Os cavaleiros cruzados que deram a vida na reconquista de Lisboa em 1147, venerados como mártires, foram sepultos em cemitérios improvisados durante o cerco. Um deles, Henrique de Bona, fidalgo alemão, tido como homem excelente...
« Queriam-lhe todos em vida; depois de morto veneravam-no; e a sepultura de Henrique ficou prazo-dado a tristes, e romaria de saüdades. Ora andavam no arraial dois patrícios do defunto, dois mancebos surdos-mudos, vindos na armada [dos cruzados que ajudaram a conquistar Lisboa], e que, pela firme crença de que já o cavaleiro Henrique estivesse na presença de Deus, foram fazer oração fervorosa junto ao moimento, pedindo-lhe intercessão a-fim-de obterem cura da enfermidade da mudez. Estando a orar adormeceram.
Apareceu-lhes então por sonhos o cavaleiro Henrique, pálido, sereno, mas não já vestido em suas armas, senão em trajo de romeiro, com uma palma na mão. E disse para eles:
— Erguei-vos, e falai.
E desapareceu.
E eles acordaram, ouvindo e falando.
Correu de bôca em bôca a notícia por tôdas as falanges, com pasmo de el-Rei, dos bispos e da soldadesca.»
Este o primeiro prodígio. Mas há mais:
« Tinha o cavaleiro tido um escudeiro muito amigo, que o acompanhava sempre, e que, já depois de ganha a cidade, falecera das feridas.
Foi sepultado logo, mas deu o acaso que o puzessem longe do seu senhor.
De noite, viu o guarda e servidor do templo em sonhos o cavaleiro a dizer-lhe, muito triste:
— ¡Ai! que enterraram tão longe de mim o meu escudeiro! ergue-te, e muda-o para perto da minha campa; faze-me isto para descanço do meu sono!
Não deu grande conta da visão o sonhador, e não obedeceu.
Tornou a aparecer-lhe a fantasma tristíssima à outra noite:
— Assombrou-se o guarda; ainda assim refugiu a obedecer.
À terceira noite veiu outra vez; era o mesmo cavaleiro, mas sanhudo e iroso, cheio de espanto e severo; desgrenhado e sangrento, aproximou-se do servidor, e sacudiu-o.
Ergueu-se êste arripiado, e sem mais demora lá se foi a deshoras, com uma lanterna e uma enxada, à cova do escudeiro; desenterrou-o e foi aninhá-lo, às escuras, como poude, cerca de seu senhor, que tanto bem lhe quizera em vida, e continuava a querer-lho depois de morto.
Com tais prodígios crescia a fama do milagroso defunto; e muito mais se aumentou, quando da cabeceira da sua loisa entrou a sair, muito viçosa e verde, a sair [sic], uma palmeira, e a bracejar, e a crescer, e a encorpar. ¡Palmeira estupenda aquela! arvore de benção, que sarava moléstias, pela muita virtude que lhe atribuiam todos, e pela muita fé em que tinham já o mártir que ali dormia.
E cantava Camões:Olha Henrique famoso cavaleiro!
a palma que lhe nasce junta á cova!
Por elle mostra Deus milagre visto;
germanos são os martyres de Christo.
[Lusíadas, VIII, 18]
[...] Da célebre palmeira, ou palma, como se dizia, nascida na sepultura do cavaleiro santo, conservava-se ainda no tempo de D. Nicolau de Santa Maria, isto é, pelo meio do séc. XVII, no sacrário das relíquias do mosteiro de S. Vicente, num relicário de prata, parte de um ramo e cacho, que a tradição dizia arrancados pelas mãos do próprio rei, e doados ao mosteiro.
Narra mais o cronista dos cónegos regrantes, que em terrenos do mosteiro se abriu (não diz em que tempo) uma rua, tôda foreira a êle; que nessa rua se domiciliavam de preferência os alemães estabelecidos em Lisboa, todos muito devotos do seu glorioso patrício Henrique, e romeiros habituais da sua palma; e que por devoção veiu a chamar-se-lhe rua da Palma (Chron. dos con. regr., liv. VII, cap. IV, n.º 7).»
Mestre Júlio de Castilho não desvendou em que tempo se rasgou a Rua da Palma, mas isso já no-lo descobriu o eng.º Augusto Vieira da Silva no seu desbravar da cerca fernandina de Lisboa. Foi em 1554 que o mosteiro de S. Vicente propôs aos foreiros da sua horta de a par da rua dos Canos abrirem uma rua pelo meio da horta com 15p. (3m,3) de largura, desde [as traseiras do] Mosteiro de S. Domingos até à rua que passava entre o muro da cidade e as casas que eles aí tinham (A. Vieira da Silva, A Cerca Fernandina de Lisboa, v. I, 2.ª ed., C.M.L., 1987). Sabemos os nomes dos foreiros que o fizeram: foi uma certa Francisca Coelha, casada com um cavaleiro da casa de el-rei chamado João de... Palma. Como veio o apelido deste a coincidir com a rua que ele abriu é que ninguém me explica.
Chão da antiga horta do mosteiro de S. Vicente entre a Rua dos Canos (dir.) e a Rua da Palma (esq.), Mouraria, c. 1952.
Firmino da Costa Marques, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Excertos: Júlio de Castilho, Lisboa Antiga; Bairros Orientais, 2.ª ed., vol. VII, C.M.L., 1936, p. 14-17.
Mais uma vez lhe escrevo a dizer que "Nisto é que Vexa é bom".
ResponderEliminarNão aborde a política senão quando as suas entranhas lhe disserem para o fazer.
Também bom, francamente, são as suas emendas à patetice saloia do AO.
Obrigado, do eao
"Vexa é bom"? Nem sei se lhe agradeça se o quê.
ResponderEliminarObrigado, em todo o caso.
Cumpts.
Uma pequena maravilha, toda a informação que nos dá daquela característica zona, uma das mais antigas da cidade de Lisboa. Fui percorrer todas as ligações que deixou sobre este assunto e adorei. Não me interessa nada que esta ou aquela artéria de Lisboa ou doutra cidade do país, seja de concepção antiga e porventura menos funcional para peões e automóveis. É precisamente por este facto que elas são elogiadas e visitadas por naturais e estrangeiros. Uma cidade traduz a alma do seu povo. Tudo nela representa amor, dedicação e arte daqueles que a projectaram e conceberam.
ResponderEliminarNão conhecia estas construções e menos ainda o modo como quase toda a zona do Martim Moniz foi arrazada para dar lugar a ruas e largos com planeamento e concepção de péssimo gosto, como, para dar um só exemplo, aquela bela porcaria que por lá se vê hoje. E isto já vem de longe. Um palacete de setecentos derrubado para dar lugar a arruamentos duvidosos (pelo menos alguns) e mamarrachos do pior!! Por muito que este fosse menos majestoso do que muitos outros da altura, ainda assim era uma construção sólida, bem projectada e certamente com interiores lindos. Mais um crime de lesa-património, entre os muitos milhares que década após década têm ocorrido, descaracterizando esta maravilhosa cidade.
Mas uma pergunta. Como é que diz que nesta altura por ali só havia hortas (e eu sei que sim, mas antes desta altura), abrangendo todos aqueles terrenos, desde a zona onde se situa hoje a Rua de S. José, continuando pelo Martim Moniz, Rua da Palma e prosseguindo por ali acima, mas no entanto é justamente nessa altura, primeira metade do séc. dezoito, que foram sendo construídos belíssimos palácios e palacetes no lugar dessas hortas? (como se recordará, pois já abordámos este assunto anteriormente).
Apesar de todas as alterações urbanísticas de Lisboa em séculos passados muitas delas sem razão de ser e das ultra pirosas modernices já no séc. XX, prosseguindo a um ritmo aterrador pelo XXI, continuo a achar que o derrube deste palacete - e doutros edifícios, palacetes ou não, igualmente antigos e de valor à sua volta - traduziu-se em mais uma perda de identidade atingindo em cheio o coração da milenar e linda cidade de Lisboa.
Maria
A lenda/história que deu origem ao nome Palma (rua da) é comovente e merece muito respeito.
ResponderEliminarO fado Mouraria cantado por Amália é qualquer coisa!
Como pràticamente todos os seus fados. Não tanto pelas letras/poemas, embora também, mas muito principalmente por aquela voz extraordinária e inimitável, carregada de sentimento e nas mais das vezes de profunda dor. Uma vez ouvida é impossível ser esquecida.
Maria
Não sei se percebi bem a sua pergunta.
ResponderEliminarAs hortas do mosteiro de S. Vicente duraram até ao séc. XVI. Com a abertura da Rua da Palma fizeram-se casas. A juntar a outras que já ali havia, na Rua dos Canos e sobretudo aninhadas aos muros da cerca fernandina que atravessava o vale das Escadinhas da Saúde à Calçada do Jogo da Péla (lá onde se vê o pavilhão mais distante).
O palácio do Marquês de Alegrete é do séc. XVII, salvo erro, e por ele se demoliu o muro da cidade. Ali perto, no Borratém, havia já desde o séc. XV o palácio dos senhores de Cascais (descendentes do Dr. João das Regras), mas não lá onde dizem (onde resiste ainda agora um arco gótico) mas no lado oposto da rua.
O troço da Rua da Palma acima dos pavilhões que se vêem na imagem até ao Intendente é que é novecentista. Um palácio que sobrevive nesse troço novecentisa (embora amputado) é o palácio Folgosa, de que não sei a data.
Tem razão sobre a Amália. Há qualquer coisa naquela voz que se funde com o nosso ser, não lhe parece? O fado lá na remissão é duma gravação de 1965 (Fado Português), salvo erro. Nota-se-lhe aí a voz com aquele timbre maduro com a aprendi a conhecer. Tenho porém outra gravação mais antiga, do tempo das 78 r.p.m. Acompanhada à guitarra e ao piano, é um encanto poder ouvir a voz de cristal da cantadeira Amália dos verdes anos.
ResponderEliminarA ver se o passo a verbete.
Cumpts.
magnifica foto de uma área da cidade que está um verdadeiro desastre e descobri mais um buraco do bama do intendente e também é uma árvore caída que ninguém se deu ao trabalho de recolher e tapar o respectivo buraco, agora é na Duque de Loulé
ResponderEliminarhttp://reporter007.blogs.sapo.pt/1574962.html
Completamente verdade. Fui logo ouvir o vídeo da Mouraria - creio que é dessa altura que diz - e claro, aquela voz! É de ouvir e chorar por mais.
ResponderEliminarNão tenho discos dela de 78rpm, por não estar a viver em Portugal na altura e não ter acesso a eles, de qualquer modo era muito novinha para me interessar demasiado pelo fado. O que me interessava sobremaneira nesses meus tenros anos era conhecer pessoalmente Charlton Heston e Mário Lanza, por quem tinha paixões assolapadas desde os meus 9 aninhos... e consegui! Para minha imensa alegria conheci Heston na estreia mundial do El Cid. Infelizmente Lanza, não. Este só lá chegou para dar concertos quando eu já estava a viver em Portugal.
Ainda assim consegui adquirir em Londres (a pedido, na discográfica) dois 45rpm de Amália, antes de lhe ser apresentada. Já mais crescidinha e ainda em Londres, tive o prazer de a conhecer. Muito simpática e acessível. Em suma, uma querida.
Agora e desde que há Internet, ouço-a através dos seus muitos vídeos e são todos maravilhosos, sobretudo aqueles em que o seu lindíssimo timbre de voz estava no máximo.
Maria
Não me expliquei bem. Sei que havia palacetes e casas de habitação já edificadas no século XVI, XV e até antes, mas todas próximo ou junto ao rio. O que não imaginava é que palacetes e etc., já existissem nas zonas onde hoje se situam o Martim Moniz, Rua da Palma e em redor.
ResponderEliminarLembra-se de falarmos nos palacetes construídos no séc. XVIII (que ainda lá permanecem, graças a Deus) situados na que é hoje Rua de S. José, já quase no fim desta e muito próximo do Rossio, edificados após a compra das muitas hortas que por ali havia? Segundo documentos da época, nesses terrenos e em tudo à volta só havia hortas e terrenos baldios. Pois era a isto que me referia. Não imaginar palacetes e outras construções nesses terrenos tão distanciados do rio e ainda na parte baixa da cidade (não é por acaso que se chama Baixa à Baixa:)), isto ainda no séc. XV (e parece que até antes). Porque na zona ALTA da cidade, onde hoje se situa a Rua do Alecrim, Largo do Chiado, Largo do Camões, etc. , claro que já havia palácios e casas apalaçadas no séc. XVIII (e até nos séculos anteriores), como também já falámos há tempos sobre isto.
Maria
Ó Tron, tocos miseráveis assim são por toda a municipalidade. A começar pela vereadoria. A somar aos buracos nas ruas como nas cabeças municipais.
ResponderEliminarCumpts.
Amália parece que era simples. Salazar antes de a conhecer parece que disse «vamos lá conhecer a criaturinha». Não sei se é verdade. Pior foi o joguete que quiseram fazer dela os comunistas depois do grande acidente nacional. Tinha mais razão Salazar; a «criaturinha» era simplesmente (e o advérbio aqui vai sem desprimor, antes pelo contrário) Amália. Nada tinha que ver com política, prova de inteligência que arruma com quase todos os artistas que se para aí exaltam.
ResponderEliminarCumpts.