« A cada janeireiro, homem ou mulher, dava-se um pão; aos moços metade ou um quarto, conforme o seu tamanho, e às vezes, já no clarear da madrugada, havia necessidade de reduzir a esmola, pois não chegava para tanta gente o pão cozido. Tal havia que apanhavaa duas, três ou quatro esmolas, incorporando-se em diferentes ranchos e o mesmo rancho chegava a cantar duas vezes, mudando as vozes.
– São os mesmos que cantaram há bocadinho.
Quem ia levar a esmola, geralmente uma criada, não se dispensava de dizer, mesmo que lhe não encomendassem o sermão:
– Vossemecês ainda não há nada de tempo que aqui estiveram. Se cá voltarem, não levam esmola.
Que não, vossemecê está enganada, a gente chegou agora mesmo da Vila e ainda não cantámos em mais monte nenhum. Se quer ver o que trazemos...
Nenhum rancho denunciava outro rancho embora todos fizessem a mesma coisa, a muitos repugnando uma tal descarada fraude, tanto mais que nela se envolvia Deus Nosso Pai, invocado a cada instante:
Lá vai uma, lá vão duas
Por cima do seu telhado.
Deus lhe dê muita fortuna
Ao pouco que tiver semeado.
Brito Camacho, Quadros Alentejanos, 2.ª ed., Bonecos Rebeldes, Lisboa, 2009, pp. 97, 98.
(Capa: Fernando Martins, in Aspirina B)
Atendendo à fome que sofriam, Deus certamente lhes terá perdoado o uso do Seu nome nestas práticas.
ResponderEliminarA.v.o.
Com certeza. E será que perdoa aos mesmos que agora cantam sempre...?
ResponderEliminarCumpts.
A esses, talvez a frase lapidar atribuída a Salazar: não há dinheiro para quem chora, quanto mais para quem canta!
ResponderEliminarA.v.o.
Pois agora com estes galos no poleiro a cantoria é sempre bem paga.
ResponderEliminarCumpts.