto revisto.)
terça-feira, 26 de março de 2013
Língua de trapos
Um plural justificado por um traço etimológico tornando absurdo o respectivo singular, precisamente por nele ser desprezado o mesmo traço etimológico. Um desatino de mentes mais burras do que falhas de tacto. Eis a língua do Brasil.
(Imagem do livro das fuças.)
domingo, 24 de março de 2013
O melro e a R.T.P.
Fala-se amiúde do ex-vendedor de Magalhães passar a vender o seja-o-que-for que vende agora na Radiotelevisão Portuguesa brasileira. E o caso põe-se justamente, apenas e só de se tratar da R.T.P brasileira.
É óbvio que o caso se põe justamente, apenas e só de se ser na R.T.P brasileira porque esta é — como aquando da transferência do engenheiro relativo para a Universidade Independente — mesmo ao lado do I.S.E.L.. Já da liberdade de todo o mercador de banha-da-cobra promover o seu trato na antena pública, é mera questão de preço; o preço da publicidade a derivados de sangue na R.T.P brasileira há-de estar mais ou menos tabelado pelo do veneno mata-ratos. — Assim esteja o tratante disposto a pagar os anúncios...
Portanto, apregoar-se que procuram coarctar a liberdade de expressão ao engenheiro relativo é apreciar mal o caso. Tratá-lo melhor era pôr realmente o melro a cantar.
Polícia Judiciária, Lisboa, 1961.
Arnaldo Madureira, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
sábado, 23 de março de 2013
Não à barbarização do idioma!
A allocução do professor José Pedro Serra da Universidade de Lisboa no forum «Onde pára e para onde vai a Língua Portuguesa» foi eloquente. Não me referi a ela aqui ha dias porque, como não tomei notas, receei não na saber transmittir como devido. A sessão foi gravada e a sua allocução, bem como as de mais, foram hoje divulgadas através da página da I.L.C.. Aqui deixo, todavia, um resumo com transcripção da maior parte de suas palavras.
Começou o prof. José Pedro Serra por congratular-se com a sala cheia e com o excellente signal que era a muita presença de estudantes a assistir. (Não é de somenos a notada presença dos estudantes porque na notícia do acontecimento no Público ha commentarios procurando negá-la. Talvez procurem com elle justificar o chavão dos velhos do Restello...) Referiu o professor então, á laia de introducção, o modo ignobil como foi o accôrdo orthographico lançado e approvado, a falta de reconhecimento democratico ás críticas feitas e aos motivos scientificos da sua recusa. Mencionou a dimensão da resistencia -- aqui estamos resistindo, de pé, de pé entre as ruinas se preciso fôr -- que é um signal muito positivo. Frisou que a discordancia e a acção de resistencia não são effeito de capricho mas antes se fundam em razões de ordem formal e razões de ordem material e scientifica. E disse:
[...] Ao longo não apenas da minha formação academica, mas tambem ao longo da minha profissão como professor, fui apprendendo a escutar a palavra. Fui apprendendo a ouvir o pensamento que ella em mim faz. Quere dizer que se estabelece entre aquelle que escuta a palavra e que a pretende, não dominar, mas deixar que ella se abra e se faça pensamento, uma relação amorosa.
Justamente, aquillo que a mim mais me choca é que -- de accôrdo com esta proposta de mau accôrdo --, aquillo em que a linguagem se transforma é alguma coisa que, embora já [desde 1911] longe seu fulgor etymologico, passa a ser uma coisa completamente vellada e escondida. Quere dizer que difficilmente podêmos encontrar os echos não apenas de uma história semantica, mas mais do que isso até, podêmo-nos encontrar cegos perante signaes que suppostamente são arbitrarios quando na verdade, ao tomá-los como arbitrarios, não estamos a ser mais do que barbaros, esquecidos de seculos de cultura que pretenderam tornar mais luminosa a palavra dicta e a palavra escripta. [Applausos!]
[...] Este accôrdo, do meu poncto de vista, não deve ser desligado d'aquillo que occorre com a lingua portuguesa e com o ensigno da litteratura portuguesa. O que acontece é que, por uma especie de cegueira ou de modernidade miope, escrava de um sentido de efficacia tolo e parvo, de accôrdo com a qual aquillo que nos interessa é sermos efficazes a fallar, mesmo que grunhamos em vez de fallar. Com base nessa idéa tôla e cega da efficacia pensamos que o melhor é ensignar a fazer requerimentos, o melhor é ensignar a fazer regulamentos, porque isso é a vida quotidiana, quando estupidamente, como é obvio, se alguem dominar a lyrica de Camões, ou a epopeia de Camões, não terá nenhuma difficuldade em fazer um requerimento. [Mais applausos!]
[...] Eu não gosto que me mexam nas contas do banco, mas ainda menos gosto me mexam n'aquillo que me tece a alma e que ahi reside como um patrimonio que não é de um govêrno mas é de uma Historia que nos ultrapassa a todos. E por isso eu estou aqui tambem comvosco a dizer NÃO!
(Imagem adaptada da Europa Viva.)
Texto revisto em 25/III/013 segundo gentil suggestão do Sr. Pedro da Silva Coelho.
sexta-feira, 22 de março de 2013
Da oratória nacional
Esta manhã matraqueava na antiga Emissora Nacional, a modos de Ana Gomes, uma Marisa não sei das quantas. Uma Marisa qualquer coisa, portuguesinha do bloco esquerdóide alcatruzada a deputada da Europa. Deve ser disso ter concluído a sua ladainha sobre a crise da Europa, do Euro, dos depósitos em Chipre e essas coisas candentes, com «esta política não interessa à Europa». Não interessa à Europa, notai.
Acto contínuo apanho no ar o (ex-?)menino de oiro Paulo Rangel sobre que a moção do Seguro é «egoísta» e «pouco preocupada com a dimensão europeia» (sublinhado meu).
Eis a oratória nacional. Eis o púlpito das mercês...
Púlpito da Igreja de N. Sr.ª das Mercês, Lisboa, 1962-64.
Robert Chester Smith (1912-1975), in Bibliotheca de Arte da F.C.G.
quarta-feira, 20 de março de 2013
Fora com caco gráfico!

Anda mal parado o português.
Terminou há pedaço o forum Onde pára e para onde vai a Língua Portuguesa. Oradores de nomeada, sala à cunha com velhos do Restelo de todas as idades.
Quem pôde ir aprendeu coisas muito interessantes dos meandros da cacografia oficial. Tinha lido ou ouvido algures que logo que se soube do Acordo Ortográfico caco gráfico em 90, os directores da Grande Reportagem, do Público e d' O Independente, respectivamente Miguel Sousa Tavares, Vicente Jorge Silva, e Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas (os dois últimos emparelhavam na direcção d' O Independente) fizeram trato de nunca seguirem a cacografia do Malaca. A Grande Reportagem e O Independente, como sabeis, acabaram, mas Miguel Sousa Tavares nunca admitiu o caco gráfico nos livros que publicou no Brasil nem no aceita nos seus textos publicados no saco de plástico, e Miguel Esteves Cardoso bem sabeis que permanece contra, e como talcontinua a publicar no Público; neste jornal, também, a palavra de Vicente Jorge Silva é mantida por quem no hoje dirige -- aliás o seu vice-director [director adjunto, digo] Nuno Pacheco foi um dos oradores no forum desta tarde. -- Só o alcatruzado a ministro, Paulo Portas, é que se faz desentendido do que seja sequer o Acordo Ortográfico, segundo disse Sousa Tavares, sempre que lhe este fala nele.
Do saco de plástico disse o orador José Luís Porfírio uma coisa sintomática acerca do modo de os acorditas levarem por diante o atropelo: quando pediu excepção à mutilação dos seus textos pelo saco de plástico, à semelhança de Sousa Tavares, recusaram-lho; parece que no Expesso há quotas para cronistas que recusem o caco gráfico e, quando José Luís Porfírio o requereu para si, já se deviam ter esgotado. Vale-nos a sua (de José Luís Porfírio) mestria com as palavras para contornar o uso da aberrante grafia que os acorditas, municiados pelos seus correctorezinhos, lhe procuraram impor. O registo de quero, posso e mando desta tropa acordita é inegável. Ainda há instantes emendei a entrada da enclopédia livre sobre José Luís Porfírio porque estava em «acordês». -- Pois se o próprio biografado é peremptoriamente contra tal forma de escrever!... -- Que julgais? Já foi o verbete revertido com fundamento nenhum além do de que corrigir-se o português do Brasil é proibido. Quisesse eu verter os textos daquela miserável enciclopédia em «acordês» -- outra espécie de português do Brasil, afinal -- já os guardiães do templo rejubilariam. Parece, por conseguinte, que tem José Luís Porfírio à viva força de se sujeitar ao caco gráfico, até no resumozinho biográfico que lhe dedicaram na enciclopédia... «livre».
Importante, muito importante, foi ouvir da prof.ª Alzira Seixo que com esta espiral de demência acabámos reféns da corporação das editoras. Veja o benévolo leitor (esta não me tinha ocorrido): as editoras foram contra a mudança da ortografia -- e até deram parecer desse sentido à Assembleia -- num dado momento em que estavam bem sentadas nos manuais, gramáticas, dicionários &c. que tinham na manga; mudá-los dava trabalho escusado que mais soava a desperdício, logo, prejuízo. Pois parece que o governo, o Ministério da Educação, ou um galo no poleiro, lhes deu garantia de que a mudança do português era para vingar e que, em caso de retrocesso, haviam as editoras de ser regiamente indemnizadas. Dá quase impressão de que obraram aí uns agentes nacionais de import/export em vender cá a grafia brasileira aos editores de manuais escolares, dando-lhe de caminho garantia das condições de mercado no médio prazo (a moratória de seis anos, estais a ver!) e com cláusulas de salvaguarda sobre lucros cessantes caso o Acordo borregasse. Uma espécie de contrato blindado como os das P.P.P., bem vedes.
Me espanto às vezes, outras me avergonho dizia o impoluto Sá de Miranda. Com estes tratantes hoje, nem uma nem outra. Há muito que os restos de Portugal definham na inversa do vigor dos vigaristas que os pilham. Frustra-os com certeza (aos vigaristas) terem torpedeado os negócios de Angola e Moçambique com a voraz pilhagem nacional (empreendedores incompetentes, afinal...). Não é isto bom augúrio. Hão-de procurar por tudo reduzir aquelas perdas e o modo será espremerem o negócio onde ele ainda pode pingar; em Portugal, claro -- esse único rincão do mundo que serve de pasto a acorditas e seus «acordos». Cuido que assim se percebem melhor as explicações vagas e chochas deste governo às perguntas dos deputados açorianos acerca da lama cacográfica em que nos afundou a ganância e a vigarice governante. Assim também parecem fazer mais sentido a errância, e sobretudo os silêncios, dos Viegas, Cratos, Portas e quejandos aos apelos sensatos de eminentes cidadãos ou de ponderados pais e encarregados de educação. Das duas uma: ou lhes falece a coragem de denunciar a mescambilha com as editoras ou estão metidos nela. Tertium non datur. Na inércia prossegue o crime de lesa-pátria.
Com este inescrupuloso negócio não admira o caos exposto pela prof.ª de Português Ana Silva, da Escola da Amadora: os alunos perdem-se entre o português e o acordês, numa espécie de misto dos dois em simultâneo; a autoridade científica dos professores é arruinada pelas incogruências do acordês imposto, que caucionam aberrações de egípcios num Egipto sem pê; o reflexo da nova escrita absurda sobre a oralidade dos alunos nota-se em enunciações como espectral por espectral ou têtos por tectos; a confusão campeia na escrita com relacção por relação, captivo por cativo (são exemplos colhidos dos alunos pela sua professora de português) e, imaginai, com exception e reception por exception e reception ou outras tais na escrita do inglês. Pois que importa?...
Enquanto o desastre alastra, quem rapidamente podia ter mão nele faz de autista. Sobra toda a gente que não pediu, não precisava, e não queria nenhum acordo ortográfico, que são (somos) quase todos em Portugal.
Ora quase todos, juntos, em Portugal podem neste particular talvez mais do que manifestarem-se. Se cada um preencher o impresso a assinar a Iniciativa Legislativa de Cidadãos (uma proposta de lei de revogação do nefando Acordo Ortográfico) e ajudar a submetê-la ao plenário da Assembleia quem no governo o poderá ignorar? O impresso, depois de preenchido e assinado, pode ser digitalizado e remetido por correio electrónico para ilcao_assinaturas@cedilha.net. Também pode ser remetido pelo correio postal.
Exorto o benévolo leitor a que o faça, caso ainda não haja assinado. Se põe reservas acerca dos seus dados pessoais, n.º de B.I., n.º de eleitor, &c., eles são exigidos por lei em inciativas legislativas de cidadãos, e necessários para as assinaturas serem válidas e aceitas na Assembleia. O responsável pela guarda das assinaturas até se chegar às 35 000 comprometeu-se perante a Comissão Nacional de Protecção de Dados a não divulgar e não tratar informaticamente ou de algum outro modo e para qualquer outro fim os dados pessoais dos subscritores. Só são divulgados os perfis dos subscritores que o autorizam.
Não sou dado a militâncias mas, com o português tão mal parado (literalmente, pois se já para é pára e pára é para), não há nada mais legal do que uma lei para extirpar uma ortografia em todos os sentidos fora-da-lei.
(Revisto em 21/3 às 11h da manhã.)
Naviarra dos tolos (*)
Há aquela história dum sujeito aos pulos sem parar tentando agarrar a atmosfera com as mãos e que dizia andar a apanhar nhanhas... A somar-lhe há a do outro que deambulava às dentadas ao vento que lhe passava diante do nariz dizendo com isso estar a morder o ambiente. -- Pois devem ser estes dois que o I.N.E. tem para lá à cata de fabricar a régua de medir a felicidade. Enquanto isto a O.N.U. decretou o dia da felicidade internacional, ou internacional da felicidade, ou lá como queiram...
Felizes os pobres de espírito, não é mais ou menos o que dizem os Textos?...
(*) Das falas de Joane na Barca do Inferno.
terça-feira, 19 de março de 2013
A matraca infernal
A desmiolada Ana Gomes atropelava hoje de manhã na rádio as próprias palavras. O costume. Mas no desnorte torrencial que lhe saía da matraca ouvi um ténue ameaço de acerto: devíamos começar a dar crédito ao economista Ferreira do Amaral e preparar a saída do Euro.
Muito bem!
Claro que logo a seguir misturou tudo outra vez e apregoou que era a Alemanha mai-los seus satélites que deviam ser expulsos do Euro. E que as nações da borda do Mediterrâneo, deviam elas fazer um Euro só seu.
Deixar um Euro por outro Euro, portanto. Brilhante!
Foi curioso, porém -- sobre a rapina aos depósitos bancários em Chipre --, ouvi-la denunciar, além de máfias rússias (sic), uns chicos espertos de cá do burgo também. Referia-se ela particularmente a algum parente desprezado, a algum vizinho odiado, ou era em geral à malta com quem habitualmente se dá?
Fotografia © Artur Machado / Global Imagens.
sexta-feira, 15 de março de 2013
A nova Servauto de noite
A nova Servauto de noite, Areeiro, Lisboa, 1967
(In Gazeta Mobil, n. de Natal de 1967.)
Novidade antiga: a nova Servauto
QUEM, de Julho para cá, passou pela Av. Gago Coutinho, em Lisboa, não pôde deixar de ter visto, qual imagem do futuro, a novíssima estação de serviço Mobil da Servauto que, como por encanto, ali surgiu no mesmo local da antiga.
Duas airosas estruturas circulares, harmoniosamente plantadas, cobrem outras tantas ilhas de bombas, criando acolhedoras, amplas e desafogadas zonas de abastecimento.
Em cada uma das ilhas, quatro bombas duplas, cilíndricas, revestidas de um belo aço inoxidável, e um armário-expositor de óleos, também cilíndrico constituem o moderníssimo equipamento desta posição de abastecimento de combustíveis e completa, de forma ideal, o estilo circular em que foi concebida.
(Gazeta Mobil, n.º de Natal de 1967.)
quinta-feira, 14 de março de 2013
As Rodas de Lisboa
Um filme comemorativo do cinquentenário da electrificação dos transportes urbanos.
Ant.º Lopes Ribeiro e Francisco Ribeiro (dir. e mont.), As Rodas de Lisboa, S.P.A.C., 1951.
Da mesma trampa
« “De” e “da” são exactamente a mesma coisa, tal como, desagradado e irónico, escrevia um Coronel nas redes sociais: “presidente de merda é a mesma coisa que presidente da merda”. É.
[...] E isso demonstra que ante tantas dúvidas colectivas que se não tenha, em devido tempo, corrigido a Lei com apenas um artiguinho a dizer:
Artigo único: quem exerceu funções de presidente de órgãos executivos de autarquias, em quatro mandatos consecutivos, fica impedido de se candidatar às eleições seguintes.»
Alberto Nogueira, «Como eles fazem as leis», in Público, 13/III/13.
(Via Fernando dos Santos.)
Da sarna de Estado
Acrescem a esta sensação de abjecta náusea três condimentos que não posso deixar de partilhar com V. Exª, a saber:
- eu não sei o que são "faturas", termo que parece aludir à grafia do termo "factura" adoptada unilateralmente por Portugal num pseudo-acordo bacoco e provinciano que os demais mutuários foram rejeitando paulatinamente.
- por quem me toma o senhor ao sugerir a minha licantropização em chibo do Estado, quando bem sabemos que nada, repito NADA da colecta fiscal vai parar onde deve, sendo perdida nos incontáveis orifícios que os canais de distribuição estatais tão astuta, sagaz, copiosa e consanguineamente criaram para si mesmos?
- a legislação em vigor, como muito bem escreveu ontem o digníssimo procurador-adjunto Pinto Nogueira, é feita com o fito sistemático de onerar quem produz com o sustento cíclico e voraz de quem se acoita no Estado; para isto não dou um segundo do meu tempo.
Fernando dos Santos, «Carta Aberta ao Director-Geral da Autoridade Tributária», in Estado Sentido, 14/III/13.
terça-feira, 12 de março de 2013
domingo, 10 de março de 2013
...
A página da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o chamado «Acordo Ortográfico» tem sido censurada nas escolas nacionais.
« Já tínhamos ficado a “saber” que para a governamental Wikipédia 'lusófona” esta I.L.C. é "proselitismo" e "spam", logo, apagável, agora ficamos também a "saber" que para o Governo de Portugal por junto esta mesma I.L.C. é… “pornografia”, logo, censurável.»
J.P.G., «Para o governo português a I.L.C. tem "conteúdos impróprios"?», in I.L.C. contra o Acordo Ortográfico. Ler, assinar, divulgar, 7/III/2013.
É sintomático que os zelotes do analfabetismo façam esta censura, e que se valham da chancela do governo pola cobrirem de oficialidade, porque na página da iniciativa de cidadãos encontram-se numerosos argumentos denunciando o engano e a má fé com que o governo prossegue neste capricho (maçónico?) contra a vontade geral da nação (e contra terceiros, pelo seu reflexo nas nações de língua portuguesa que não o Brasil). -- Aliás, este gosto dos acorditas pelo papel oficial já o notámos há dias nos regentes escolares de Loulé. Entretanto tornou a ver-se; agora o timbre foi o da Universidade de Coimbra, a debruar o jorro da pena acordita daquele Carlos Reis, «magnífico» reitor da Universidade Aberta. Este emproado parece ele que se arvora emitir oficialmente parecer em nome da Universidade de Coimbra em vez da que é reitor.
As inúmeras mentiras propaladas por (e com) esta reforma de abrasileiramento do português pelos seus sequazes é um marco da propaganda. Da pior propaganda, que é aquela que nos tolhe a inteligência nos escaparates de publicidade, nas parangonas dos jornais, que nos invade o lar pelas televisões de serviço à ideologia dominante, que nos aparvalha a linhagem no ensino oficial.
Abafar (ir abafando, pela calada) o desagrado geral é a praxis do poder que nos rege. Em tudo. Chegados a certo ponto vai de dar um arzinho de democracia ao caso e lá condescendem os mandaretes de turno numa comissão parlamentar para mostrar às gentes que não senhor!, temos aqui democratas de alto coturno que ouvem os cidadãos. -- Pois ouvem como?! Se antes os abafam, se entretanto os ignoram... -- O fim desta praxis (posso estar enganado, mas não mo tiram da ideia) traz a sentença lida; há-de ela ser o facto consumado. -- Pois, se o caso já vai na imprensa, nas televisões... na escola...
Não obstante assim, desde Janeiro que temos uma comissão de deputados da Assembleia ouvindo as gentes (os cidadãos mais ou menos comuns que lhes condimentam o garrular democrático) sobre o caco gráfico. Procuram -- como se não estivesse bem à vista -- avaliar o pontapé que deram na Gramática por haverem ratificado, sem no ler sequer, um tratado ortográfico tecnicamente grosseiro, politicamente ultrajante para os portugueses e culturalmente desastroso. -- Arrependidos?... -- Não sei se com isto agora não andam só à procura da rolha (a deputada Canavilhas, que por lá vegeta, bem me parece eu que sim). Seja como for propuseram-se os digníssimos representantes do povo ouvir uns e outros e receber por escrito (o prazo era até 28 de Fevereiro) as suas (nossas) razões sobre (contra) o caco gráfico. Oxalá que as leiam, as entendam com senso e, sobretudo as não metam na gaveta como já sucedeu (quando aprovaram às cegas o caco gráfico assimilaram a arenga do Malaca e desprezaram as razões dos restantes).
Ao benévolo leitor a quem interesse o caso e tenha tempo aconselho abrir uns quantos depoimentos no espaço de discussão interactiva no Foro da Assembleia e ver por si. Do pouco que pude ler recomendo vivamente o texto do escritor galego João Guisan de Seixas, sem desprimor de outros. É completo q.b. sem ser demasiado extenso para o esquema que os deputados propuseram para sistematizar os textos. Tem uma inteligência de argumentação notável e prova o superior valor do Acordo Ortográfico de 1945, que é o que está legalmente em vigor. (Não haja dúvida de que os malacas e os bicharas, incluindo o saneador Lindley Cintra, são nanicos a quererem encarrapitar-se no vulto de Rebelo Gonçalves.) Quem leia, pois, a exposição de Guisan de Seixas e lhe não consiga perceber o óbvio senso bem pode ser ferrado como pedaço de asno que é.
E por falar em pedaços de asno, sugiro, por mero desfastio, que se não deixem de ler também umas poucas exalações do intelecto acordita por ali derramadas. O benévolo leitor, se o fizer, diga-me ao depois cá da bondade do que lá achar que enobreça a inteligência. Pode dar-se o caso de me haver escapado algo de jeito que prestasse nos vulcões da lama acordita.
(Gralhas revistas às 11 da manhã de 11.)
sexta-feira, 8 de março de 2013
Nas Caldas da Rainha
« Na quarta feira de manhã, o comboio em que eu vim para as Caldas da Rainha regorgitava de viajantes.
E desde quarta feira não tenho visto senão chegar ás Caldas gente, gente, gente!
Os hespanhoes vão mandando os seus primeiros contingentes, e d'aqui a poucos dias chegará o grosso do exercito.
Principia a ouvir-se já esse infatigavel chalrar das hespanholas, que ao longo da alameda vão agitando a ventarola e... os quadris, passando como um bando de cigarras palreiras, seguidas de grande numero de cigarrinhas não menos garrulas do que as suas mamãs de olhos pretos e os seus papás de patillas.
Muitas caras de Lisboa: pessoas da alta finança... com dyspepsia; e da grande roda... com rheumatismo.
Algumas pessoas da provincia, com ar de principes que viajam sob incognito. Toda esta humanidade, mais ou menos espectaculosa, que passeia no Olympo da alameda, de tridente na mão, desce do alto da sua importancia ao razo da fragilidade do barro commum, logo que entra as portas da Copa.
Ahi, perante as aguas, são todos eguaes.»Alberto Pimentel, Chronicas de Viagem, Porto, Eduardo Motta Ribeiro, 1888, pp 7, 8.
N.º 1268 – PORTUGAL – Caldas da Rainha – Rua Central do parque.
Bilhete postal circulado das Caldas da Rainha para Minde, em Setembro de 1911.
Edição de Alberto Malva, Rua da Madalena, 23, Lisboa.
(Postal e legenda, in Blogo da Rua Onze.)
A loiça das Caldas e o caco gráfico
Câmara das Caldas abandona novo acordo ortográfico a partir da próxima semana.
O executivo da Câmara de Caldas da Rainha, aprovou, por unanimidade, na reunião de segunda-feira passada, a adopção do antigo acordo ortográfico, justificando a decisão com o facto de a maioria dos Países de Língua Oficial Portuguesa (P.A.L.O.P.) não terem ainda optado pelo novo acordo. Tinta Ferreira, vice-presidente da autarquia caldense, explica que a decisão de retomar o antigo acordo ortográfico estava a ser estudada há [i.e. havia] algum tempo e foi concretizada na última reunião.
«Não faz sentido estarmos a escrever com o novo acordo, quando há países de língua oficial portuguesa que ainda não o adoptaram. Na autarquia só usaremos o novo acordo quando formos obrigados por algumas instituições ou para publicações em Diário da República», refere o vice-presidente da autarquia e cabeça de lista do P.S.D. à presidência da Câmara de Caldas da Rainha nas eleições autárquicas deste ano.Mário Pinto / Lusa, in Jornal de Leiria, 6/III/2013.
(O respeito pelos leitores impede-me de apresentar a peça das Caldas mais adequada ao caco gráfico.)
Calendário comum
Dizem as modas que hoje é o dia internacional da mulher. As tolinhas lá se empolgam com o diazinho que lhes concedem, mas dá pena vê-las muito afanosas a lembrar a todos a piedosa esmola de um dia no calendário. Digno de maior dó, ainda, é a mentalidade da nova ordem mundial que lhe subjaz: uns são tão broncos a segui-la que mal distinguem o objecto da misericordiosa glorificação, do dia do calendário comum escolhido para o efeito; outros, ainda mais empenhados do que o estúpidos que dão em ser, propõem-se emendar o mundo pelo léxico «optimizando» os direitos do Homem em direitos humanos (cfr. o título do diploma na transcrição electrónica com o do Diário original impresso). Estas inteligências dominantes, em progredindo um tanto, não tardarão em abolir os géneros masculino e feminino da Gramática encastoando-lhe à bruta o monolítico género único. Por agora ainda se vêem à nora para perceber nomes comuns de dois. Hão-de (a)fundar uma civilização.
Placa toponímica nas Ruas com Dias, in H Gasolim Ultramarino.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Palacete a vagar
Moradia de José Maria Marques (Arq.: Norte Júnior; prémio Valmor em 1914), Av. Fontes Pereira de Mello, 28, post 1911.
Paulo Guedes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
O palacete da sede do Metro na esquina da Fontes com a Andrade Corvo está para vagar. A administração do Metropolitano de Lisboa, de perdulária em faustos de arte duvidosa nas catacumbas das estações, deu em remediada por desmame forçado. Lá anda de armas e bagagens aprestadas a ter de dividir renda nalguma assoalhada que a administração da Carris lhe ceda. Isto, de ver eu dias a fio um camião que a Carris ali manda, acostado ao quintal do palacete a carregar tarecos.
Mais um palacete da Belle Époque caminho da ruína, como aqueles dois que restam no Saldanha... Deus queira que me engane!
Escadaria monumental, in R.F., «Lisboa: do Passeio Público às Avenidas Novas, 3», Do Porto e Não Só, 7/IX/2011, que recomendo ao leitor interessado.
quarta-feira, 6 de março de 2013
«Ai Mouraria» em 78 r.p.m.
O fado Mouraria cantado por Amália é qualquer coisa! Como pràticamente todos os seus fados. Não tanto pelas letras/poemas, embora também, mas muito principalmente por aquela voz extraordinária e inimitável, carregada de sentimento e nas mais das vezes de profunda dor. Uma vez ouvida é impossível ser esquecida.
Maria
É agradável receber um comentário assim a propósito dum verbete que já tem uns anitos. O mérito é de Amália, porém. E dos compositores, é justo que diga.
Não sou nada entendido em fado, em Amália, ou algo que se pareça. Mas talvez não erre em que o fado lá naquele verbete quase esquecido é a versão mais badalada de Ai Mouraria. Salvo erro, uma gravação num L.P. de 1965 (Fado Português). Nota-se-lhe ali, a Amália, a voz com aquele timbre seguro e maduro com que a reconheço de sempre. Quando crescemos e tomamos um contacto mais ou menos alheado com o que nos há-de moldar no que somos é como se o que apreendemos tivesse sido sempre assim, e assim houvesse de continuar a ser. Com a voz de Amália dá-se isso. Aquela voz, naquele timbre firme e maduro daquela gravação de Ai Mouraria é a voz de sempre.
Sucede que nada é para sempre e que há sempre um antes e um depois. Do depois não quero falar. O tempo, que tudo corrói, desencantou a voz a Amália. Compensou-a como faz aos heróis, fez de si um mito. Mas é o antes que me traz o encanto do mito. Foi Deus, numa gravação lá do tempo das 78 r.p.m. (cá está: o tempo dos heróis; a idade de oiro), que eu ouvi nos anos 90 numa colectânea dos anos 80, que me fez perceber o encanto e a razão do mito: a voz brilhante de Amália em nova.
Há meses resgatei do iTunes (prodígios da técnica que ajudam hoje a estribar verdadeiros e falsos mitos), pelo equivalente a 800$00, uma colecção de mais de meia centena de cantigas de Amália. Uma boa quarentena é da idade de oiro das 78 r.p.m.. Não quero fazer publicidade, em todo o caso ponho no pick-up esta gravação de Ai Mouraria, acompanhada à guitarra e ao piano, como acontecia ao fado antigo.
(Imagem revista em 7/VIII/22; a gravação é da brasileira Continental, de 1945.)
terça-feira, 5 de março de 2013
segunda-feira, 4 de março de 2013
A praga infecta
O agrupamento vertical de escolas (agora as escolas e os liceus parece que se apinham em cachos, e com o resultado que sabemos...)
Dizia eu, o agrupamento vertical de escolas de Eng.º Duarte Pacheco, de Loulé, dá uma no cravo outra na ferradura sobre o designado Acordo Ortográfico. Eis o que este malfazejo desconchavo nos veio trazer -- um pomo de discórdia entre uns e outros: pais / filhos; professores / alunos; chefes / subordinados; portugueses / africanos, eu sei lá... -- num tema pacífico e não contestado havia mais de sessenta anos. Um rico trabalho que espelha bem as carolas que nos regem e o estrago que fazem no que lancem a gadanha.
Nesta cisão absurda e escusada dá graça agora ver uns regentes escolares da instrução primária do cacho de escolas da Tia Anica, oficialissimamente e em papel timbrado com o emblemazinho do governo (do governo, notai, não de Portugal), «contribuírem» para a Assembleia com a sua reflexãozeca a favor do caco gráfico. Mais graça dá ver a sua razão: é porque já está; e como o andaram a aprender para o obedientemente ensinarem, não faz agora sentido abandonar o disparate (v. supra).
Percebo: seria desperdiçar-lhes o empenho extenuante do coiro em tão árduo aprendizado...
Em contraponto, o departamento de ciências lá das escolas de Loulé, sem cabeçalhos de timbre oficial nem papel selado, alinhou com facilidade um módico de razões óbvias a qualquer um que pense e saiba entender a realidade das coisas. E, em quanto a mim, o seu melhor argumento contra o lodo malaquenho espirrado no idioma é até um que o acaso lhes fez escapar, a provar que o caco gráfico é uma praga infecta.
domingo, 3 de março de 2013
Rua da Palma (origem do nome)
Os cavaleiros cruzados que deram a vida na reconquista de Lisboa em 1147, venerados como mártires, foram sepultos em cemitérios improvisados durante o cerco. Um deles, Henrique de Bona, fidalgo alemão, tido como homem excelente...
« Queriam-lhe todos em vida; depois de morto veneravam-no; e a sepultura de Henrique ficou prazo-dado a tristes, e romaria de saüdades. Ora andavam no arraial dois patrícios do defunto, dois mancebos surdos-mudos, vindos na armada [dos cruzados que ajudaram a conquistar Lisboa], e que, pela firme crença de que já o cavaleiro Henrique estivesse na presença de Deus, foram fazer oração fervorosa junto ao moimento, pedindo-lhe intercessão a-fim-de obterem cura da enfermidade da mudez. Estando a orar adormeceram.
Apareceu-lhes então por sonhos o cavaleiro Henrique, pálido, sereno, mas não já vestido em suas armas, senão em trajo de romeiro, com uma palma na mão. E disse para eles:
— Erguei-vos, e falai.
E desapareceu.
E eles acordaram, ouvindo e falando.
Correu de bôca em bôca a notícia por tôdas as falanges, com pasmo de el-Rei, dos bispos e da soldadesca.»
Este o primeiro prodígio. Mas há mais:
« Tinha o cavaleiro tido um escudeiro muito amigo, que o acompanhava sempre, e que, já depois de ganha a cidade, falecera das feridas.
Foi sepultado logo, mas deu o acaso que o puzessem longe do seu senhor.
De noite, viu o guarda e servidor do templo em sonhos o cavaleiro a dizer-lhe, muito triste:
— ¡Ai! que enterraram tão longe de mim o meu escudeiro! ergue-te, e muda-o para perto da minha campa; faze-me isto para descanço do meu sono!
Não deu grande conta da visão o sonhador, e não obedeceu.
Tornou a aparecer-lhe a fantasma tristíssima à outra noite:
— Assombrou-se o guarda; ainda assim refugiu a obedecer.
À terceira noite veiu outra vez; era o mesmo cavaleiro, mas sanhudo e iroso, cheio de espanto e severo; desgrenhado e sangrento, aproximou-se do servidor, e sacudiu-o.
Ergueu-se êste arripiado, e sem mais demora lá se foi a deshoras, com uma lanterna e uma enxada, à cova do escudeiro; desenterrou-o e foi aninhá-lo, às escuras, como poude, cerca de seu senhor, que tanto bem lhe quizera em vida, e continuava a querer-lho depois de morto.
Com tais prodígios crescia a fama do milagroso defunto; e muito mais se aumentou, quando da cabeceira da sua loisa entrou a sair, muito viçosa e verde, a sair [sic], uma palmeira, e a bracejar, e a crescer, e a encorpar. ¡Palmeira estupenda aquela! arvore de benção, que sarava moléstias, pela muita virtude que lhe atribuiam todos, e pela muita fé em que tinham já o mártir que ali dormia.
E cantava Camões:Olha Henrique famoso cavaleiro!
a palma que lhe nasce junta á cova!
Por elle mostra Deus milagre visto;
germanos são os martyres de Christo.
[Lusíadas, VIII, 18]
[...] Da célebre palmeira, ou palma, como se dizia, nascida na sepultura do cavaleiro santo, conservava-se ainda no tempo de D. Nicolau de Santa Maria, isto é, pelo meio do séc. XVII, no sacrário das relíquias do mosteiro de S. Vicente, num relicário de prata, parte de um ramo e cacho, que a tradição dizia arrancados pelas mãos do próprio rei, e doados ao mosteiro.
Narra mais o cronista dos cónegos regrantes, que em terrenos do mosteiro se abriu (não diz em que tempo) uma rua, tôda foreira a êle; que nessa rua se domiciliavam de preferência os alemães estabelecidos em Lisboa, todos muito devotos do seu glorioso patrício Henrique, e romeiros habituais da sua palma; e que por devoção veiu a chamar-se-lhe rua da Palma (Chron. dos con. regr., liv. VII, cap. IV, n.º 7).»
Mestre Júlio de Castilho não desvendou em que tempo se rasgou a Rua da Palma, mas isso já no-lo descobriu o eng.º Augusto Vieira da Silva no seu desbravar da cerca fernandina de Lisboa. Foi em 1554 que o mosteiro de S. Vicente propôs aos foreiros da sua horta de a par da rua dos Canos abrirem uma rua pelo meio da horta com 15p. (3m,3) de largura, desde [as traseiras do] Mosteiro de S. Domingos até à rua que passava entre o muro da cidade e as casas que eles aí tinham (A. Vieira da Silva, A Cerca Fernandina de Lisboa, v. I, 2.ª ed., C.M.L., 1987). Sabemos os nomes dos foreiros que o fizeram: foi uma certa Francisca Coelha, casada com um cavaleiro da casa de el-rei chamado João de... Palma. Como veio o apelido deste a coincidir com a rua que ele abriu é que ninguém me explica.
Chão da antiga horta do mosteiro de S. Vicente entre a Rua dos Canos (dir.) e a Rua da Palma (esq.), Mouraria, c. 1952.
Firmino da Costa Marques, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Excertos: Júlio de Castilho, Lisboa Antiga; Bairros Orientais, 2.ª ed., vol. VII, C.M.L., 1936, p. 14-17.
sábado, 2 de março de 2013
Rua da Palma
Ai Mouraria, da velha Rua da Palma... cantava Amália no velho fado.
Não era via desafogada. Gomes de Brito recorda o nome primevo: Palma, Rua Nova da (Ruas de Lisboa, vol. II); por decreto de 9 de Maio de 1776 mandava-se comprar umas terras com vista a alargá-la no lado ocidental. Pelo Itinerário lisbonense, de 1818 -- continuo com Gomes de Brito --, era a primeira à esquerda na Travessa de S. Domingos (hoje Rua de Barros Queiroz) vindo do Rocio e termina na Rua de S. Vicente à Mouraria. Rua de S. Vicente à Mouraria, também dita de S. Vicente à Guia e, mais tarde crismada Rua de Martim Moniz. Foi este topónimo que vingou e alastrou ao enorme oco (em mais do que um sentido) que lá temos agora quando o camartelo entrou a escavacar a Mouraria, há 70-75 anos. Da razão do nome de S. Vicente, tomado dumas hortas do dito mosteiro, dei em tempo notícia cá pelas palavras do eng.º Vieira da Silva.
O nome da rua vem da lenda duma palma que cresceu milagrosamente no lugar da sepultura do cavaleiro Henrique, de Bona, aquando da conquista de Lisboa aos mouros. A Rua Nova da Palma esteve contida aos limites da cerca fernandina até umas expropriações levadas a cabo em 1859 permitirem trazê-la até ao Largo do Intendente. É esse o troço aqui à vista (a primitiva rua), apinhado de táxis e com uma nesga de horizonte para o monte de S. Gens.
Rua da Palma, Lisboa, 1950.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
(Revisto em 3 de Março ao meio-dia e meia hora.)