Lia eu hoje de manhã no super umas páginas duma biografia de Camões e deu-se a coincidência de esta página referir o dia em que estamos.
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Tenho vindo a ler esta biografia de Camões (Isabel Rio Novo, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte; Biografia de Luís Vaz de Camões, Contraponto, Lisboa, 2024). Vou-a lendo no supermercado quando lá vou e tenho vagar, como hoje. Até agora li três capítulos. Li e estou a gostar. Mas não vou comprar o livro.
Quando topei com este livro meio desgarrado num canto do expositor do super, peguei-lhe, folheei-o, e despertou-me interesse. Mas logo que vi que está publicado com a cacografia do governo desencantei-me. Não é para mim…
Porque me interessou e estava com vagar, resolvi levar o livro até à cafetaria do super, tomar uma bica, ler um pedaço que talvez me desse interesse e, um pouco por despeito da má grafia, largá-lo por lá. Alguém o arrumaria de volta e caso arrumado.
Sucedeu que o livro me pareceu bom, apesar do gómito que me dava quando tropeçava nalgum malvado vocábulo mutilado. Achei-o bem documentado; o estilo que não enjoava como tanta prosa que para aí anda; a A. argumentava razoável e convincentemente por sobre a névoa que cobre a vida de Camões; só a ortografia era esta ofensa deplorável.
Li o primeiro capítulo e quando se fizeram horas, repu-lo afinal eu onde o achara e deixei-o. Numa futura ida ao super, com vagar, talvez o ainda achasse no mesmo canto. Continuaria a lê-lo por lá. Comprá-lo é que não.
Quando uns grunhos, mandaretes de turno ao que resta de Portugal, legaram o idioma de Camões aos brasileiros e receberam deles uma tola e acintosa ortografia, lhe chamaram «Acordo Ortográfico», e o decretaram oficial com tanta arrogância quanta uma língua se pode recompor segundo cânone estrangeiro e decretar de novo à Nação que a criou, eu, desde aí, jurei que nunca mais na minha vida haveria de dar um ceitil por livro, jornal ou qualquer porcaria publicada com a vergonhosa cacografia dos brasileiros. E assim me mantenho.
Hoje fui ao super com vagar e li mais um capítulo. Deu-se a coincidência de ler a página que refere os Mártires de Marrocos e o dia que lhes é consagrado, no próprio dia que lhes é consagrado.

Os marroquinos lá tinham as suas manias.
ResponderEliminarNão faziam mal a cristãos portugueses, só não podiam ser missionários.
Cumpts.
Ainda agora! A mesma atitude que lhes vejo todos os dias ali à esquina. Nem os vejo fazer mais nada.
ResponderEliminarE os portugueses que passam diariamente não são missionários. Só quando vêm nas manifestações…
Cumpts.
Neste caso, deve escrever-se "súper".
ResponderEliminarTalvez.
ResponderEliminarCumpts.
É mesmo. "Súper" é redução de "supermercado", e sem o devido acento, terá pronúncia errada na última sílaba, quando na verdade é uma palavra grave. O mesmo se passa com "híper". Ambas estão nos dicionários.
ResponderEliminarPode ser. Mas que me diz da incoerência de super e hiper como prefixos sem acento quando se não aglutinam com o elemento seguinte, como super-homem ou hiper-reactivo? Não haveriam de ter pronúncia errada nestes casos também?
ResponderEliminarOu são super e hiper rebuscado preciosismo se substantivos, e perfeito descaso se prefixos?
Cumpts.
Nao, não se trata de preciosismos. "Super" e "hiper" são os chamados pseudoprefixos, de origem latina e grega, respectivamente, e nunca surgem isolados assim escritos. Quando necessariamente associados a outras palavras, passam a fazer parte integrante delas, daí que a pronúncia já seja a da palavra como um todo. Apenas "súper" e "híper" merecem acento quando em referência às formas reduzidas a que já aludi. Espero ter esclarecido. Em todo o caso, basta consultar um dicionário para perceber.
ResponderEliminarEsclarecer, esclarece. Convencer-me, eu, é já outra história. Nem com dicionários, essas tábuas de leis da nova língua de pau onde toda a ganga lexical dos bárbaros floresce com o simples argumento de que se o cada vez mais iletrado indígena bolçou, cauciona-se; ou sem argumento nenhum que se entenda como no caso do aberrante rombo do icebergue do dicionário da do sr. Casteleiro.
ResponderEliminarSuper também vive como adjectivo na gasolina, que me lembre. Talvez a enriquecesse mais com o tal acento, mas não me parece.
Já hyper com i grego seria sem dúvida muito superior.
Cumpts.
Acha mesmo que em "gasolina super", esse "super" é uma redução de "supermercado"? Ora, ora. Nas designações comerciais vale tudo, até palavras como "cêgripe", com acentuação que contraria a pronúncia que aparece nos anúncios. Nos bons dicionários pré-aborto ortográfico encontrará com certeza "súper" e "híper" (as palavra em apreço nem sequer foram tocadas por essa aberração). Mas bem, uma pessoa tenta elucidar, explicar, esclarecer, iluminar humildemente, mas leva com... coisas. Vá ao Linguagista, talvez assim fique convencido.
ResponderEliminarHaja calma, p.f.!
ResponderEliminarPonto de ordem.
A gasolina super claro que não tem que ver com super, forma reduzida e popular de supermercado. Mas no caso, super é atributo da gasolina, ou não? E bem assim, tem vida própria como adjectivo nessa designação de produto, que é mais do que mero nome comercial. Ora, porque lhe não propõe V. acento neste caso?
Depois, vejo que me remete canònicamente para a autoridade dos dicionários (felizmente dos bons, anteriores ao último acordo ortográfico; a autoridade do Guégués dispenso…). Pois bem, diga-me um desses bons dicionários de antes de 2010 onde esteja o verbete super como forma reduzida e popular de supermercado, porque os poucos que tenho à mão (5.ª ed. da Porto Editora; Lello Prático Ilustrado, 1976; Grande Dicionário Enciclopédico Ediclube, 1996 e; Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Confluência/Livros Horizonte, 2002) todos ignoram super (ou súper, se quiser) como forma abreviada de supermercado e apenas indicam super como prefixo.
Por fim, até que ponto é que super, como forma reduzida ou abreviada de supermercado deixa de ser um mero prefixo? Mero prefixo que, neste caso particular vem popular e coloquialmente omisso do seu composto?
A meu ver é isto.
Cumpts.