A Alameda de Dom Afonso Henriques pelos inícios dos anos 50 com muitos pormenores interessantes.

Alameda de Dom Afonso Henriques, Lisboa, 195...
Fotografia: estúdio de Horácio de Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G..
Os relvados primitivos debruados com canteiros e polvilhados dumas poucas de árvores. Uma opção paisagista mais inspirada que o insípido relvado que se acaba nestes dias da banda do Técnico, ao fim duma data de anos ali com um estaleiro do Metro. Nos restantes relvados, do lado da fonte, há hoje estranhas grelhas, também do Metro, e muito sortido de 'mobiliário urbano', garantidamente com 'design' de autor...
No gaveto da Av. Guerra Junqueiro o prédio do café Pão de Açúcar (que chegou a ter duas frentes e hoje só tem uma). Não sei se foram as duas frentes do café que lhe mutilaram a fachada do r/c no lado da Guerra Junqueiro. Mas aprecie-o o benévolo leitor aqui como era no princípio, com uma harmoniosa fachada e cércea de seis andares, e compare com aquilo que lá temos hoje, num ocre manhoso e enxertado de mais dois pisos. Não deixe de reparar, caso lá passe, na extravagante altura das varandas do 7º andar (o 1º do enxerto). Há-de reparar se o que lá está lhe parece bem.
Na esquina em frente (Av. Almirante Reis, 188 e Alameda, 68), um edifício de quatro pisos que admito ser dos primeiros a ter sido construído na Alameda, por volta de 1939 ou 40 (ou até antes). Lembro-me bem dele, devoluto, já no fim dos anos 80. Ter só quatro andares há-de ter servido bem à desdita que nos calha hoje de vermos um grande mamarracho no seu lugar.
O que se lhe segue (Alameda, 66), em estilo Português Suave e com uma cércea da mesma altura, nem me lembro nunca de o lá ter visto. Não deve ter chegado ao meu tempo. Só conheci o que lá vejo hoje, típico dos anos 70, banalíssimo, sem encanto.
Do mesmo lado, dois quarteirões adiante, estavam por construir o prédio dos correios e o que faz esquina com a Rua Actor Isidoro. Já cá me referi a eles por causa disto mesmo: de não estarem feitos (cf. Dois prédios na Alameda)...
Continuando no mesmo lado, atente o benévolo leitor no desnível entre o prédio ao centro do quarteirão seguinte (já quase a par da fonte) e a cota superior da ladeira a par do dito prédio. Ali, onde se vêem umas terras em declive em vez de passeio calcetado, vieram a fazer-se depois umas escadinhas para vencer o desnível. Os prédios foram construídos à cota mais baixa do terreno antes da ladeira feita, donde acabaram numa cota inferior. Daí as escadinhas. Falo nisto porque ao ir por ali em criança, ora ia pelas escadinhas, ora me empoleirava no muro de protecção que fizeram do lado da rampa.
No prédio a seguir a este, já na esquina da Abade Faria, se bem me lembro houve escrita na fachada desde princípios dos anos 80 e ainda por uns bons dez anos ou mais, uma enigmática frase que só nos alvores deste século lhe percebi o amplo sentido. Dizia algo obsceno sobre um tal Bibi...
Adiante. A par da fonte monumental não havia nada construído. O casario que identifico lá no alto dá para Rua Barão de Sabrosa: a Igreja dos Santos Doze Apóstolos, cujo campanário facilmente se percebe, e a correnteza de casas à sua direita (com seis grandes janelas) que eram o asilo "A Caridade"; segue-se-lhes a casa do benemérito que fundou ambos, Raul Alves Fernandes, de quem já falei aqui. O preventório de S. José (hoje externato 'O Pelicano'), também obra sua, é de 1957. Aqui não existia ainda.
Logo diante da casa de Raul Alves Fernandes, no lado de lá da rua (Barão de Sabrosa, 206-220), estavam em fase adiantada da construção as casas do Bairro da Guarda Republicana. Percebem-se-lhes os andaimes. Não sei a data da conclusão deste bairro, mas ela dará com maior aproximação a data da fotografia. Vamos a ver se descubro.
Outros detalhes de interesse nesta imagem, ao correr da Rua Barão de Sabrosa, são: para a direita, logo a seguir às traseiras duns velhos prédios que lá vi ainda muitos anos, a chaminé da padaria que havia ao cimo da velha Calçada da Ladeira (que existiu no lugar da rampa SE da Alameda); para a esquerda, a Casa dos Plátanos, grande edifício com zimbórios construído em 1821 e que foi asilo para crianças pobres; foi reconstruído no tempo de Sidónio Pais ou pouco depois; hoje pertence à Santa Casa. - À esquerda desta casa, contra o horizonte, notai uma nesga do Tejo.
Por fim, quase na margem esquerda da imagem recortam-se também contra o horizonte umas árvores num monte: eram contíguas à quinta das Ameias, ao Areeiro; mais um pedacinho de abertura de lente e cá teríamos também o Casal Vistoso.