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sábado, 25 de janeiro de 2025

Campolide com ar português

 Muito falam para aí em integrar o que é estrangeiro. Pois, é fazer-se nosso sem que deixemos nós de ser o que somos, muito menos que passemos nós devir num qualquer outro…


 Este veículo inglês veio logo à partida com disposição para circular à direita; posto de condução e portas de entrada e saída à maneira desta terra. Foi configurado assim logo no país de origem. Sem isto nunca um português o tomaria tão naturalmente por seu.


 


Calçada da Estação, Campolide (Mike Rhodes, 1982)
Calçada da Estação, Campolide, 1982.
Mike Rhodes, in Flickr.


 


P.S.: O autocarro trabalhava com proveito geral.


 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Propaganda boa, má, ou vilã?

 A viciação dos resultados do Tubo, do Guglo e desses oráculos de agora cheira-me a esturro…
 No Tubo dá-me ideia de que toda a pesquisa aparece encimada de artistas femininos (o masculino em femininos é o plural comum de dois, para contrariar aqui um pouco…)


 Isto d' O bom, o mau e o vilão é um desses casos: o maestro é uma maestrina de franja e a solista que faz uá uá uá é uma tipa de penteado curto que assobia que até parece o gajo que assobiou o Trinitá. A soprano (lindíssima interpretação) é um caso à parte porque não é nenhum castrato (ainda lá não chegámos…)


 Não obstante, para dizer à moda da moda dos políticos das tevês, a impingem não está mal amanhada. Soa bem (o enforcado é, porém, de mau gosto…) mas (talvez por isso…) que diabo, apareceu-me quatro vezes nas primeiras dez — em 1.º, 3.º, 6.º e 8.º lugares. — Ennio Morricone, o autor do tema, apareceu só três vezes nos mesmos primeiros dez telediscos da mesma pesquisa no Tubo — em 2.º, 7.º e 10.º lugar. Pelo meio, uma versão da banda sonora original, uma chinesice em ukeleles britânicos, e uma versão da banda dos fuzileiros reais de sua majestade também britânica.


  Pode ser que seja paranóia minha e que na realidade resultado seja mesmo aleatório. Procure o benévolo leitor por good bad ugly live no euromelões do Tubo a ver se lhe sai outra melancia…


 



O Bom, o Mau e o Vilão (Ennio  Morricone)
Sarah Hicks (maestrina), Tuva Semmingsen (voz e assobio) Christine Andersen (soprano).
Orquestra Sinfónica e Coro Nacional da Dinamarca, Sala de Concertos da Rádio Nacional, 2018.


 




P.S.: aos 5m 27s e 5m 37s aparece-me no coro a modelo desta Scherza… Parece brincadeira como o mundo é pequeno.

Evangelho da diluição

 Prègar a uma nação de que se só não extingue diluindo-se com estrangeiros não é levá-la na mesma à extinção?


 


Liturgia aos portugueses para que deixem de ser, in  «Diário de Notícias», 20-22 de Janeiro de 2025.
Liturgia aos portugueses para que deixem de ser, in  «Diário de Notícias», 20-22 de Janeiro de 2025.


 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Era benzina

«Ameaça de atentado com substância tóxica na sede do governo», Sapo – Última Hora, 20/I/25
(Recorte do Sapo, 20/I/25.)



« Este governo não  ha-de cahir porque não é um edificio. Tem que sahir com benzina, porque é uma nodoa!»


Eça de Queiroz, O Conde d' Abranhos e A Catastrophe, 1.ª ed., Chardron / Lello, Porto, 1925, p. 145.


 



Cá está.


 

Missal de hoje

Passei a vista pelos jornais esta manhã e o rosário era este.


Diário de Notícias, 20/I/25


 


 No meio da cegada armada pelo carinhoso contrabando de imigrantes e da alienada produção galopante de «novos portugueses» (isto não vai parar, por isso no-lo tentam amaciar…) os portugueses naturais têm, contritos, de aturar esta m… missa do Diário de Notícias:



« O DN [sic] obteve dados estatísticos [sopraram-lhos da central de propaganda para que alardeasse recado em parangonas] que mostram que em 2023 se registou o segundo rácio [sic] mais baixo de estrangeiros detidos [afinal há contagem de estrangeiros para estatística…] pela PJ [sic] nos últimos 15 anos [… e a contagem não é de agora]. Isto quando o número de imigrantes residentes em Portugal [se são imigrantes em Portugal, residentes é redundância] superou um milhão [> 10% da população…] contra 454 mil em 2009 [< 5%, logo, aumentou para mais do dobro, fora os de que se nem sabe…]



 Há sofisma em os estrangeiros detidos serem insinuados como uma boa tendência recente (2023). Dizê-lo como segundo mais baixo é justamente porque o universo de estrangeiros em Portugal em 2023 era mais do dobro de 2009.
 Ou seja, os crimes violentos (só estes; dos outros crimes todos fico por saber)  hão certamente de ter aumentado, mas não na razão directa do aumento do número de estrangeiros, o que é apesar de tudo insinuado como bom — e não é, porque houve real aumento de crimes. —  Quanto a isto é também fácil  de conjecturar que uma maior parte de estrangeiros por aí deva, já hoje, de incluir grande dose de mulheres, filhos, pais e avós que se juntaram à primeira linha de homens que aqui têm dado à costa desde 2009. Isto para me cingir só à cronologia da missa do Diário de Notícias. Somo-lhe, porém, ainda, as mulheres que vieram cá só parir (fenómeno dos últimos, quê, 3, 4, 5 anos?) e que ficaram logo assim por «novas portuguesas» à conta duma boa-hora, e que acto contínuo juntaram o respectivo rancho familiar. Tudo gente que engrossa o universo de estrangeiros mas que por diluir a concentração da camada social de maior potencial de crime violento nem interessa levar em conta.


 Outro sofisma é a estatística invocada ser só de crimes violentos; nada de traficâncias de negreiros nem furtos de pilha-galinhas — quiçá até crimes ódio em línguas que nenhum português natural entenda e que, assim, nem existem. Só crimes violentos e deles só os contados pela Polícia Judiciária; tudo o restante, reportado (ou não) à P.S.P. ou à G.N.R. fica por saber. Ou seja, também não existe.


 Por fim, nem o idioma dos portugueses o Diário de Notícias trata bem: as siglas D.N. e P.J. haviam de levar pontos de abreviação; e «rácio» é lingua de pau; se soubessem português diriam «razão», que já os portugueses (os naturais) a tomaram do Latim há muitos séculos, muito antes até de os textos jornalísticos se tornarem por cá uma paráfrase do «amaricano».


 


Público, 20/I/25


 


 O Público, é a m… miséria do costume. O Trump da América enche a primeira página, mas só para receber ferrete de «ditador», coisa nunca vista com figurões como José Estaline, Mao Zedong, Fidel de Castro p. ex.
 «Imigrantes, clima e tarifas» são inculcas da malevolência do dito «ditador», tirano não só sobre as gentes (imigrantes), como com o mundo (clima) ou com a gente (nós, os do protectoradozinho ocidental e os outros da U.E. — tarifas).
 A tira acima do cabeçalho do pasquim é outro recado a insinuar a maldade da polícia (instituição), que mantém em serviço polícias (homens, não mulheres, subentenda-se) condenados por violência doméstica. Não é mera notícia. É uma série nova (leia-se campanha) nova, especial.
 Era necessário. A Polícia precisa de ser posta na ordem.
 Mais que dar notícias, o jornalismo do Público empenha-se a fundo na salvação do mundo pela denúncia da malvadez dos polícias em particular no seu quotidiano familiar, como da própria malvadez institucional da Polícia de Segurança Pública como agremiação dessa gente malvada.


 No fim, notícia de pé de página: o treinador do Porto arrisca demissão (i.é, ser demitido, ou despedido).
 Despedido!
 Ora estes defensores acérrimos do proletaridado, nesta notícia, nem tomam as dores do trabalhador que arrisca demissão (i.é, ser despedido, o pobre de Deus!…), nem acertam no teor da notícia, porque o vil patrão logo às 2h00 da madrugada informara ao mundo e à nação tripeira reunida em manifestação espontânea à porta do Dragom, em comunicado solene, o despedimento do trabalhador. Ora, jornalismo autêntico, noutro tempo, e paravam imediatamente as rotativas. Atrasava-se o jornal, os ardinas que esperassem, mas refazia-se a notícia e a primeira página, a bem da verdade.
 Pois, para o jornal Público, tanto faz…


 


(Recorte e pasquim ajeitados das capas de jornais do Sapo.)

sábado, 18 de janeiro de 2025

Quando as modas eram de cá e o exótico era de lá


Scenas de Maroc 7, (Gerry O' Hara, 1967).
Música de Alan Downey, Travel Theme (a), 1978.
Montagem de Soft Tempo Lounge.


 

A candidata inteira

A candidata inteira. (fotomontagem a partir do jornal «Sol», 14 e 17/I/25)
(Fotomontagem a partir do «Sol», 14 e 17/I/25.)


 

De aldrabices (i. é, mecanismos psicológicos)

Rui Lopes, «A grande [mecânica da] substituição» (ex- Saco de plástico], 17-I-25)
Rui Lopes, «A grande [mecânica da] substituição…» (Expresso [ex-Saco de plástico], 17-I-25).


 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Pelos Mártires de Marrocos, por coincidência

 Lia eu hoje de manhã no super umas páginas duma biografia de Camões e deu-se a coincidência de esta página referir o dia em que estamos.


Duma coincidência, (Leitura em 16 de Janeiro (in Isabel Rio Novo, «Fortuna, Caso, Tempo e Sorte; Biografia de Luís Vaz de Camões», Contraponto, Lisboa, 2024, p. 60)


*   *   *


 


 Tenho vindo a ler esta biografia de Camões (Isabel Rio Novo, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte; Biografia de Luís Vaz de Camões, Contraponto, Lisboa, 2024). Vou-a lendo no supermercado quando lá vou e tenho vagar, como hoje. Até agora li três capítulos. Li e estou a gostar. Mas não vou comprar o livro.


  Quando topei com este livro meio desgarrado num canto do expositor do super, peguei-lhe, folheei-o, e despertou-me interesse. Mas logo que vi que está publicado com a cacografia do governo desencantei-me. Não é para mim…


  Porque me interessou e estava com vagar, resolvi levar o livro até à cafetaria do super, tomar uma bica, ler um pedaço que talvez me desse interesse e, um pouco por despeito da má grafia, largá-lo por lá. Alguém o arrumaria de volta e caso arrumado.


 Sucedeu que o livro me pareceu bom, apesar do gómito que me dava quando tropeçava nalgum malvado vocábulo mutilado. Achei-o bem documentado; o estilo que não enjoava como tanta prosa que para aí anda; a A. argumentava razoável e convincentemente por sobre a névoa que cobre a vida de Camões; só a ortografia era esta ofensa deplorável.


 Li o primeiro capítulo e quando se fizeram horas, repu-lo afinal eu onde o achara e deixei-o. Numa futura ida ao super, com vagar, talvez o ainda achasse no mesmo canto. Continuaria a lê-lo por lá. Comprá-lo é que não.


 Quando uns grunhos, mandaretes de turno ao que resta de Portugal, legaram o idioma de Camões aos brasileiros e receberam deles uma tola e acintosa ortografia, lhe chamaram «Acordo Ortográfico», e o decretaram oficial com tanta arrogância quanta uma língua se pode recompor segundo cânone estrangeiro e decretar de novo à Nação que a criou, eu, desde aí, jurei que nunca mais na minha vida haveria de dar um ceitil por livro, jornal ou qualquer porcaria publicada com a vergonhosa cacografia dos brasileiros. E assim me mantenho.


 Hoje fui ao super com vagar e li mais um capítulo. Deu-se a coincidência de ler a página que refere os Mártires de Marrocos e o dia que lhes é consagrado, no próprio dia que lhes é consagrado.

domingo, 12 de janeiro de 2025



« […] Ressuscito pela política. Sou o Lázaro deste ministério [*]. Estive no túmulo, isto é, na solidão, o que equivale a dizer — na felicidade. Vi. Vi desfilar esta mascarada imensa, que, desde Janeiro [**] atravessa lentamente o país, rugidora e serena, flamejante e escura, tendo cabeça de deficit e atitude de imposto.»



 Deu-se há dias aquela rábula, a trasladação de Eça de Queiroz. Tinta correu (mais bits e bytes que tinta); não sei se muita, se pouca; o normal neste tempo, neste género de coisas. Normal igualmente, hoje, e com os meios, é que tantos botem opinião.
 Pois, eu também.
 Anão que sou — como os mais actores da encenação de St.ª Engrácia, de resto — ponho-me também aos ombros do gigante Eça de Queiroz, ele que me perdoe! Até porque o que de si transcrevo é doutro contexto, mas como é bom de ler e exprime o que penso do caso…
 Fica ao benévolo leitor se exprimirá também nalguma medida o que pensaria o próprio Eça.


 Em 1867, tinha 21 anos, Eça de Queiroz redigia o «Districto de Evora», jornal em que pelo meado desse ano escreveu o que cito acima e o que vem a seguir, como correspondente de Política na capital (Eça redigia sòzinho o jornal todo).



« O Governo é uma corte que é delicioso estudar: a caricatura política tem aí uma inspiração perenal.
« É uma corte completa: camarilha, cortesãos, bobos, lacaios, etc.; só a maioria daria, para preencher todos estes lugares honrosos, abundância de servidores. Tem também os seus arautos. Conheço-os para glória imarescível do meu coração. São dois. Foram ambos republicanos, no tempo em que o ser republicano rendia. Depois, compreenderam que a instituïção [sic] monárquica ainda que avara de liberdade, era abundantemente generosa de dinheiros públicos; vieram correndo, com as mãos em concha, colocar-se sob a fechadura dos tesouros monárquicos. Desde então tomaram aquela obesidade respeitável, que dá a convivência da fazenda pública.»



  É doutro tempo, mas há coisas que são perenais…


  Empreendo por fim no significado oculto do remexer mais esta vez com Eça de Queiroz no túmulo — trasladado que foi de Paris para o Alto de S. João em 1900, quando morreu; trasladado outra vez em 1989 de Lisboa para Santa Cruz do Douro, pelo estado de ruína de seu jazigo. E agora o fetiche destes mandaretes de turno em trazer o escritor para a igreja de St.ª Engrácia, a que só chamam panteão, cuido, por capricho de avental…
 Não sei se por isto que se me insinua no espírito, se por simples e descarada promoção pessoal e política — alguém me elucide — porque, pois, me parece que teria o mesmo efeito ao propósito enunciado e que está bom de ver, um mero cenotáfio com cerimónia oficial igual à levada a cabo na circunstância agora de se autopromoverem as figuras de pacotilha que se lá acharam, não havendo nenhuma necessidade de se lambuzarem com os restos mortais do próprio Eça de Queiroz.


 




[*] Modernamente diz-se governo.
[**] De 1867. Mas aqui, agora, em Janeiro de 2025, podemos pôr Tormes, ou Santa Cruz do Douro.


Excertos: Eça de Queiroz, Districto de Evora, [Mai.-Jul.], 1867, apud João Gaspar Simões, Vida e Obra de Eça de Queirós [sic], 3.ª ed., Bertrand, Amadora, 1980, pp. 154-155.
Fotografia: Eça de Queirós [sic], c. 1868. Henrique Nunes, in B.N., FEQ, Fot. 26, 2000.


 

sábado, 11 de janeiro de 2025

Hidroaviões em Lisboa


 Hidroaviões em Lisboa, Abril de 1943
Excerto de Spielberg, Lisboa, Encruzilhada da Europa, in U.S.H.M.M.,
com fundo musical de Halfdan E. & Jeppe Kaas, Amanda, «Badehotellet» (banda sonora), 2015.


 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Digno de Nobel

O Ano da Morte de Ricardo Reis / José Saramago. — [Porto] : Público, imp. 2002. — 351 p.; 22cm. — Colecção Mil Folhas, 2
O Ano da Morte de Ricardo Reis / José Saramago. — [Porto] : Público, imp. 2002. — 351 p.; 22cm. — Colecção Mil Folhas, 2.


 




 


 Li-o já no Verão de 23.


 O livro tem uma atmosfera densa, pesada, melancólica. Algo que pende dum ambiente de chumbo. Este contraste com o tempo estival leve e luminoso em que fui lendo fez-me com que a sensação da leitura se não encaixasse bem. Eis aqui uma forma de sentir a experiência da leitura, não só pela narrativa, mas pelo contexto emocional e até climático que ela evoca.
 O caso é que se chega a meio do livro e não pára de chover. Vai-se de Dezembro de 1935 a Abril ou Maio de 36 nisto. A chuva persistente pode bem ser muito boletim meteorológico sorvido pelo A. em jornais velhos para escrever um romance, mas, conhecendo a saramagal figura, é mais certo ser metáfora ao regime.
 Tempo cinzento…
 Metáfora maior, independente do estado do tempo: quem não tem nada para dizer, acaba a falar do tempo.


 Pela narrativa — uma frase de 350 páginas com muitas vírgulas até ao ponto final — corre muito mais este tempo chuvoso de que o tempo da acção. Uma pesporrência de palavras, frases de pensamento disperso, reflexões avulsas, abundantes, triviais. Tanto podiam estar neste livro como noutro qualquer. Enchem quaisquer páginas. Podem chover em qualquer romance.
 O tom é sorumbático, polvilhado de imagens de gosto duvidoso:
 O colchão onde D.ª Luísa perdeu a virgindade (p. 184). Grosseiro!
 A impotência de Ricardo Reis. Sórdido!
 A cena em que Lídia diz que está grávida, outra vez de mau gosto.
 A cena do beijo a Marcenda, tão analítica e taciturna como, no fundo, a cachola do A., filósofo de tudo e de nada separado por vírgulas.


 A prosa trombuda é ainda salpicada de humor sisudo. Prosa de humores, melhor dizendo, a passar recado antifascista nas entrelinhas. Uma missa que se torna enjoo.
 Quando os espanhóis se põem em fuga depois dumas eleições que deram a vitória ao republicanos, ironiza o A. com um conselho de ministros realizado nas termas do Estoril, para lidar com a horda de espanhóis nacionalistas que chegam a Portugal.
 Ironia funda, saramagalmente cavada num jornal velho…
 O cenário das «termas do Estoril» para acolher os refugiados espanhóis em fuga ao comunismo parece um exagero, mas denota ela bem a sensação dum A. cheio de azia por tal situação política.
 A ironia pode ser faca de dois gumes.


 Assim como jogar com as palavras…
 Nunca consegue o A. bem escrever a P.V.D.E. Nem a sigla, nem por extenso com as maiúsculas iniciais. Só consegue redigi-la em minúsculas.
 Que grande trauma!
 E, pois, o Vítor da Secreta cheirava a cebola. À distância.
 Cheira-se o Saramago!


 De o A. não pontuar a preceito já todos notaram. Duvido que não soubesse pontuar decentemente a escrita. Dava-lhe era talvez preguiça. Preguiça arrogante porquanto complica a leitura e, com tal, despreza o leitor.


 Quando o não despreza toma-o por parvo. A si, benévolo leitor que o leia.
 Sobre a Mocidade Portuguesa, diz do S no cinto: S de servir e de Salazar; de servir Salazar.
 Percebe-se onde pretende chegar: SS.
 Sai-lhe pela culatra a colagem aos alemães nazis, aliados dos Soviéticos no retalho da Polónia em 39…


 O episódio do «Mouraria» é mais uma cena lúgubre. Foi o dito a enterrar em 13 de Fevereiro de 36. Vê-se que viu o A. mais do que o tempo nos jornais velhos, mas, lá mais para trás, em Dezembro de 35, compõe uma cena com os barcos Douro, Tejo e Dão fundeados no Tejo.
 Ora o Douro só foi entregue à Armada pelo Carnaval de 36. — Deve ter vindo no jornal!…


 A pp. 257 enfia-se o A. no livro. Vai de comboio. O comboio pára em Mato Miranda. Desce. A avó, do beijo-bicada, foi buscá-lo à estação. Nisto se desmarca de devoções e peregrinações. Cuida-se cheio de graça. Dá dois ou três relances: levantava a saia às raparigas, atirava pedras às rãs e fugia para o rio Almonda.
  O comboio seguia cheio de peregrinos a Fátima.



«Não houve milagres. A imagem saiu, deu a volta e recolheu-se. Os cegos ficaram cegos, os mudos sem voz, os paralíticos sem movimento, aos amputados não cresceram membros, aos tristes não diminuiu a infelicidade e todos em lágrimas se recriminaram assim: — Não foi bastante a minha fé. Minha culpa, minha máxima culpa.» (p. 267.)



 Nisto e no mais desdenha em tom de arrogante ressaibo que é tudo o que se lhe conhece.


 E contudo, ter enfiado o defunto Pessoa numa história com um heterónimo foi de rasgo. Dá-nos é um Ricardo Reis com a cabeça cheia das ideias do Saramago. Melhora a conversa (e a leitura) quando Reis dialoga com Pessoa porque lhe foge certo ranço saramaguenho. Mas é excepção. No meio e quase sempre há um rancoroso divagar sobre notícias, jornais, tipos e personagens segundo o missal do A.


 O maior feito do A. neste livro foi escrever Oliveira Salazar com inicial maiúscula. E deve tê-lo mesmo escrito assim porque quem lho publicou, se lhe na revisão não emendou uma vírgula, por que lhe haveria de corrigir este somenos? Um feito: Saramago escrever Oliveira Salazar com inicial maiúscula. Digno de Nobel!…


 

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Duns borrachos

 Anteontem choveu de noite. Não sei se foi muito, foi o bastante…


 Um par de borrachos que nasceram antes do Natal e cujo ninho os progenitores fizeram num vaso com terra que tínhamos ali numa sacada, fui dar com eles mortos na manhã de domingo. O vaso deve a folhas tantas ter-se enchido de água com a chuva da noite. O bordo era meio alto para os bichos ali. Começavam a ganhar penas mas não tinham idade nem arcaboiço para se safarem por si. Todavia um deles era aguerrido: quando cheguei perto a regar umas plantas, emproou-se; encheu tanto o peito ainda penugento que parecia um balão prestes a reventar; com uma asa por sobre o irmão mais fracote que nem se mexeu, e todo emproado, ainda desferiu uma boa bicada no bico do regador. Uma épica batalha de bicos, foi…


 Mas eram só pombos, não patos. Afogaram-se, foi o que me pareceu. Deram-me os bichos certa pena, a mim e à senhora, mas o chiqueiro que havia já naquele vaso e em redor desde que fizeram para ali o ninho era uma imundície desgraçada. 


 Paciência!


 Os pais (um deles — o macho? — tem as penas da cabeça no ar que parece um punk) nem sinal deles nessa manhã. Agora, ontem e hoje, deram em rondar-nos a sacada e para ali andam meios baralhados, á procura.


 


Pombo na sacada, S. Jorge de Arroios — © 2010
Pombo na sacada, S. Jorge de Arroios — © 2010


 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Bach: Cantata 151, «Doce consolação, meu Jesus veio» (ária)


João Sebastião Bach — Cantata BWV 151, «Süßer Trost, mein Jesus kömmt» (1725).
Dinis de Sousa (maestro), Ana Quintans (soprano), Orquestra XXI.
Concerto de Natal, Igreja de Santa Maria de Leça do Balio, 2020.

sábado, 4 de janeiro de 2025

Ai, Lisboa!…

 Ai, Lisboa! Tu a deixares de ser e inda sendos porque….



— Olhe! Em a gente se habituando ao bacalhau cozido, não há nada que tome o seu lugar.



 



Amália, Ai Lisboa (José Galhardo, Frederico Valério, 1956, in Amália Secreta 1953-1958, Tradisom, 2009»),
sobre cenas d' Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963).


 


 Ai Lisboa, já não és. A nau Portugal naufragou!…
 Feliz ano de 25, se possível…