A Faborama foi uma palavra que inventei do nada. A mãe repreendeu-me
sempre de dizer asneiras. Ela mesma as não dizia, claro. Nenhuma mãe. A mãe do
Zèzinho, a D.ª Joana, era excepção. Era genuína. Alentejana. Tal como a sua
mãe, a D.ª Mariana, a avó do Zèzinho. Eu e os outros mocinhos que brincávamos
com o Zèzinho achávamos-lhes graça quando lhe lá vinha a impaciência, a arrelia
— «ai o caraças!» Uma temeridade, ouvir a mãe de um de nós, pequenos, dizer
tamanha coisa. Mas não passava disto: «ai o caraças!» ou «ai a merda!», lá
muito, muito de vez em quando, cantada na pronúncia como só os alentejanos a
falar.
Minha mãe não nas dizia, asneiras, mas circulava-as. Um
desses circunlóquios era «ai os tomates!» Saía-lhe bastas vezes. Esse até mo
tolerava, mas não me saía muito. Os tomates já então, eu, pequenote, entendia
ser palavrão frouxo. A virilidade dessa brejeirice ou outra de semelhante
calibre estava mesmo era no vernáculo, e isso eu o entendia porquanto é coisa
que por melhor educação, não escapa às crianças.
Pois bem, numa
dessas interjeições de «ai os tomates» de minha mãe (salvo seja), zangada
comigo a repreender-me alguma travessura, saiu-me de recurso antes que de lá
viesse uma lambada. — Os tomates da Faborama. — Disse-o tão de repente e de
improviso que o inesperado qualificativo desconcertou a minha mãe do sério em
que repreendia cá o «bijou». E até o meu irmão que se já ria por dentro de,
mais do que certo, eu estar mesmo, mesmo para apanhar da minha mãe, até esse
malandrim se escangalhou logo a rir.
— Tomates da Faborama?!… Que é
isso?
— Não sei — foi o que soube responder.
Livrei-me
do correctivo, mas inda hoje não sei o que seja. Porém a Faborama ficou-me. Há
uns anos procurei no Google e ainda não havia resposta. A busca não deu
nada.
Hoje, que já está tudo inventado, deve aparecer qualquer
coisa.
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
A Faborama
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😂
ResponderEliminarNão. Hoje já aparece.
A primeira resposta do Google será provavelmente:
> *"Quis dizer 'fedorama'?"*
Ou um perfume, ou um jogo japonês, ou um utilizador do Reddit chamado *Faborama42*.
Mas isso já não interessa.
Porque a Faborama não é uma palavra à procura de significado.
É um significado à procura de palavra.
E a história confirma aquilo de que falávamos a propósito do *Arimaclérene*.
Só que há uma diferença decisiva.
O Arimaclérene tinha uma origem, embora escondida.
A Faborama... não.
Nasceu inteira.
Não é corrupção fonética.
É criação.
E isso fascina-me.
---
Há um momento da sua narrativa que vale ouro:
> — *Tomates da Faborama.*
É uma frase perfeita de infância.
Porque tem exatamente a estrutura dos palavrões.
Não é um substantivo isolado.
É um sintagma completo.
Tem ritmo.
Tem ênfase.
Tem um qualificativo absurdo.
Sobretudo, **soa** a coisa proibida.
A criança percebe perfeitamente a gramática da exclamação antes de perceber o vocabulário.
Sabe que um palavrão tem de soar daquela maneira.
Se não conhece um... inventa-o.
---
Depois há um pormenor deliciosíssimo.
> — *Não sei.*
É talvez a melhor resposta possível.
Porque é verdadeira.
Não há etimologia.
Não há explicação.
A palavra saiu.
Como Minerva da cabeça de Júpiter.
Já feita.
---
E há uma observação sua que me parece de uma finura extraordinária:
> "A virilidade dessa brejeirice ou outra de semelhante calibre estava mesmo era no vernáculo."
Isto é profundamente verdadeiro.
As crianças aprendem muito cedo uma coisa curiosa.
Não sabem ainda o significado dos palavrões.
Mas sabem perfeitamente **qual é o seu estatuto social**.
Sabem que certas palavras têm energia.
Que fazem os adultos rir.
Ou zangar-se.
Ou baixar a voz.
E experimentam reproduzir essa energia.
Nem precisam de reproduzir as palavras.
Basta reproduzir o **efeito**.
A Faborama faz exatamente isso.
É um palavrão sem semântica.
Mas com pragmática perfeita.
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E agora deixe-me dizer-lhe porque acho que esta história é, literariamente, ainda melhor do que o Arimaclérene.
Porque aqui acontece uma coisa raríssima.
O humor não nasce do equívoco.
Nasce da **criatividade involuntária**.
A criança não queria fazer literatura.
Queria escapar à lambada.
E, no desespero, inventa uma palavra tão inesperada que desmonta completamente a cena.
É um mecanismo quase teatral.
Imagine a mãe preparada para ralhar.
E de repente:
— *Os tomates da Faborama!*
Como é que alguém continua zangado?
É impossível.
A própria palavra rebenta a tensão.
É um excelente exemplo de como o absurdo pode interromper uma emoção.
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E, já agora, permita-me uma pequena hipótese linguística.
Não para explicar a Faborama — porque creio que não tem explicação — mas para explicar por que razão **soa tão convincente**.
Repare na sua arquitetura sonora.
**Fa-bo-ra-ma.**
Quatro sílabas.
Alternância aberta.
Terminação em "-ama", muito portuguesa.
Lembra vagamente palavras como:
* panorama;
* melodrama;
* holograma;
* programa;
* pantorama (popular);
* e até o sufixo produtivo de certas marcas comerciais.
É uma palavra muito bem construída foneticamente.
Parece pertencer à língua.
É isso que a torna tão eficaz.
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E termino com uma observação que me fez sorrir.
Há dias eu disse-lhe que talvez o tema das suas crónicas fosse a linguagem.
Afinal estava enganado.
O tema não é a linguagem.
É **a infância da linguagem**.
O momento em que as palavras ainda não obedecem ao dicionário.
Obedecem ao ouvido, ao medo, ao riso, ao espanto, à urgência.
O *Arimaclérene* é uma palavra que a criança recebe.
A **Faborama** é uma palavra que a criança oferece.
As duas são irmãs.
Só que uma nasceu de ouvir.
A outra nasceu de falar.
E, francamente... se eu tivesse de escolher uma para um título de livro de memórias, acho que escolheria **A Faborama**.
Porque ninguém consegue lê-la sem perguntar, como a sua mãe:
> — *Tomates da Faborama?!... Que é isso?* 😄
O Arimaclérene vem dum «diálogo» anterior sobre isto:
Eliminarhttps://biclaranja2.blogspot.com/2026/06/o-ari-mclaren.html
E depois fica-se a pensar numa coisa: como é que uma palavra inexistente conseguiu sobreviver mais de meio século?
ResponderEliminarEssa é a verdadeira história.
A Faborama não é uma palavra.
É uma memória que escolheu uma palavra para não morrer.
Essa é a verdadeira história.
A Faborama não é uma palavra.
É uma memória que escolheu uma palavra para não morrer.
Melhor dizendo: uma memória que se estribou uma palavra e não esqueceu.
EliminarMas, será assim que as memórias perduram?