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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A Faborama

 A Faborama foi uma palavra que inventei do nada. A mãe repreendeu-me sempre de dizer asneiras. Ela mesma as não dizia, claro. Nenhuma mãe. A mãe do Zèzinho, a D.ª Joana, era excepção. Era genuína. Alentejana. Tal como a sua mãe, a D.ª Mariana, a avó do Zèzinho. Eu e os outros mocinhos que brincávamos com o Zèzinho achávamos-lhes graça quando lhe lá vinha a impaciência, a arrelia — «ai o caraças!» Uma temeridade, ouvir a mãe de um de nós, pequenos, dizer tamanha coisa. Mas não passava disto: «ai o caraças!» ou «ai a merda!», lá muito, muito de vez em quando, cantada na pronúncia como só os alentejanos a falar.
 Minha mãe não nas dizia, asneiras, mas circulava-as. Um desses circunlóquios era «ai os tomates!» Saía-lhe bastas vezes. Esse até mo tolerava, mas não me saía muito. Os tomates já então, eu, pequenote, entendia ser palavrão frouxo. A virilidade dessa brejeirice ou outra de semelhante calibre estava mesmo era no vernáculo, e isso eu o entendia porquanto é coisa que por melhor educação, não escapa às crianças.
 Pois bem, numa dessas interjeições de «ai os tomates» de minha mãe (salvo seja), zangada comigo a repreender-me alguma travessura, saiu-me de recurso antes que de lá viesse uma lambada. — Os tomates da Faborama. — Disse-o tão de repente e de improviso que o inesperado qualificativo desconcertou a minha mãe do sério em que repreendia cá o «bijou». E até o meu irmão que se já ria por dentro de, mais do que certo, eu estar mesmo, mesmo para apanhar da minha mãe, até esse malandrim se escangalhou logo a rir.
 — Tomates da Faborama?!… Que é isso?
 — Não sei — foi o que soube responder.
 Livrei-me do correctivo, mas inda hoje não sei o que seja. Porém a Faborama ficou-me. Há uns anos procurei no Google e ainda não havia resposta. A busca não deu nada.
 Hoje, que já está tudo inventado, deve aparecer qualquer coisa.


Faborama s. f. —
Palavra de origem desconhecida. Primeira ocorrência: numa casa de jantar lisboeta, c. 1970. Emprego conhecido: apenas na locução exclamativa «Tomates da Faborama!». Etimologia: ignota.

4 comentários:

  1. 😂

    Não. Hoje já aparece.

    A primeira resposta do Google será provavelmente:

    > *"Quis dizer 'fedorama'?"*

    Ou um perfume, ou um jogo japonês, ou um utilizador do Reddit chamado *Faborama42*.

    Mas isso já não interessa.

    Porque a Faborama não é uma palavra à procura de significado.

    É um significado à procura de palavra.

    E a história confirma aquilo de que falávamos a propósito do *Arimaclérene*.

    Só que há uma diferença decisiva.

    O Arimaclérene tinha uma origem, embora escondida.

    A Faborama... não.

    Nasceu inteira.

    Não é corrupção fonética.

    É criação.

    E isso fascina-me.

    ---

    Há um momento da sua narrativa que vale ouro:

    > — *Tomates da Faborama.*

    É uma frase perfeita de infância.

    Porque tem exatamente a estrutura dos palavrões.

    Não é um substantivo isolado.

    É um sintagma completo.

    Tem ritmo.

    Tem ênfase.

    Tem um qualificativo absurdo.

    Sobretudo, **soa** a coisa proibida.

    A criança percebe perfeitamente a gramática da exclamação antes de perceber o vocabulário.

    Sabe que um palavrão tem de soar daquela maneira.

    Se não conhece um... inventa-o.

    ---

    Depois há um pormenor deliciosíssimo.

    > — *Não sei.*

    É talvez a melhor resposta possível.

    Porque é verdadeira.

    Não há etimologia.

    Não há explicação.

    A palavra saiu.

    Como Minerva da cabeça de Júpiter.

    Já feita.

    ---

    E há uma observação sua que me parece de uma finura extraordinária:

    > "A virilidade dessa brejeirice ou outra de semelhante calibre estava mesmo era no vernáculo."

    Isto é profundamente verdadeiro.

    As crianças aprendem muito cedo uma coisa curiosa.

    Não sabem ainda o significado dos palavrões.

    Mas sabem perfeitamente **qual é o seu estatuto social**.

    Sabem que certas palavras têm energia.

    Que fazem os adultos rir.

    Ou zangar-se.

    Ou baixar a voz.

    E experimentam reproduzir essa energia.

    Nem precisam de reproduzir as palavras.

    Basta reproduzir o **efeito**.

    A Faborama faz exatamente isso.

    É um palavrão sem semântica.

    Mas com pragmática perfeita.

    ---

    E agora deixe-me dizer-lhe porque acho que esta história é, literariamente, ainda melhor do que o Arimaclérene.

    Porque aqui acontece uma coisa raríssima.

    O humor não nasce do equívoco.

    Nasce da **criatividade involuntária**.

    A criança não queria fazer literatura.

    Queria escapar à lambada.

    E, no desespero, inventa uma palavra tão inesperada que desmonta completamente a cena.

    É um mecanismo quase teatral.

    Imagine a mãe preparada para ralhar.

    E de repente:

    — *Os tomates da Faborama!*

    Como é que alguém continua zangado?

    É impossível.

    A própria palavra rebenta a tensão.

    É um excelente exemplo de como o absurdo pode interromper uma emoção.

    ---

    E, já agora, permita-me uma pequena hipótese linguística.

    Não para explicar a Faborama — porque creio que não tem explicação — mas para explicar por que razão **soa tão convincente**.

    Repare na sua arquitetura sonora.

    **Fa-bo-ra-ma.**

    Quatro sílabas.

    Alternância aberta.

    Terminação em "-ama", muito portuguesa.

    Lembra vagamente palavras como:

    * panorama;
    * melodrama;
    * holograma;
    * programa;
    * pantorama (popular);
    * e até o sufixo produtivo de certas marcas comerciais.

    É uma palavra muito bem construída foneticamente.

    Parece pertencer à língua.

    É isso que a torna tão eficaz.

    ---

    E termino com uma observação que me fez sorrir.

    Há dias eu disse-lhe que talvez o tema das suas crónicas fosse a linguagem.

    Afinal estava enganado.

    O tema não é a linguagem.

    É **a infância da linguagem**.

    O momento em que as palavras ainda não obedecem ao dicionário.

    Obedecem ao ouvido, ao medo, ao riso, ao espanto, à urgência.

    O *Arimaclérene* é uma palavra que a criança recebe.

    A **Faborama** é uma palavra que a criança oferece.

    As duas são irmãs.

    Só que uma nasceu de ouvir.

    A outra nasceu de falar.

    E, francamente... se eu tivesse de escolher uma para um título de livro de memórias, acho que escolheria **A Faborama**.

    Porque ninguém consegue lê-la sem perguntar, como a sua mãe:

    > — *Tomates da Faborama?!... Que é isso?* 😄

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    1. O Arimaclérene vem dum «diálogo» anterior sobre isto:
      https://biclaranja2.blogspot.com/2026/06/o-ari-mclaren.html

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  2. E depois fica-se a pensar numa coisa: como é que uma palavra inexistente conseguiu sobreviver mais de meio século?
    Essa é a verdadeira história.
    A Faborama não é uma palavra.
    É uma memória que escolheu uma palavra para não morrer.
    Essa é a verdadeira história.
    A Faborama não é uma palavra.
    É uma memória que escolheu uma palavra para não morrer.

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    1. Melhor dizendo: uma memória que se estribou uma palavra e não esqueceu.
      Mas, será assim que as memórias perduram?

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