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terça-feira, 28 de agosto de 2007

Paradoxo do ritmo

 Os limites são inadequados e os radares são um atraso de vida, dizem alguns (muitos, quase todos).
 Passo e observo o jardim. Hoje vinha um senhor de fato claro com uma pasta na mão. Não se alongou no caminho até à passagem subterrânea. A velocidade modera-se logo à saída do túnel de Entrecampos. Aposto que há-de atravessar ali sem correr sequer.
 Num banco um maltrapilho imóvel - vejo-o de costas - parece dormir sentado. Ontem um homem lia o jornal no banco a seguir; um casal passeava o cão. Do outro lado uns operários entaipavam o velho prédio do nº 180; - que mamarracho brotará dali? - penso. Passo o Quebra-Bilhas e ocorre-me sempre o nome do casarão aonde se encosta: o palacete Beltrão que foi de Fausto de Figueiredo. Hoje diz que pertence à Opus Dei.
 Subo o Campo Grande sem semáforo que me detenha. A menos de 50. E dou comigo a pensar calmamente nisto tudo e no rápido ritmo da mudança que me é induzido por consultores e outros arautos da competitividade [mais um desses palavrões da moda].
 Competitivo para quê? Para gerar mais e mais riqueza, sempre mais e mais depressa? Para poder pagar carradas de qualidade ISO 9000 plastificada? Para comprar segurança...?
 Os radares põem-nos paradoxalmente no ritmo certo. A vida é que anda com excesso de velocidade.
 Soubéssemos nós perceber isso.


Jardim do Campo Grande, Lisboa, 1966.
Fotografia de Jorge Guerra in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

A terra

Os de fora dizem que os de Lisboa não têm terra. Mas não é Lisboa uma terra como outra qualquer?
- Terra? - dizem-me. Qual terra?! Lisboa é só cimento e alcatrão.

Cimento e alcatrão, Campolide © 2007
Talvez seja por isso que os de Lisboa acabam também por ir de férias como os de fora: para a terra.

domingo, 26 de agosto de 2007

A leitaria Mexicana


Av. Guerra Junqueiro, Lisboa (A.Passaporte, c. 1950)



 Há meses publiquei esta fotografia da Av. Guerra Junqueiro em Lisboa, e alvitrava poder ser uma leitaria o estabelecimento antecessor da Mexicana, cujo toldo vedes à esquerda. Ontem tive o grato prazer de receber um elucidativo comentário nesse verbete sobre a dita pastelaria.

 



 A Mexicana foi fundada em 1946 por um grupo de 4 sócios, 3 dos quais ligados à família Vicente, oriunda de Tomar. Os terrenos onde hoje se situa a Praça de Londres foram adquiridos na primeira metade do século XX por Tomarenses que [os] lotearam e venderam a outros Tomarenses para construção. Uma parte considerável do terreno onde se encontra a Igreja de S. João de Deus era desta família Vicente e da família Alcobia Neves. Ainda hoje, os principais sócios da Mexicana são descendentes do fundador José Vicente que terá dado sociedade, em comandita, a um sobrinho de nome Manuel Penteado que explorou aqui, no início, uma leitaria que mais tarde evoluiu para aquela que é hoje uma das mais afamadas pastelarias do País.

Enviado por Ricardo Jorge em 25/08/07 às 09:40 PM



 Agradeço ao benévolo leitor Ricardo Jorge a interessante informação. Apraz-me muito saber estas curiosas histórias, mormente quando se trata de lugares que me são tão familiares como a Mexicana.
 Já agora e também como curiosidade, aqui fica uma fotografia nova da avenida retratada acima.

Av. Guerra Junqueiro, Lisboa © 2007
Av. Guerra Junqueiro, Lisboa, 2007.




 Redijo esta nótula à margem para dizer que fui à Mexicana hoje à tarde para café e refrescos na esplanada. Para evitar os pardacentos torcionários das redondezas optei por pôr o carro no parque subterrâneo. Admirou-me que a entrada do parque tivesse o gradeamento descido vedando totalmente o acesso. Fiquei até na dúvida se o parque estaria aberto, mas uns dizeres pintados no portão - Aberto 24 horas; toque à campainha para ajuda - desfaziam o equívoco; aquilo deve ser para vedar a entrada à fauna indesejável que por ali pulula com tanta diligência em arrumar carros. Todas as entradas e saídas, as de peões também, estavam trancadas. Admira-me eu é passar-se isto num domingo à tarde, no Verão. Triste Lisboa!...


"Sei de uma camponesa"

 Há muito tempo, quando o Rui Veloso ainda usava óculos, havia um barzito a par de São Vicente onde eu ia muito. Chamava-se Casa da Lina; tinha um artista lá - um certo Luís Duarte - um tipo forte e divertido que tocava muito do repertório do Rui Veloso, coisa que me agradava. Outro bar onde me lembra de o ver actuar era um na Rua da Bombarda, às Olarias, mas cujo nome já não tenho ideia.
 O Luís Duarte não consta no Tubo, mas o Rui Veloso do tempo em que usava óculos sim, o que - não desfazendo - é uma vantagem.




Rui Veloso - Sei de uma Camponesa

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O mundo em minha casa (que mundo!)



Ilustr.: Maria Keil, Luís Filipe de Abreu in Livro de Leitura da Segunda Classe.



 O caso da menina inglesa mostra toda a sofreguidão dos noticieiros. No Sol havia há pedaço 206 títulos indexados ao triste caso (*). Títulos, não notícias, porque a grossa maioria é boataria gratuita. Leio salteadamente alguns dos títulos. É aflitiva a nulidade noticiosa e mental naquele rol de nada.
 Só no dia de ontem (23/8/07) - é quanto chega para exemplificar toda a esquizofrenia noticieira - o Sol publicou como relacionados com o caso três pares de contradições palermas e uma euro-tolice desgarrada: Polícia investiga a denúncia das mulheres que garantem ter visto Madeleine vs. P.J. nega ter recebido informação de avistamento de Maddie em Espanha; Cães portugueses fariam trabalho semelhante aos britânicos vs. P.J. diz que cães portugueses não conseguem fazer o mesmo do que os trazidos do Reino Unido; Jornalista da R.T.P. pode ser processada pelos McCann vs. R.T.P. desmente processo a jornalista Sandra Felgueiras. Por fim, ainda a propósito e a despropósito do caso da menina inglesa diz o Sol que os Eurodeputados apoiam criação de base de dados europeia sobre predadores sexuais.
 [Predadores sexuais?! Já deram por que vão ter que proibir as discotecas, aqueles euro-limitados?]



(*) Não julgueis que os contei um a um (trabalhos me deram!); fiz parecido com o alegado (eh! eh!) acessor do dr. Filipe Meneses de Gaia: seleccionei, copiei e colei os títulos numa folha de cálculo e vi logo quantas linhas dava.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Geometria variável


« Actores anónimos (e subitamente célebres) de fait-divers, como os McCann. Actores políticos, como Marques Mendes e Luís Filipe Menezes. Actores financeiros, como Jardim Gonçalves e Teixeira Pinto. A geometria é variável - e assimétrica. Os primeiros são descartáveis, sejam quais forem as futuras peripécias do caso. Os segundos têm sido objecto de atenção crítica e até de apreciação anedótica, notoriamente mais complacentes com a figura que ainda representa um papel institucional (Mendes).
   Quanto aos terceiros, a atitude geral dos media pauta-se pela reverência, a prudência extrema, o temor absoluto do melindre - a ponto de, ainda hoje, não se ter percebido verdadeiramente o motivo racional do conflito entre Teixeira Pinto e Jardim Gonçalves [...] »

Vicente Jorge Silva, "Folhetins e Misterios de Verão", Sol, 18/8/2007.

Cinelândia, Lda.
Reportagem cinematográfica, Feira Popular, 1940-50.
Fotografia in Joaquim Vieira, Portugal séc. xx: crónica em imagens, [Lx], Círculo de Leitores, imp. 1999, apud Fórum Auto-Hoje.



Nota: será o parágrafo à parte para falar só dos terceiros um exemplo de reverência também por parte de Vicente Jorge Silva?

Alegadamente

 Abstraindo para já do triste caso da menina atentai à gramática. «A Polícia Judiciária transmitiu…»: ora o verbo «transmitir», sendo transitivo, pede complemento directo; mas lendo pergunto: transmitiu o quê? Há ali algum complemento?
 Bem! Há um indirecto: os magistrados; mas não se percebe o que lhes foi transmitido. Só se dissessem «A Polícia Judiciária transmitiu aos magistrados &c. que acredita fortemente na possibilidade de blá blá blá».
 Há no texto da notícia um erro de concordância, portanto; o complemento directo não concorda em número com sujeito. A menos que o (a) jornalista ache que a Polícia Judiciária é um substantivo colectivo e force — alegadamente — por aí o plural.
 Ou talvez não saiba — alegadamente — contar…
 
 Que me lembre, este caso da menina inglesa — segundo os jornalistas — já foi rapto sórdido levado a cabo — alegadamente — por um luso-britânico; a menina já foi vista na Holanda; já houve um — alegado — pederasta suíço que morreu; os pais da menina já foram ao Papa e a Marrocos à procura; há dias um cão descobriu que a menina morreu; a — alegada — culpa passou para os pais; a culpa anteontem era dum amigo dos pais; ontem a menina foi vista em Espanha; hoje diz que houve um acidente dentro do apartamento há três meses…
 Há erros de concordância na notícia, portanto. Ou os jornalistas não a sabem contar. Alegadamente.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Dos transgénicos (neol.)

Karateca da maçaroca O Pancadas era um sujeito intratável. No seu local de trabalho constantemente implicava por causa de portas abertas. Alguém que passasse uma porta e a não fechasse era logo alvo de áspero ralhete; acto contínuo a porta deixada aberta pagava as favas sendo fechada à bruta. Numa dessas vezes armou-se ele em lutador de karaté e pregou tal pezão na porta que esta fez de mola e veio de volta violentamente apanhando-o ainda com o pé estendido no ar, derrubando-o: o Pancadas caiu ridiculamente de cu.
 Esta velha história veio-me à memória quando vi aí há dias uns mutantes cheios de fúria contra umas maçarocas.
 Adiante.
 Pede-me o amigo Réprobo um comentário sobre o redundante linguajar do sr. ministro da agricultura — «os responsáveis serão responsabilizados», parece que foi o que afirmou o sr. ministro — a propósito dos lutadores do milharal de Silves. Ora responsabilizar responsáveis além ser, assim, forma transitiva com complemento obviamente óbvio — digamos —, é inconsequente; carece-lhe a identificação do óbvio: quem são os responsáveis…?
 Mas tratando-se de agricultura pode dizer-se que é fruta da época; mais raro será ver hoje em dia castigarem-se os responsáveis responsabilizados por tantos ilícitos. A começar pelos responsáveis dessa plantação (nunca responsabilizados estes) donde se colhem ministros — da agricultura e outros — tão... transgenicamente cultos, ou cultivados.
 Mas que fazer? A política é ao cabo e ao resto só mais uma cultura transgénica. Muda geneticamente no sentido do tacho.




Ilustração: montagem dum karateca no cultivo do milho.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Dos perdigueiros

Eugène Petit: Perdigueiros espantando as perdizes
Eugène Petit (1839 – 1886)
A Pointer and a Gordon Setter Flushing Partridge


 Quando a menina desapareceu apreciei muito uma reportagem da filha da presidente da Câmara de Felgueiras sobre as maneiras de um raptor se escapar de Portugal às escondidas. Hoje vejo a notícia da detenção iminente dum inglês que se mudou para Exeter, amigo do casal (tudo factos altamente suspeitos, quiçá incriminatórios)...
 Fico apenas a pensar: porque não vão imediatamente os farejadores lá encurralar a presa? Ou será que só sabem espantar a caça…

domingo, 19 de agosto de 2007

Brisas de 84

 No princípio de Julho de 84, com as férias grandes a perder de vista e com juvenil desejo de descoberta e aventura que bebera talvez dos livros d' Os Cinco, propus à malta da rua irmos para à praia. O projecto tinha inclusivamente um plano para fugirmos às bichas da ponte: ir de autocarro a Belém apanhar o barco da Trafaria: daí para São João da Caparica podia ir-se a pé; poupava-se no transporte. Secretamente este plano recordava-me à passagem a velha praia da minha infância mai' recuada que a marcha do progresso tornara imprópria.

 O plano foi aprovado só formalmente com um - É... podemos ir... -, sem nenhum entusiasmo: era aventura algo extravagante para a malta, que era mais amiga de jogar à bola logo ali de imediato, na rua, que cansar-se até São João da Caparica para fazer o mesmo. Além disso estava muito vento, o que é mau para a praia.

 De acordo. O vento era aborrecido, mas se o vento passasse...

 - Ah! Isso podíamos ir.

 O vento não passava; por mais que eu procurasse ao Anthímio ou ao Costa Alves na televisão, o boletim só dava vento moderado a forte. E assim, mesmo que eu insistisse, aqueles dias iam correndo e o vento foi refrescando o entusiasmo da aventura juvenil, da mesma forma que refresca em 2007 o Verão mais quente de todos os tempos.

 Provavelmente acabei por ir à praia em 84; e hei-de ter feito alguma coisa mais, mas o que me lembra mais vivamente agora desse Verão de 84 é do ventoso que foi - como este de agora. Não creio, porém, ter ouvido nessa vez o anticiclone ser responsabilizado como agora.



Costa da Caparica (Fórum Motor Clássico)

Comboio da Costa da Caparica, [s.d].

Fórum Motor Clássico.




Corrigido às 7h06 da tarde.

Plim Plim, Xabreeegas!

Trocando os algarismos à data da fotografia... Já posso ir à Rua do Açúcar. Às vacinas...
[Algo sucedeu à ponte ferroviária!...]


Eléctrico 332 sob o viaduto ferroviário de Xabregas, Lisboa, 1983.
Fotografia de Phil Trotter, in The Portuguese Mono Tramway File.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Eléctricos

Em pequenos, uma maneira típica de dizermos os eléctricos era cantarolar:
— Plim Plim, Xabreeegas!


Viaduto de Xabregas, Lisboa, 1938.
Fotografia de Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

Arcos

As notas dos euros têm arcos.
Também Xabregas.

Xabregas (A.Madureira, 1968)
Viaduto de Xabregas, Lisboa, 1968.
Fotografia de Arnaldo Madureira, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

A globalização é...

 Semana a semana tenho vindo a ler com deleite o Álbum de Memórias do professor Hermano Saraiva. Na outra semana deixei-me atrasar. Enquanto tento recuperar a leitura fixo-me num passo de 1992 - as primeiras impressões sobre a América. Convidado para proferir lá algumas palestras, aconteceu em cada dia um dos anfitriões ser escalado para acompanhar o professor Saraiva. Numa das vezes...

« Acabam por me levar a uma galeria comercial para fazer compras. Tinha vagamente pensado em levar à Maria de Lourdes um blusão de cabedal, mas de pele mais macia, leve e, se possível, branca. Digo-lhes isso e corremos a galeria à procura. Nada que se pareça. Mas os meus companheiros dizem-me que não devo sair sem comprar alguma coisa. Seria repreensível. E sugerem-me camisas e camisolas que acham muito bonitas: são as mais assarapantadas, garridas, absurdas. Vejo por fim uma, completamente branca, e compro-a, para me livrar da pressão. Mas não, ainda não. É preciso continuar a comprar. Estamos na época do Natal. Devo, portanto, comprar artigos natalícios. Esta insistência não é uma exigência indiscreta, mas um gesto de amabilidade. Para os meus torcionários, viver é consumir. Trazem-me às compras como se me levassem a um paraíso terreal. Procuram proporcionar-me o maior prazer que conhecem: comprar. Até que ponto o consumismo pode moldar-nos a alma! »

J. H. Saraiva, Álbum de Memórias, 8ª Década (Anos 90), I parte, 1ª ed., [Lisboa], Sol, 2007, p. 31.
Centro Colombo, Lisboa, 1997
Centro Colombo, Lisboa, 1997.
Imagem em ...

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Av. Júlio Dinis, Lisboa

 Olhando para "Os ciclistas" avisto três casas: à esquerda o antigo palacete da Av. da República, 77, que já foi abaixo; à direita o nº 87 da dita Avenida da República; ao meio, vejo de lado um prédio de rendimento que julgo ser o nº 5 da Av. Júlio Dinis. Os dois últimos milagrosamente estão hoje de pé. Aliás, na Av. Júlio Dinis creio que só aquele nº 5 (e o nº 7 que lhe é gémeo), se aguentam. Todas as mais casas do princípio das avenidas novas que lá houve veio a dar-lhes o... camartelo.

Av. Júlio Dinis, Lisboa (A.Madureira, anos 60)
Av. Júlio Dinis [vista da 5 de Outubro], Lisboa, [anos 60]

Av. da República, Lisboa (A.Madureira, c. 1970)
Av. da República, 85 [esquina com a Av. Júlio Dinis] e 87, Lisboa, [c. 1970]

Av. da República, Lisboa (A.I.Bastos, c.1970)
Avenida da República, [81 a] 85, esquina com a Av. Júlio Dinis, Lisboa, 1970.




Fotografias: Arnaldo Madureira e Artur Inácio Bastos, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

Responsabilizado?

1º Acto
O anticiclone dos Açores está a ser responsabilizado [sic] pelo Verão fresco... - anuncia o apresentador que sabe a fórmula de Deus no seu habitual estilo bombástico.
Responsabilizado? Irão processá-lo? (Ao anticiclone, claro.)

2º Acto
O meteorologista Costa Alves aparece a substanciar: Três em cada dez verões são frescos... O anticiclone costuma posicionar-se [que foi feito do verbo pôr?] a oeste... Este Verão está a sudoeste.
Das duas uma: ou enquadram este Verão na normalidade dos 3 em 10 ou amarram o anticiclone ao sítio dele. Agora é só escolher.

Ceifeiros (Imagem do Livro da Primeira Classe.)

Parece que sobra aí tanto tempo que vai de encher chouriços...

Batalha

 Não me apetece muito exaltar Aljubarrota. Orgulho-me do feito; mormente da consequência histórica. Mas sinto que hoje qualquer exuberante manifestação me soa demasiadamente como o estrebuchar dum moribundo...
 A transcrição de Fernão Lopes que há um ano cá deixei é exemplar: Aljubarrota foi um acto em que os muitos, por subjugar os poucos, e os poucos, por se verem isentos de seus inimigos, lidavam com toda sua força.
 A batalha continua.





Postal de Antigamente.

domingo, 12 de agosto de 2007

Os ciclistas (*)


 Certa vez que procurei ao meu pai o que se lembrava ele dos lugares de Alvalade ou do Campo Grande antes daquilo tudo ser urbanizado saiu-se-me ele com uma história duma corrida Porto - Lisboa no tempo do Trindade e do Nicolau. Devia ter ele uns seis ou sete anos — disse-me ao cabo de contar a história — o que leva esta história para 1935 ou 1936.
 Foi ver os ciclistas. Para os ir ver não se conseguia era lembrar já os caminhos que calcorreara. Tinha uma vaga ideia de ter passado a linha férrea e ter ido dar finalmente ao Campo Grande, para os lados do campo do Sporting. Mas era pequeno e seguia guiado por outros. Do que eu queria saber não me disse afinal grande coisa mas do descaminho até tão longínquos arrabaldes para admirar os briosos ciclistas disse que foi uma festa; era uma alegria vê-los a correr e ver o muito povo que ruidosamente os animava.
 Desta história houve consequências: o Trindade e o Nicolau corriam de bicicleta a rivalidade entre o Sporting e o Benfica; nesta vez ganhou o Trindade e o meu pai alçou-o logo ali a ídolo. E ficou do Sporting.



Corrida de bicicletas em Lisboa, [Campo Pequeno], [c. 1910].
Fotografia: Arquivo Fotográfico da C.M.L.

 Uma outra consequência foi a minha avó lhe ter pregado à chegada dois açoutes no rabo por se ter escapado para tão longe e ela afligindo-se sem saber dele.

 




(*) Publicado originalmente em 12 de Agosto de 2007 às 4h06 da tarde. Trasladado conforme o original a esta data (7/VIII/2013), com todos os comentários, por capricho do autor. E reposto na data original em 20/VIII/2013.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Desgaste

 Caso aquela flexão do verbo 'realizar' ali sublinhada vos pareça extravagante ou pouco clara, o seu sentido vem explicado na Britânica: vale a 3ª acepção.
...percebi...
O professor de Direito diz muitas... muitas coisas. Isso desgasta-lhe o Português.

Com tranquilidade

Segui o conselho. Ora vede lá quem faltava...
Pinto da Costa box
Parece que não atendeu.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Criação


 Alguns humanos dizem-se criadores disto ou daquilo: ele há criadores de cavalos ou criadores de cães, p. ex.
 Alguns outros há que o que criam dispensa qualquer pequena definição: é gente moderna, chique. Já não são modistas nem alfaiates. Dizem-se somente criadores; tomam o conceito sem maior definição para lhe absorverem a elevada conotação muito embora (ainda) não grafem com maiúscula. Ele há ainda outros — um sucedâneo dos segundos — que, porque o que criam é porventura menos considerado que o dos criadores, são ditos apenas criativos.
 Ao depois há a criação propriamente dita, singela, sem mais. São as galinhas.











Cartaz publicitário, Av. Ant.º Augusto de Aguiar, 1987.
Fotografia: Eduardo Gageiro, in Arq. Fotogr. da C.M.L.





Revisto às 8h55 da noite.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Gasolineiro

Ontem abasteci na Via Verde. Parece cómodo. Mas precisava ver a pressão dos pneus e as mangueiras estavam todas numa miséria... Bombas de Gasolina, Viseu, c. 1960 (Fórum Auto-Hoje)
A verdade é que já nada se compara com o velho serviço com gasolineiro.


Fotografia: Bombas de gasolina, Viseu (Av. da Bélgica?), c. 1960; no Fórum Auto-Hoje.

domingo, 5 de agosto de 2007

Leve nostalgia

Dos tempos do liceu... Talvez. Não sei explicar.



Mr. Mister - Broken Wings

sábado, 4 de agosto de 2007

Aproximação ao sudoeste

Melides © 2006
Melides, 2006.

Volta


Peter Gabriel - Solsbury Hill

O mapa...

 Este é o mapa que faltava para mostrar a localização exacta da Quinta do Caldas, ao aeroporto. Aquele carreiro assinalado pelo nº 2 conduzia ao solar da quinta. Já vimos duas pessoas virem por ali em 1940...


Mapas do Levantamento da Planta de Lisboa - 1904-1911 (planta 12S) e da Lisboa Interactiva (Av. Cidade do Porto - em amarelo - e Av. Marechal Craveiro Lopes.).
Legenda:
  1. Solar da Quinta do Caldas;
  2. Carreiro que levava ao solar em ruínas.
  3. Palácio Benagazil.
  4. Gare Praça de chegadas do aeroporto da Portela.
  5. Av. de Berlim.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

TAAG

O meu bom amigo Paulo M. e eu divertimo-nos sempre com os disparates que por aí lemos na imprensa. Trouxe-
-me ele há dias este recorte...
Avarias não programadas!...
Só não sei se o jornalista ao citar o director da TAAG foi meramente ingénuo, ou se foi coisa pior...

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Informação institucional

  "Se é para Portugal há um novo terminal."
 Quem se lembrou de usar isto para divulgar o novo terminal de voos domésticos do aeroporto da Portela é um poeta. Ou um tolinho que faz rimas sem sentido.
 Um terminal de aeroporto é para quem chega ou parte de avião. Ora quem parte de avião com destino a Portugal só dirá que vai para Portugal se embarcar lá fora. Porque quem diz seriamente "vou para Portugal" transmite de modo implicíto que está noutra parte. Por isso, quem embarca em voos domésticos refere-se à cidade ou região de destino - "vou para a Horta" ou "vou para a Madeira" - porque referir-se ao país quando este é origem e destino, é falar pouco claro. E julgo que deva ser assim em todas a linguagens.
 Mas na linguagem dos ditos criativos não! Põem-se com rimas baratas e só quem esteja já inteiramente informado percebe. Os que não souberem - os destinatários da informação, afinal - hão-de pensar que aquilo lá em cima se refere a voos internacionais com destino a Portugal. É exactamente ao contrário.


Público no Campo de Aviação da Amadora, c.1920-1930.
Fotografia: Arquivo Fotográfico da C.M.L..

Type maison

Type maison © 2006
Type maison, Alhais (Vila Nova de Paiva), 2006.