Em Lisboa, na Fontes Pereira de Melo, entre a Martens Ferrão e a Andrade Corvo (logo acima do palacete Sotto-
-Mayor), há um quarteirão de centenários prédios de rendimento em ruínas. Em 2005 – era o dr. Pedro Lopes o presidente da Câmara, salvo erro – puseram-lhe uma enorme tela anunciando, em todas três fachadas que de 2002 a 2005 recuperámos mais já de não sei quantas mil casas em Lisboa... – A propaganda do costume.
Relativamente a estas casas na Fontes Pereira de Melo, nos 18-26, a recuperação apregoada deu numa tela cada vez mais emporcalhada ao longo de cinco anos – cinco! – A cristalina essência desta recuperação (só na tela) passou a tresandar do nojento reclamo. Além de ofender a inteligência de quem na visse.
Em vésperas de recebermos em Lisboa o Papa, a Câmara ganhou vergonha e deu sumiço à gigante tela emporcalhada. Ficaram as fachadas arruinadas bem à vista e – notai que isto é verdade! – mesmo com janelas entaipadas a tijolo tinham muito melhor ar que a javarda recuperação (na tela; sempre e só na tela) que exibiam desde 2005.
Ora aqui chegados, como gestora de excelência que é (não duvidemos) e aproveitando inteligentemente as sinergias obtidas da visita de S.S. o Papa, a administração municipal parece-me que passou esta semana à fase 2 do projecto de 2005: a requalificação. Mas não cuide o benévolo leitor que requalificação é mero restauro; tire dai o sentido. – Requalificação, na novilíngua da gestão de projecto municipal, é pôr umas gruas e contratar uns grafiteiros (julgo que do estrangeiro) para pintarem bonecada naquelas desgraçadas casas devolutas.
É isto pura gestão mural da Câmara, que nos dará a cidade do futuro.
(Imagem: vistas de rua do Google.)
terça-feira, 25 de maio de 2010
Da gestão de projecto: recuperação e requalificação
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"Não acredito!" foram as palavras que me saíram da boca quando li o seu texto.
ResponderEliminarAtenção, eu não duvido da sua palavra, só acho inacreditável o que me conta. (Eu ando a leste, literalmente, de Portugal. Raramente vejo notícias, por opção, pois já estou farta de ver tragédias, bancarrota, futebol e mais nada... Então fiquei a saber desta modernice por si.)
Juro que não entendo... como é que as pessoas deixam que se faça isso?? Às vezes, pergunto-me se não serei uma "velha do Restelo", mas acho que pelo menos neste caso não o sou.
Se é para deixar cair, ao menos que não gastem dinheiro em tintas e "artistas de renome internacional". Não?
Fica a saber desta mas se cá passasse havia dever as modernices. Tudo duma inteligência de meter dó.
ResponderEliminarQuem se importa com isto deixa que aconteça porque não há nada, mesmo nada, que possa fazer-se. Todo o estrebuchar contra esta decadência é dum corpo moribundo: Portugal.
Cumpts.
caro amigo, já nos conhecmos destas lides dos blogs a um par de anos, talvez há mais e dos escroques que têm passado pela CML se espera tudo...de mau e trabalho que é bonito nada
ResponderEliminarInfelizmente, trata-se de um espectáculo corrente. Basta vêr o que se passa do lado contrário da mesma avenida, nos cruzamentos da 5 de Outubro e António Augusto de Aguiar. E não é só de agora. As fotos antigas testemunham o que se perdeu com a construção do Sheraton, um "caixote" na altura tão celebrado como expoente de modernidade e progresso, a cujas galerias se ia só para "armar ao pingarelho". Visitei, há muitos anos atrás, um dos prédios da foto, assim como o Palácio Sotto Mayor. Nessa altura ainda exibiam restos da antiga grandeza. E soltava-se-me a imaginação. Parecia-me que viver alí, nos tempos áureos, tería sido como viver num planeta diferente daquele que conhecí nos dos bairros populares onde nascí e crescí. Tristemente, hoje, esses planetas estão próximos um do outro, unidos pela degradação e ruína.
ResponderEliminarA.v.o.
Digam lá se isto não vale mais do que um novo aeroporto!
ResponderEliminarSábado vou pela primeira vez a uma manifestação, tou farto destes idiotas
A julgar pelo que se vê e tem visto, isso que diz é muito verdade.
ResponderEliminarCumpts.
Sim. Esses que diz aguardam a celebrada modernidade que se vê no Sheraton. Em quarenta anos a modernidade não evoluiu nada, afinal.
ResponderEliminarNo mais é uma tristeza esta completa ruína em que a cidade cai; rica ou pobre, que parece não haver diferença. Uma desgraça!
Cumpts.
Estes grafiteiros são arte à medida dos idiotas. Mas isto - cuido eu - já só a bofetada; com manifestações não vamos a aldo nenhum.
ResponderEliminarBoa sorte, em todo o caso.
Mesmo devolutos aqueles edifícios ainda conseguem ter uma certa imponência e elegância Pena que aquele tipo que se diz presidente da câmara não veja isso. Ao autorizar a brincadeira dos graffiti está mesmo a dizer "aquilo vai abaixo". Vai-se fazer o que ali?? Escritórios ou o famoso arranha céus que tentam fazer à mais de 20 anos do outro lado? Recuperem o que lá está. Mesmo abandonado não cai, o que para os senhores deve ser uma grande chatice. Porque é que se faziam prédios com tanta qualidade?? Chatice não é??
ResponderEliminarSim senhor, estão rijos e deve ser uma dor de cabeça para a ganância nos rege a cidade.
ResponderEliminarEstes prédios têm uma elegância discreta e volumetria muito adequada a esta avenida. As cérceas não vão além do 3º andar onde o primeiro tem distinta função de andar nobre, com harmoniosos frontões triangulares rematando as janelas. Mas nada como fachadas de vidro e alumínio...
Cumpts.