A proliferação de Marias deu em que as Marias deixassem bem de o ser e se tornassem noutrem; por composição, primeiro, tornaram-se em Maria de qualquer outro nome, com ou sem aglutinação, aférese ou apócope: Mariana, Mari' Mília, Mari' Zabel, Mari' Luísa, Mari' Joana, Maria Antónia, Maria Amélia — as Amélias, se as hoje houver, hão-de ter tamanha extravagância ou tais teias de aranha como aparições duma noute centenária…— Em fim, o que seja.
Ao depois e, pela lei do menor esforço, vieram as Marias a omitir-se cada vez mais e as Marias de qualquer outro nome deram em ser sòmente de qualquer outro nome. Com tudo isto, pois, as qualquer coisa Marias também; as Cristinas Marias ou as Isabéis Marias nunca chegaram em muita verdade a ser alguma vez Marias; muitas mesmo, sequer Cristinas ou Isabéis; antes Tininhas ou Belas, quando muito.
De tanto ser-se Maria, por conseguinte, quem houvera de ser Maria não haveria de poder ser Maria de mais nada nem nada mais Maria. Necessàriamente, haveria de ser simplesmente Maria, como o nome daquele folhetim radiofónico do tempo em que devia ainda haver Amélias. De feito veio a notar-se lá pelos anos 90, salvo erro, ou talvez mais na volta de 2000, quando por devoção ou talvez mais por chiqueza, as Marias reapareceram como crianças de boas famílias. Eram simplesmente Marias. Mas apareceram e desapareceram como as touradas em todas as televisões por esses anos: deixaram de ser moda.
Hoje essas crianças Marias cresceram e não sei que modas há; talvez nenhuma, que ele agora é mais tendências. É o que noto nas Anas. Deixam já de ser simplesmente Anas para serem quási sempre Anas qualquer coisa: Anisabéis, Anas Paulas, Anas Ritas, Anas Teresas… Começou talvez com as Anas Marias que, ao contrário das Tininhas e das Belas, pouco deixam de ser Marias para serem só Anas e nem nunca deixam de ser Anas para serem só Marias.

Marias, de qualquer coisa ou, por extensão semântica, num landó, Portugal, [s.d.].
Carlos Alberto Lima, in archivo photographico da C.M.L.
(Revisto no sábado ao quarto para o meio-dia.)
Engraçada esta história da Marias!
ResponderEliminarSou do tempo em que lá em casa Maria era a "criada de dentro" (sopeira)!
Abraço,
Abraço.
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