Aretha Franklin, Don't Play That Song For Me
(Cliff Richard Show, 1970)
domingo, 31 de janeiro de 2010
sábado, 30 de janeiro de 2010
Do canibalismo arquitectónico
« Pergunto-me a mim, como é que num país em que se constrói mais do que se consegue vender, porque é que não travam a construção nova e se dedicam ao restauro? Porque é que se desvalorizam autênticos tesouros em troca de pesadelos arquitectónicos? Porque é que não protegem o nosso património e gastam somas exorbitantes em projectos efémeros e de utilidade duvidosa?»
Gastão de Brito e Silva, Ruin'Arte, 28/1/2010.
Palácio das Obras Novas, Vala da Azambuja, 2007.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Planta da Real Quinta de Caxias
Levantada pelo capitão engenheiro J. A. de Abreu, vogal secretário da Comissão do Tombo dos Bens da Coroa, em 1844.
Notai como curiosidade que a ribeira de Barcarena não corria como hoje, direita ao Tejo após a ponte da Estrada de Paço de Arcos, serpenteando antes para nascente e indo desaguar além do forte de São Bruno.
Litografia de A. C. Lemos, 1844. - 1 pl. : color. ; 79 x 58 cm.
domingo, 24 de janeiro de 2010
A Alameda
Em Novembro de 2005 dei aqui conta do arranjo da fonte da Alameda. Parece-me que vai já para dois anos que não funciona. Passear por lá é, aliás, pouco seguro – e muito menos à noite.
Num regime prenhe de aeroportos e comboios de proporções bíblicas a fonte da Alameda é um diluviozinho sem interesse. De mais a mais edificado pelo lado errado da República...
Fonte luminosa, Alameda de Dom Afonso Henriques, post 1948.
Horácio de Novais, in Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian.
Fonte luminosa
Fonte monumental inaugurada em 30 de Maio de 1948, localizada na Alameda Dom Afonso Henriques.
Autores do projecto: Carlos Rebelo de Andrade e Guilherme Rebelo de Andrade.
Escultores: Diogo de Macedo, Maximiniano Alves.
Ceramista: Jorge Barradas.
Fotógrafo: Horácio Novais (1910-1988).
Data de Produção da fotografia original: posterior a 1948.
(In Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian.)
Minuto verde
Este hábito dos doutores da comunicação forrarem o léxico com ganga importada devia tornar-se mais higiénico. Sugiro-lhes daqui um Palavrão... para depositarem detritos lexicais caídos de maduros como bando ou quadrilha. Podem adicioná-lo aos ecopontos a par do pilhão, devido ao ácido.
(Recorte na 1ª pág. do Sol, 24/1/2010.)
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Os pintos dourados
Não me abona dizê-lo mas quis ouvir as conversas dos pintos dourados para gozar a certeza que tenho da trafulhice do fenómeno desportivo (leia-se bola). A chafurdice, porém, é bem pior do que eu a fazia; tanto que ainda me chegou a surpreender o nível dos figurões. Não o imaginava tão reles.
Percebe-se bem nas conversas que os galos da bola metem muito respeitinho e que os árbitros são apenas pajens acagaçados. E outros que o parecem também ser são esses pretensos pavões do comentário que nas TV se levam a si mesmos tão à séria. Pois até agora não nos ouvi mais que grasnar sobre se é legal ou deixa de ser legal as 'cutas terem fugido para a Net – uma bizantinice para entreter o pagode. Sobre o conteúdo das conversas – ou das 'cutas, como eles o entoam – nem um pio. Mais dourados ou menos dourados, parecem-me todos eles pintos duma certa cultura de aviário. Se desdouram, nem a galinhas chegam.
(Pintaínho enquadrado através do Google)
5 andares na Casal Ribeiro é pouco
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Jogos Santa Casa
Provérbio de dias maiores
A 20 de Janeiro tem uma hora por inteiro e, quem bem souber contar, hora e meia lhe há-de achar.
Companhia das Lezírias, Ribatejo, [s.d.].
Fotografia: Estúdio de Mário de Novaes, in Biblioteca de Arte da F.C.G..
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Quinta da Matinha (notas avulsas)
Segundo Ralph Delgado, antiga do Braço de Prata (A Antiga Freguesia dos Olivais, [s.n]. Lisboa, 1969, p. 29). Na Lisboa de Lés a Lés (vol. II, 2.ª ed., p. 222 e ss.) lê-se que foi propriedade de António de Sousa de Meneses, de alcunha o Braço de Prata, por ter perdido o braço direito duma canhonada dos holandeses em Pernambuco (Itamaracá, 1638). Passou então a usar um braço postiço de prata e acabou por legar a alcunha à quinta do lugar de Nossa Senhora dos Olivais (quinta do Botol ou Rotol Older, um súbdito inglês que a perdeu por dívida...) que fora doada a seu pai, Francisco de Sousa de Meneses, copeiro-mor do Cardeal D. Henrique e de D. Filipe I.
Instituiu em 1683 morgado destas quintas dos Olivais (Matinha ou do Braço de Prata) e do seu palácio de Santa Apolónia (pertença hoje da companhia dos Caminhos de Ferro). O morgado veio a passar sucessivamente aos descendentes de suas irmãs, D. Mariana, D. Margarida e D. Maria Henriques. A história da sucessão no morgado vem no 1.º vol. do Caminho do Oriente: Guia Histórico, quando se refere o palácio de Santa Apolónia
Da quinta da Matinha mantêm-se umas casas na Rua do Vale Formoso de Baixo, nos 124-132 que foram do pessoal da antiga fábrica do gás. A quinta teve instalada no séc. XIX uma fábrica de cortiça; depois fez-se a fábrica do gás (que sucedeu à de Belém) que começou a laborar em Novembro de 1943, embora inaugurada em 1944 (M.ª de Fátima Jorge, «Fábrica de Gás da Matinha», in A.P.A.I., Arqueologia & Indústria, n.º 2/3, 1999).
O complexo da Matinha, juntamente com as refinarias da Sacor no Cabo Ruivo, foi desactivado aquando da Expo 98. Subsistem algumas estruturas industriais tidas de interesse arqueológico. A urbanização destes terrenos da Matinha está na calha.
Uma perspectiva contemporânea de contraponto possível ao pitoresco da imagem pode ser colher-se nas vistas de rua do Google.
Litogravura: Archivo Pittoresco, t. VII, 1864.
(Revisto em 23/IX/20.)
domingo, 17 de janeiro de 2010
Lisboa: praia de Madrid...
... jovens surfistas com mar flat
... produção de ondas artificiais para prática de surf
... alicerces da futura estação do T.G.V. sobre a praia
... vista do hotel de charme sobre a praia
... acessibilidades antes do T.G.V.
... hotel de charme
... turismo de habitação
... hostal de la juventud
Fotografias: Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
sábado, 16 de janeiro de 2010
Da virtual realidade
Anteontem, num desses incontáveis programas onde se badala à tripa-forra sobre a bola, o penalty e o árbitro, destacavam em rodapé: Drama no Leixões: jogador haitiano Jean Sony sem notícias da família. É um drama, sim, para o jogador, para a família e, por extensão, para os desafortunados haitianos. Mas traduzir uma desgraça assim num título Drama no Leixões exprime uma noção muito particular da realidade que não ultrapassa um horizonte de recreio de colégio.
Ia dizer que isto é mera coisa de jornalistas de jardim-escola, não fora este ilusório entendimento da realidade ser tão generalizado que o vejo irreflectidamente alardeado da baixa à alta vilanagem. Qualquer folhear dum jornal de ontem dá inúmeros exemplos sonantes, desde tegevês para surfistas, pandemias de vacinas, auto-estradas para lugares ermos, sardinha com certificação sustentável ou até as funções públicas de alto relevo do incubado dr. Pedro Lopes.
Ainda assim estes exemplos, para lá do malbaratar absurdo de recursos por gente tão pouco escrupulosa quanto inteligente, podem aparentemente ser inócuos, mas atenção: a estupidez pode tornar-se criminosa. Pois agora imagino haver cá um terramoto a valer e ser esta gente de entendimento tolhido que há-de vir a organizar o socorro.
(Imagem do blogo do Tinoni.)
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Das funções públicas de alto relevo
O grande Afonso de Albuquerque morreu em 1515 em Goa mal com os homens por amor de el-rei e mal com el-rei por amor dos homens. As intrigas tecidas contra ele na corte motivaram el-rei D. Manuel a substituí-lo injustamente do governo da Índia. Quando, porém, reconheceu os grandes feitos que Afonso de Albuquerque cometera ao seu serviço logo ordenou el-rei, para lhe perpetuar o nome, que o filho do governador e toda a descendência viessem a tomar o nome Afonso. E se na linhagem viesse a haver filha e não filho varão, então que se chamasse Afonsa.
Isto é o que se me oferece dizer sobre funções públicas de alto relevo.

Afonso de Albuquerque (c. 1450-1515)
Azar do carapau
« A sardinha capturada na costa portuguesa vai passar, a partir desta sexta-feira [não dizem a que horas começa], a ter uma certificação de qualidade [...] Desta forma, fica reconhecido que todo o processo desde a pesca da sardinha até à chegada à mesa dos consumidores respeita a sustentabilidade [...] »
T.S.F., 15/1/2010.
Parabéns à sardinha e à sustentabilidade...
— Epá, por falar disso! Tenho que revalidar a minha...
Sesta dos pescadores, Nazaré, 1958.
Reg Birkett, in Getty/images via Associação Portuguesa de Photographia.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
T.G.V. da Praia Grande
Um brilhantíssimo estudo da Deloitte (quem havia de ser) carregado de novas potencialidades; e um alarde empolgado do ministro Mendonça das Obras Públicas pleno de novas oportunidades e eis Lisboa capital atlântica da Europa, praia de Madrid, zona óptima do ponto de vista do surf, mar de oportunidades, hóspedes aos milhões, receitas extraordinárias, milhares de postos de trabalho, um maná...
Vede só a lógica deslumbrante do sr. ministro: tegevê - surf; surf - jovens; jovens - futuro; futuro - tegevê garantido. Só me apetece celebrar:
– Portugueses! Ouçamos quem sabiamente nos exorta. Mobilizemo-nos já para receber com serviçal brio a essa turba jovem que nos chegará aos magotes acotovelando-se desgrenhada e irrequieta entre pranchas e europeus em chinela de praia nesse fabuloso tegevê subsidiário da Praia Grande. Clicai para ouvir!
(Áudio da antiga Emissora Nacional; postal de Colares - Entre o Mar e a Serra.)
Da aldrabice
Há aquele exemplo conhecido (*), certamente sabeis, do fabricante de pasta de dentes que, na gosma de aumentar as vendas, teve a ideia de alargar o bico do tubo dentífrico. Diz que se fartou de facturar, enquanto a clientela esbanjava pasta de dentes com a artimanha.
Pois agora os da Total Cárie lembraram-se de fazer o mesmo sob o disfarce duma tampa nova, a ver se 'branqueiam' mais uns quantos.
(*) A coisa passa nos foros da promoção de vendas e da Gestão sob a expressão case study, tida por mais requintada. Pois requintado seria dizer o barbarismo com um vocábulo simples e claro: exemplo. Assim os eruditos da Gestão soubessem perceber a linguagem.
A imagem é duma loja GoSaude.com, um exemplo do actual brilhantismo em nominação comercial.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Beco das Taipas, Chelas
Duas imagens de Chelas sem grande trambelho (valiam por mostrar intacto um painel de azulejos numa casa arruinada e um um transeunte desoprimindo-se num beco - um documento inestimável para o urbanismo da C.M.L.) tiradas do Google para aqui há dias mereceram afinal precioso comentário dum benévolo leitor que, tendo conhecido a vida do lugar, muito aviva assim o pouco que eu conseguiria cá dizer. Com o devido agradecimento aqui fica o traslado:
« De tenra idade, andei por aqui, pela mão da minha avó materna, mais precisamente pelo Beco das Taipas, que quase se vê nas fotos. Era um tempo em que este local tinha gente, em que o autocarro dava a volta no largo, metendo a traseira na azinhaga, ajudado na manobra pelo cobrador. Era um tempo em que à entrada da Fábrica da Pólvora existia um posto da PSP (foi antes de existir a tal polícia de proximidade) e em que os "magalas" da guarnição militar da fábrica se reuniam, à noite, na "tasca" que ainda hoje existe, onde também paravam umas pequenas que, dizia-se, lhes davam conforto espiritual e físico. Era um tempo em que ainda não se tinham substituído as condutas dos esgotos, cujos trabalhos quase atiraram a ponte dos caminhos de ferro ao chão. Já então existia trafulhice nas obras públicas. Daí as vigas em X que agora unem os pilares. Antes disso, qualquer chuvada mais forte, tornava a Estrada de Chelas num rio caudaloso. Numa dessas ocasiões, um Ford Cortina vermelho, foi arrastado desde a porta do Convento até encalhar entre a padaria (a porta entaipada da foto) e o marco do correio, cujo topo também se vê. Contava-se até que, num dia em que as águas subiram mais rapidamente, a padeira teve de ser retirada pelo tecto da padaria.
Mais valia acabar com esta lenta agonia, arrasando tudo de uma vez por todas, à semelhança do que se fez com a fábrica e área contígua, salvando apenas o painel de azulejos, talvez setecentista, que naquele triste Beco das Taipas, lembra restos de uma antiga grandeza arrabaldina.»
De Attenti al Gatti em 10 de Janeiro de 2010 às 19:04.
Beco das taipas, Chelas, 2009.
Imagem das Vistas de rua do Google.
Rua da Trindade
Toldo, candeeiro de rua, estabelecimento comercial, prédio...
Rua da Trindade, Lisboa, [s.d.].
Espólio de Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
domingo, 10 de janeiro de 2010
Notícias do interior
A regionalização vai já adiantada e eu nem me dei conta. Parece que este Portugal da Europa das regiões tem ele próprio uma região do Pinhal Interior (P.I.). E a coisa é tão elaborada que se decompõe ainda em sub-regiões estatísticas (estatísticas, ora bem!) devidamente dicionarizadas na enciclopédia popular – perdão, da cidadania; a bem, claro, da democracia participativa... – Ai o que eu perco, desterrado aqui neste ermo da antiga região portuguesa (estou a citar, pois) de Lisboa e Vale do Tejo!...
Pois bem! Ouvi há pedaço o sr. primeiro ministro, como é seu timbre, alardear a novidade duma nova auto-estrada (é repetição, é) na tal região do Pinhal Interior (P.I.); um importantíssimo melhoramento ligando - segundo S. Exª enumerou – Alvaiázere e Ansião (P.I. Norte) à Sertã (P.l. Sul); três vilas que em conjunto somam mais de 9.800 hab.. Depois, detalhando, diz que serão 118 km de auto-estrada e 440 km de chamadas estradas de proximidade (estranha linguagem há agora; serão ramais de auto-estrada, avenidas, ruas, o quê...?). A empreitada vai para a Mota-Engil, mas isso já não é notícia em região nenhuma de Portugal.
Outra que não é notícia foi que fechou o caminho de ferro de Miranda do Corvo. Esta terra deve situar-se ainda na antiga província da Beira Litoral, uma região menos... estatística, pois...
Beiras (excerto), Portugal, 2009. Mapa da Michelin.
sábado, 9 de janeiro de 2010
Ainda a Rua Nova de S. Mamede...
... E o cruzamento com a do Salitre.
Nova espreitadela no Google; sem dúvida que há duas janelas no prédio de gaveto lá onde vem o eléctrico. Na fotografia mais antiga só se vê uma, é curioso!...
Rua Nova de São Mamede no cruzamento com a rua do Salitre, Lisboa, 1944.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
São Mamede
Uma espreitadela no Google e...
Do lado da Rua Nova de São Mamede com a do Salitre o panorama podia ser pior. Ainda assim extinguiu-se o chalet cuja ramagem do jardim víamos à esquerda aqui na fotografia. Do lado da Barata Salgueiro é que... Enfim!... O que não foi demolido, foi tudo esventrado... E que belíssimo chalet que lá se via.
Cruzamento formado pelas ruas Nova de São Mamede, Salitre, Barata Salgueiro e Rodrigo da Fonseca, Lisboa, [s.d.].
Espólio de Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Grande loja do tio Pedro (*)
«Ainda há poucos anos havia no Rossio um quiosque conhecido pelo quiosque do tio Pedro – que pendurava à noite nos taipais uma lanterna com dois vidros de cores, um vermelho, outro roxo. Quando um fanchono passava e dizia: – Boas noites tio Pedro – logo o velhote mudava o vidro vermelho para o roxo, o que queria dizer – fanchono à vista – prevenindo assim os outros que estavam no Rossio.»
Raul Brandão, Memórias, t. II, Relógio d' Água, Lisboa, 1999, p. 186.
(Grande loja do tio Pedro... na ordem do dia, hoje, a 'magna lanterna roxa'; o O.E. de 2010 é só no dia 20 e tal.)
(*) Verbete remexido.
Dos desastres
Dalgum tempo para cá é vulgar apregoarem os noticiários a macabra contabilidade do cangalheiro. E quando essa desgraceira de jornalismo aprofunda o assunto, dá sempre voz ao brado dum qualquer do A.C.P.: - A culpa é do governo que acabou com a Brigada de Trânsito! - para logo depois (a bem do democrático contraditório) servir o microfone aos Automobilizados: - A culpa é do ministro, que acabou com a Brigada de Trânsito!...
Se for caso ainda vai de dar eco ao que ventila fulano do Observatório das Estradas e, talvez, a P.R.P. (se ainda existe para alguma coisa). Com todos os dados do problema assim colhidos, se neste ano a contabilidade continuar (e só pára sabe-se lá como...), o governo há-de diligentemente criar uma Entidade Reguladora do Código da Estrada, ou mesmo uma Fundação para Prevenção dos Pontos Negros nas Estradas, para somar ao resto.
Saber se o nº de carros em circulação aumentou ou não na proporção do nº de acidentes, se o tempo foi pior que no Natal passado, em que horas ocorreram mais acidentes, qual a faixa etária e experiência dos automobilistas acidentados, &c. &c., são coisas pouco precisas, de senso comum. Não ajudariam em nada à notícia dos desastres.
Fotografia: I Circuito do Campo Grande, Lisboa, 1931.
H. Novais, in Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian.
sábado, 2 de janeiro de 2010
Terreno destinado à construção do Bairro da Boavista, ao fundo vê-se a serra de Sintra
As janeiras
« A cada janeireiro, homem ou mulher, dava-se um pão; aos moços metade ou um quarto, conforme o seu tamanho, e às vezes, já no clarear da madrugada, havia necessidade de reduzir a esmola, pois não chegava para tanta gente o pão cozido. Tal havia que apanhavaa duas, três ou quatro esmolas, incorporando-se em diferentes ranchos e o mesmo rancho chegava a cantar duas vezes, mudando as vozes.
– São os mesmos que cantaram há bocadinho.
Quem ia levar a esmola, geralmente uma criada, não se dispensava de dizer, mesmo que lhe não encomendassem o sermão:
– Vossemecês ainda não há nada de tempo que aqui estiveram. Se cá voltarem, não levam esmola.
Que não, vossemecê está enganada, a gente chegou agora mesmo da Vila e ainda não cantámos em mais monte nenhum. Se quer ver o que trazemos...
Nenhum rancho denunciava outro rancho embora todos fizessem a mesma coisa, a muitos repugnando uma tal descarada fraude, tanto mais que nela se envolvia Deus Nosso Pai, invocado a cada instante:
Lá vai uma, lá vão duas
Por cima do seu telhado.
Deus lhe dê muita fortuna
Ao pouco que tiver semeado.
Brito Camacho, Quadros Alentejanos, 2.ª ed., Bonecos Rebeldes, Lisboa, 2009, pp. 97, 98.
(Capa: Fernando Martins, in Aspirina B)
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Calendas de Janeiro
Ouço muito conjugar o verbo calendarizar.
Pelo palavreado diz a linguagem mais do que à primeira vista parece. Agenda é o particípio latino de ago, agis, agere, egi, actum (= agir, fazer); significa literalmente 'aquilo que se tem de ou que é necessário fazer'. Daí o pormos na agenda. Calendarizar ouço-o habitualmente por agendar - e não está mal - mas sucede que deriva etimologicamente de kalendae. Ora todos conhecemos a locução para as calendas gregas...
Bem-vindos às calendas de Janeiro. Feliz ano novo.