![O Ano da Morte de Ricardo Reis / José Saramago. — [Porto] : Público, imp. 2002. — 351 p.; 22cm. — Colecção Mil Folhas, 2](https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/S/compressed.photo.goodreads.com/books/1492781366i/6480700.jpg)
O Ano da Morte de Ricardo Reis / José Saramago. — [Porto] : Público, imp. 2002. — 351 p.; 22cm. — Colecção Mil Folhas, 2.
Li-o já no Verão de 23.
O livro tem uma atmosfera densa, pesada, melancólica. Algo que pende dum ambiente de chumbo. Este contraste com o tempo estival leve e luminoso em que fui lendo fez-me com que a sensação da leitura se não encaixasse bem. Eis aqui uma forma de sentir a experiência da leitura, não só pela narrativa, mas pelo contexto emocional e até climático que ela evoca.
O caso é que se chega a meio do livro e não pára de chover. Vai-se de Dezembro de 1935 a Abril ou Maio de 36 nisto. A chuva persistente pode bem ser muito boletim meteorológico sorvido pelo A. em jornais velhos para escrever um romance, mas, conhecendo a saramagal figura, é mais certo ser metáfora ao regime.
Tempo cinzento…
Metáfora maior, independente do estado do tempo: quem não tem nada para dizer, acaba a falar do tempo.
Pela narrativa — uma frase de 350 páginas com muitas vírgulas até ao ponto final — corre muito mais este tempo chuvoso de que o tempo da acção. Uma pesporrência de palavras, frases de pensamento disperso, reflexões avulsas, abundantes, triviais. Tanto podiam estar neste livro como noutro qualquer. Enchem quaisquer páginas. Podem chover em qualquer romance.
O tom é sorumbático, polvilhado de imagens de gosto duvidoso:
O colchão onde D.ª Luísa perdeu a virgindade (p. 184). Grosseiro!
A impotência de Ricardo Reis. Sórdido!
A cena em que Lídia diz que está grávida, outra vez de mau gosto.
A cena do beijo a Marcenda, tão analítica e taciturna como, no fundo, a cachola do A., filósofo de tudo e de nada separado por vírgulas.
A prosa trombuda é ainda salpicada de humor sisudo. Prosa de humores, melhor dizendo, a passar recado antifascista nas entrelinhas. Uma missa que se torna enjoo.
Quando os espanhóis se põem em fuga depois dumas eleições que deram a vitória ao republicanos, ironiza o A. com um conselho de ministros realizado nas termas do Estoril, para lidar com a horda de espanhóis nacionalistas que chegam a Portugal.
Ironia funda, saramagalmente cavada num jornal velho…
O cenário das «termas do Estoril» para acolher os refugiados espanhóis em fuga ao comunismo parece um exagero, mas denota ela bem a sensação dum A. cheio de azia por tal situação política.
A ironia pode ser faca de dois gumes.
Assim como jogar com as palavras…
Nunca consegue o A. bem escrever a P.V.D.E. Nem a sigla, nem por extenso com as maiúsculas iniciais. Só consegue redigi-la em minúsculas.
Que grande trauma!
E, pois, o Vítor da Secreta cheirava a cebola. À distância.
Cheira-se o Saramago!
De o A. não pontuar a preceito já todos notaram. Duvido que não soubesse pontuar decentemente a escrita. Dava-lhe era talvez preguiça. Preguiça arrogante porquanto complica a leitura e, com tal, despreza o leitor.
Quando o não despreza toma-o por parvo. A si, benévolo leitor que o leia.
Sobre a Mocidade Portuguesa, diz do S no cinto: S de servir e de Salazar; de servir Salazar.
Percebe-se onde pretende chegar: SS.
Sai-lhe pela culatra a colagem aos alemães nazis, aliados dos Soviéticos no retalho da Polónia em 39…
O episódio do «Mouraria» é mais uma cena lúgubre. Foi o dito a enterrar em 13 de Fevereiro de 36. Vê-se que viu o A. mais do que o tempo nos jornais velhos, mas, lá mais para trás, em Dezembro de 35, compõe uma cena com os barcos Douro, Tejo e Dão fundeados no Tejo.
Ora o Douro só foi entregue à Armada pelo Carnaval de 36. — Deve ter vindo no jornal!…
A pp. 257 enfia-se o A. no livro. Vai de comboio. O comboio pára em Mato Miranda. Desce. A avó, do beijo-bicada, foi buscá-lo à estação. Nisto se desmarca de devoções e peregrinações. Cuida-se cheio de graça. Dá dois ou três relances: levantava a saia às raparigas, atirava pedras às rãs e fugia para o rio Almonda.
O comboio seguia cheio de peregrinos a Fátima.
«Não houve milagres. A imagem saiu, deu a volta e recolheu-se. Os cegos ficaram cegos, os mudos sem voz, os paralíticos sem movimento, aos amputados não cresceram membros, aos tristes não diminuiu a infelicidade e todos em lágrimas se recriminaram assim: — Não foi bastante a minha fé. Minha culpa, minha máxima culpa.» (p. 267.)
Nisto e no mais desdenha em tom de arrogante ressaibo que é tudo o que se lhe conhece.
E contudo, ter enfiado o defunto Pessoa numa história com um heterónimo foi de rasgo. Dá-nos é um Ricardo Reis com a cabeça cheia das ideias do Saramago. Melhora a conversa (e a leitura) quando Reis dialoga com Pessoa porque lhe foge certo ranço saramaguenho. Mas é excepção. No meio e quase sempre há um rancoroso divagar sobre notícias, jornais, tipos e personagens segundo o missal do A.
O maior feito do A. neste livro foi escrever Oliveira Salazar com inicial maiúscula. E deve tê-lo mesmo escrito assim porque quem lho publicou, se lhe na revisão não emendou uma vírgula, por que lhe haveria de corrigir este somenos? Um feito: Saramago escrever Oliveira Salazar com inicial maiúscula. Digno de Nobel!…
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