Quem não tem que dizer fala do tempo. Ou fala barato…
Logo de madrugada temos a senhora da hora. Muda a hora de Verão, aquela que gostamos mais, mas que, poucos saberão, é a mais adeantada da nossa hora solar. Mesmo a hora de Inverno, em que anoitece cêrca das 5 da tarde, é a hora de Greenwich, na Inglaterra, não a hora portuguêsa. São quási 40 minutos de adeantamento ao fuso horário de Portugal. O que significa que no Inverno, pela nossa hora solar, haveria de amanhecer pelas 7 e meia e anoitecer pelas 4 e meia da tarde. — Hora solar, não esqueçais! Coisas do passado, dum mundo rural regido pelo Sol e o sino da igreja. A República Portuguêsa tratou dêle…
Em Portugal a hora legal largou do fuso próprio e do Observatório da Ajuda para alinhar por Greenwich em 1912, salvo êrro. Afinou em horas de Inverno e de Verão, como era lá fora na Europa, no ano 1916. Salvas umas hesitações em 22, 23, 25, 30 e 33 e um soluço de 42 a 45, a coisa foi andando. De 66 a 76 deixou de ir. Ficou a hora de Verão, sem afinar pela hora de Inverno como era lá fora na Europa. Uma heresia (heresia então, porque agora…) resolvida logo que houve tempo de pensar em ninharias, ao depois de alijar o Ultramar e se remediar o Portugalinho e ilhas na senda da Europa e do futuro. Risonho!…
No tempo do Cavaco o futuro sorriu mais. Sorrimos todos, para não chorar. A hora legal portuguêsa ficou quási 3 horas adeantada. Lisbôa afinou pela hora de Varsóvia. O Sol punha-se pelas 11 da noite.
De há pouco tempo querem os de lá fora na Europa fazer como os portuguêses de há mais ou menos 50 anos e permanecer na hora de Verão. Parece que em vindo dêles, de lá fora na Europa, já é moderno, scientífico, até natural e biológico, se vamos lá de fazer caso das creancinhas na escola e do bem que faz à saúde…
A saúde…
Agora do tempo — o que faz, não o que se mede —, segundo vi no ex-Instituto de Meteorologia, em passando a chuva destes dias vem frio. Vale a notícia o que vale, que é tempo de Outono. Mais vale pelo alarme, o alarmismo. Vamos para Novembro mas, no mundo de jogos de computador em que se esta civilização de recreio de escola infantilizou, são dois fins do mundo: um fim do mundo por frio em Novembro a seguir ao fim do mundo por chuva em fim de Outubro. Ou o fim da macacada. Havemos de nêle acabar todos cheios de saúde, vacinados contra a chuva, o frio e alarmados da trovoada e do vento em geral. Só contra o medinho é que não há remédio, nem com todas as vacinas juntas, mai' las focinheiras. Mas, lá será, viver apavorado é, crêem os govêrnos e os povos agora, uma vida melhor do que morrer de mêdo.

Mulher com bilha à cabeça e cavador de enxada ao ombro, E.N. 249 a Queluz, [s.d.].
Mário de Novaes, in bibliotheca d' Arte da F.C.G.