Não sei quando começou final, adjectivo, a baralhar-se com fim, substantivo. O Aulete de 1881 (1.ª ed.) já dá final como substantivo masculino com sentido de fim, cabo, termo ou desfecho. Ou gran finale…
A coisa, de feito, parece-me ter partido do teatro e da ópera para designar o desfecho dramático duma ária ou dum acto. No Primo Bazilio Eça restringe-o justamente a «o final da Traviata»; Julio Diniz também o pôs na Morgadinha «ao final da scena», «n'este final de monologo» e, num «Bonito final d' acto!» na Familia Ingleza; Camillo incorre no passo duas vezes seguidas com «o final da sentença» na Viuva do Enforcado; nas Viagens, Garrett abre o capítulo XXXIX com «O final do capitulo precedente é» &c.
Bem vê o benévolo leitor o contexto cenográfico, incluída a sentença de Camillo como desfecho dum acto, no caso, judiciário.
Mais a descaso (ou com mais amplitude) temos Fialho n' Os Gatos, mas, ainda no séc. XIX, em autores brasileiros, digamos que a amplitude é mato. É de lá que vem…
O caso hoje é que, de adjectivo, final se já não baralha com fim, substantivo. Substituiu-o, tomou-o e suprimiu-o, como substantivo; ou para aí caminha.
Ouça o benévolo leitor à sua volta. Leia a imprensa.
O fim do dia já é praticamente só o final do dia.
O fim da semana, que não na saudação bom fim-de-semana! (lá chegaremos), é a toda a hora, de manhã ao fim da tarde, no início, a meio ou ao fim-de-semana, final de semana.
O fim do mês já vai sendo mais e mais tomado pelo final do mês.
Cuido se vá salvando o fim de ano, mas nem sei…
Vejo e oiço o fim de qualquer coisa sumir-se pelo final de tudo e pregunto-me: — Pois por que diabo se não sumirá o início de uma coisa qualquer pelo inicial de nada?! — Mas que falta de simetria!

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