Os limites são inadequados e os radares são um atraso de vida, dizem alguns (muitos, quase todos).
Passo e observo o jardim. Hoje vinha um senhor de fato claro com uma pasta na mão. Não se alongou no caminho até à passagem subterrânea. A velocidade modera-se logo à saída do túnel de Entrecampos. Aposto que há-de atravessar ali sem correr sequer.
Num banco um maltrapilho imóvel - vejo-o de costas - parece dormir sentado. Ontem um homem lia o jornal no banco a seguir; um casal passeava o cão. Do outro lado uns operários entaipavam o velho prédio do nº 180; - que mamarracho brotará dali? - penso. Passo o Quebra-Bilhas e ocorre-me sempre o nome do casarão aonde se encosta: o palacete Beltrão que foi de Fausto de Figueiredo. Hoje diz que pertence à Opus Dei.
Subo o Campo Grande sem semáforo que me detenha. A menos de 50. E dou comigo a pensar calmamente nisto tudo e no rápido ritmo da mudança que me é induzido por consultores e outros arautos da competitividade [mais um desses palavrões da moda].
Competitivo para quê? Para gerar mais e mais riqueza, sempre mais e mais depressa? Para poder pagar carradas de qualidade ISO 9000 plastificada? Para comprar segurança...?
Os radares põem-nos paradoxalmente no ritmo certo. A vida é que anda com excesso de velocidade.
Soubéssemos nós perceber isso.
Jardim do Campo Grande, Lisboa, 1966.
Fotografia de Jorge Guerra in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Paradoxo do ritmo
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
A terra
domingo, 26 de agosto de 2007
A leitaria Mexicana
Há meses publiquei esta fotografia da Av. Guerra Junqueiro em Lisboa, e alvitrava poder ser uma leitaria o estabelecimento antecessor da Mexicana, cujo toldo vedes à esquerda. Ontem tive o grato prazer de receber um elucidativo comentário nesse verbete sobre a dita pastelaria.
Agradeço ao benévolo leitor Ricardo Jorge a interessante informação. Apraz-me muito saber estas curiosas histórias, mormente quando se trata de lugares que me são tão familiares como a Mexicana. Redijo esta nótula à margem para dizer que fui à Mexicana hoje à tarde para café e refrescos na esplanada. Para evitar os pardacentos torcionários das redondezas optei por pôr o carro no parque subterrâneo. Admirou-me que a entrada do parque tivesse o gradeamento descido vedando totalmente o acesso. Fiquei até na dúvida se o parque estaria aberto, mas uns dizeres pintados no portão - Aberto 24 horas; toque à campainha para ajuda - desfaziam o equívoco; aquilo deve ser para vedar a entrada à fauna indesejável que por ali pulula com tanta diligência em arrumar carros. Todas as entradas e saídas, as de peões também, estavam trancadas. Admira-me eu é passar-se isto num domingo à tarde, no Verão. Triste Lisboa!... |
"Sei de uma camponesa"
Há muito tempo, quando o Rui Veloso ainda usava óculos, havia um barzito a par de São Vicente onde eu ia muito. Chamava-se Casa da Lina; tinha um artista lá - um certo Luís Duarte - um tipo forte e divertido que tocava muito do repertório do Rui Veloso, coisa que me agradava. Outro bar onde me lembra de o ver actuar era um na Rua da Bombarda, às Olarias, mas cujo nome já não tenho ideia.
O Luís Duarte não consta no Tubo, mas o Rui Veloso do tempo em que usava óculos sim, o que - não desfazendo - é uma vantagem.
Rui Veloso - Sei de uma Camponesa
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
O mundo em minha casa (que mundo!)
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O caso da menina inglesa mostra toda a sofreguidão dos noticieiros. No Sol havia há pedaço 206 títulos indexados ao triste caso (*). Títulos, não notícias, porque a grossa maioria é boataria gratuita. Leio salteadamente alguns dos títulos. É aflitiva a nulidade noticiosa e mental naquele rol de nada. |
(*) Não julgueis que os contei um a um (trabalhos me deram!); fiz parecido com o alegado (eh! eh!) acessor do dr. Filipe Meneses de Gaia: seleccionei, copiei e colei os títulos numa folha de cálculo e vi logo quantas linhas dava. |
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quinta-feira, 23 de agosto de 2007
Geometria variável
Nota: será o parágrafo à parte para falar só dos terceiros um exemplo de reverência também por parte de Vicente Jorge Silva? |
Alegadamente
Abstraindo para já do triste caso da menina atentai à gramática. «A Polícia Judiciária transmitiu…»: ora o verbo «transmitir», sendo transitivo, pede complemento directo; mas lendo pergunto: transmitiu o quê? Há ali algum complemento?
Bem! Há um indirecto: os magistrados; mas não se percebe o que lhes foi transmitido. Só se dissessem «A Polícia Judiciária transmitiu aos magistrados &c. que acredita fortemente na possibilidade de blá blá blá».
Há no texto da notícia um erro de concordância, portanto; o complemento directo não concorda em número com sujeito. A menos que o (a) jornalista ache que a Polícia Judiciária é um substantivo colectivo e force — alegadamente — por aí o plural.
Ou talvez não saiba — alegadamente — contar…
Que me lembre, este caso da menina inglesa — segundo os jornalistas — já foi rapto sórdido levado a cabo — alegadamente — por um luso-britânico; a menina já foi vista na Holanda; já houve um — alegado — pederasta suíço que morreu; os pais da menina já foram ao Papa e a Marrocos à procura; há dias um cão descobriu que a menina morreu; a — alegada — culpa passou para os pais; a culpa anteontem era dum amigo dos pais; ontem a menina foi vista em Espanha; hoje diz que houve um acidente dentro do apartamento há três meses…
Há erros de concordância na notícia, portanto. Ou os jornalistas não a sabem contar. Alegadamente.
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Dos transgénicos (neol.)
O Pancadas era um sujeito intratável. No seu local de trabalho constantemente implicava por causa de portas abertas. Alguém que passasse uma porta e a não fechasse era logo alvo de áspero ralhete; acto contínuo a porta deixada aberta pagava as favas sendo fechada à bruta. Numa dessas vezes armou-se ele em lutador de karaté e pregou tal pezão na porta que esta fez de mola e veio de volta violentamente apanhando-o ainda com o pé estendido no ar, derrubando-o: o Pancadas caiu ridiculamente de cu.
Esta velha história veio-me à memória quando vi aí há dias uns mutantes cheios de fúria contra umas maçarocas.
Adiante.
Pede-me o amigo Réprobo um comentário sobre o redundante linguajar do sr. ministro da agricultura — «os responsáveis serão responsabilizados», parece que foi o que afirmou o sr. ministro — a propósito dos lutadores do milharal de Silves. Ora responsabilizar responsáveis além ser, assim, forma transitiva com complemento obviamente óbvio — digamos —, é inconsequente; carece-lhe a identificação do óbvio: quem são os responsáveis…?
Mas tratando-se de agricultura pode dizer-se que é fruta da época; mais raro será ver hoje em dia castigarem-se os responsáveis responsabilizados por tantos ilícitos. A começar pelos responsáveis dessa plantação (nunca responsabilizados estes) donde se colhem ministros — da agricultura e outros — tão... transgenicamente cultos, ou cultivados.
Mas que fazer? A política é ao cabo e ao resto só mais uma cultura transgénica. Muda geneticamente no sentido do tacho.
Ilustração: montagem dum karateca no cultivo do milho.
terça-feira, 21 de agosto de 2007
Dos perdigueiros

Eugène Petit (1839 – 1886)
A Pointer and a Gordon Setter Flushing Partridge
Quando a menina desapareceu apreciei muito uma reportagem da filha da presidente da Câmara de Felgueiras sobre as maneiras de um raptor se escapar de Portugal às escondidas. Hoje vejo a notícia da detenção iminente dum inglês que se mudou para Exeter, amigo do casal (tudo factos altamente suspeitos, quiçá incriminatórios)...
Fico apenas a pensar: porque não vão imediatamente os farejadores lá encurralar a presa? Ou será que só sabem espantar a caça…
domingo, 19 de agosto de 2007
Brisas de 84
No princípio de Julho de 84, com as férias grandes a perder de vista e com juvenil desejo de descoberta e aventura que bebera talvez dos livros d' Os Cinco, propus à malta da rua irmos para à praia. O projecto tinha inclusivamente um plano para fugirmos às bichas da ponte: ir de autocarro a Belém apanhar o barco da Trafaria: daí para São João da Caparica podia ir-se a pé; poupava-se no transporte. Secretamente este plano recordava-me à passagem a velha praia da minha infância mai' recuada que a marcha do progresso tornara imprópria.
O plano foi aprovado só formalmente com um - É... podemos ir... -, sem nenhum entusiasmo: era aventura algo extravagante para a malta, que era mais amiga de jogar à bola logo ali de imediato, na rua, que cansar-se até São João da Caparica para fazer o mesmo. Além disso estava muito vento, o que é mau para a praia.
De acordo. O vento era aborrecido, mas se o vento passasse...
- Ah! Isso podíamos ir.
O vento não passava; por mais que eu procurasse ao Anthímio ou ao Costa Alves na televisão, o boletim só dava vento moderado a forte. E assim, mesmo que eu insistisse, aqueles dias iam correndo e o vento foi refrescando o entusiasmo da aventura juvenil, da mesma forma que refresca em 2007 o Verão mais quente de todos os tempos.
Provavelmente acabei por ir à praia em 84; e hei-de ter feito alguma coisa mais, mas o que me lembra mais vivamente agora desse Verão de 84 é do ventoso que foi - como este de agora. Não creio, porém, ter ouvido nessa vez o anticiclone ser responsabilizado como agora.
Comboio da Costa da Caparica, [s.d].
Fórum Motor Clássico.
Corrigido às 7h06 da tarde.
Plim Plim, Xabreeegas!
Trocando os algarismos à data da fotografia... Já posso ir à Rua do Açúcar. Às vacinas...
[Algo sucedeu à ponte ferroviária!...]
Eléctrico 332 sob o viaduto ferroviário de Xabregas, Lisboa, 1983.
Fotografia de Phil Trotter, in The Portuguese Mono Tramway File.
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Eléctricos
A globalização é...
Semana a semana tenho vindo a ler com deleite o Álbum de Memórias do professor Hermano Saraiva. Na outra semana deixei-me atrasar. Enquanto tento recuperar a leitura fixo-me num passo de 1992 - as primeiras impressões sobre a América. Convidado para proferir lá algumas palestras, aconteceu em cada dia um dos anfitriões ser escalado para acompanhar o professor Saraiva. Numa das vezes... |
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Av. Júlio Dinis, Lisboa
Olhando para "Os ciclistas" avisto três casas: à esquerda o antigo palacete da Av. da República, 77, que já foi abaixo; à direita o nº 87 da dita Avenida da República; ao meio, vejo de lado um prédio de rendimento que julgo ser o nº 5 da Av. Júlio Dinis. Os dois últimos milagrosamente estão hoje de pé. Aliás, na Av. Júlio Dinis creio que só aquele nº 5 (e o nº 7 que lhe é gémeo), se aguentam. Todas as mais casas do princípio das avenidas novas que lá houve veio a dar-lhes o... camartelo.
Av. Júlio Dinis [vista da 5 de Outubro], Lisboa, [anos 60]
Av. da República, 85 [esquina com a Av. Júlio Dinis] e 87, Lisboa, [c. 1970]
Avenida da República, [81 a] 85, esquina com a Av. Júlio Dinis, Lisboa, 1970.
Fotografias: Arnaldo Madureira e Artur Inácio Bastos, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Responsabilizado?
1º Acto
O anticiclone dos Açores está a ser responsabilizado [sic] pelo Verão fresco... - anuncia o apresentador que sabe a fórmula de Deus no seu habitual estilo bombástico.
Responsabilizado? Irão processá-lo? (Ao anticiclone, claro.)
2º Acto
O meteorologista Costa Alves aparece a substanciar: Três em cada dez verões são frescos... O anticiclone costuma posicionar-se [que foi feito do verbo pôr?] a oeste... Este Verão está a sudoeste.
Das duas uma: ou enquadram este Verão na normalidade dos 3 em 10 ou amarram o anticiclone ao sítio dele. Agora é só escolher.
Parece que sobra aí tanto tempo que vai de encher chouriços...
Batalha
Não me apetece muito exaltar Aljubarrota. Orgulho-me do feito; mormente da consequência histórica. Mas sinto que hoje qualquer exuberante manifestação me soa demasiadamente como o estrebuchar dum moribundo...
A transcrição de Fernão Lopes que há um ano cá deixei é exemplar: Aljubarrota foi um acto em que os muitos, por subjugar os poucos, e os poucos, por se verem isentos de seus inimigos, lidavam com toda sua força.
A batalha continua.
Postal de Antigamente.
domingo, 12 de agosto de 2007
Os ciclistas (*)
Certa vez que procurei ao meu pai o que se lembrava ele dos lugares de Alvalade ou do Campo Grande antes daquilo tudo ser urbanizado saiu-se-me ele com uma história duma corrida Porto - Lisboa no tempo do Trindade e do Nicolau. Devia ter ele uns seis ou sete anos — disse-me ao cabo de contar a história — o que leva esta história para 1935 ou 1936. ![]() Corrida de bicicletas em Lisboa, [Campo Pequeno], [c. 1910]. Fotografia: Arquivo Fotográfico da C.M.L. Uma outra consequência foi a minha avó lhe ter pregado à chegada dois açoutes no rabo por se ter escapado para tão longe e ela afligindo-se sem saber dele. |
(*) Publicado originalmente em 12 de Agosto de 2007 às 4h06 da tarde. Trasladado conforme o original a esta data (7/VIII/2013), com todos os comentários, por capricho do autor. E reposto na data original em 20/VIII/2013.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
Criação
Alguns humanos dizem-se criadores disto ou daquilo: ele há criadores de cavalos ou criadores de cães, p. ex. |
Revisto às 8h55 da noite.
terça-feira, 7 de agosto de 2007
Gasolineiro
Ontem abasteci na Via Verde. Parece cómodo. Mas precisava ver a pressão dos pneus e as mangueiras estavam todas numa miséria...
A verdade é que já nada se compara com o velho serviço com gasolineiro.
Fotografia: Bombas de gasolina, Viseu (Av. da Bélgica?), c. 1960; no Fórum Auto-Hoje.
domingo, 5 de agosto de 2007
sábado, 4 de agosto de 2007
O mapa...
Este é o mapa que faltava para mostrar a localização exacta da Quinta do Caldas, ao aeroporto. Aquele carreiro assinalado pelo nº 2 conduzia ao solar da quinta. Já vimos duas pessoas virem por ali em 1940... | |
Mapas do Levantamento da Planta de Lisboa - 1904-1911 (planta 12S) e da Lisboa Interactiva (Av. Cidade do Porto - em amarelo - e Av. Marechal Craveiro Lopes.). | Legenda:
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quinta-feira, 2 de agosto de 2007
TAAG
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Informação institucional
"Se é para Portugal há um novo terminal."
Quem se lembrou de usar isto para divulgar o novo terminal de voos domésticos do aeroporto da Portela é um poeta. Ou um tolinho que faz rimas sem sentido.
Um terminal de aeroporto é para quem chega ou parte de avião. Ora quem parte de avião com destino a Portugal só dirá que vai para Portugal se embarcar lá fora. Porque quem diz seriamente "vou para Portugal" transmite de modo implicíto que está noutra parte. Por isso, quem embarca em voos domésticos refere-se à cidade ou região de destino - "vou para a Horta" ou "vou para a Madeira" - porque referir-se ao país quando este é origem e destino, é falar pouco claro. E julgo que deva ser assim em todas a linguagens.
Mas na linguagem dos ditos criativos não! Põem-se com rimas baratas e só quem esteja já inteiramente informado percebe. Os que não souberem - os destinatários da informação, afinal - hão-de pensar que aquilo lá em cima se refere a voos internacionais com destino a Portugal. É exactamente ao contrário.
Público no Campo de Aviação da Amadora, c.1920-1930.
Fotografia: Arquivo Fotográfico da C.M.L..

