Duas imagens de Chelas sem grande trambelho (valiam por mostrar intacto um painel de azulejos numa casa arruinada e um um transeunte desoprimindo-se num beco - um documento inestimável para o urbanismo da C.M.L.) tiradas do Google para aqui há dias mereceram afinal precioso comentário dum benévolo leitor que, tendo conhecido a vida do lugar, muito aviva assim o pouco que eu conseguiria cá dizer. Com o devido agradecimento aqui fica o traslado:
« De tenra idade, andei por aqui, pela mão da minha avó materna, mais precisamente pelo Beco das Taipas, que quase se vê nas fotos. Era um tempo em que este local tinha gente, em que o autocarro dava a volta no largo, metendo a traseira na azinhaga, ajudado na manobra pelo cobrador. Era um tempo em que à entrada da Fábrica da Pólvora existia um posto da PSP (foi antes de existir a tal polícia de proximidade) e em que os "magalas" da guarnição militar da fábrica se reuniam, à noite, na "tasca" que ainda hoje existe, onde também paravam umas pequenas que, dizia-se, lhes davam conforto espiritual e físico. Era um tempo em que ainda não se tinham substituído as condutas dos esgotos, cujos trabalhos quase atiraram a ponte dos caminhos de ferro ao chão. Já então existia trafulhice nas obras públicas. Daí as vigas em X que agora unem os pilares. Antes disso, qualquer chuvada mais forte, tornava a Estrada de Chelas num rio caudaloso. Numa dessas ocasiões, um Ford Cortina vermelho, foi arrastado desde a porta do Convento até encalhar entre a padaria (a porta entaipada da foto) e o marco do correio, cujo topo também se vê. Contava-se até que, num dia em que as águas subiram mais rapidamente, a padeira teve de ser retirada pelo tecto da padaria.
Mais valia acabar com esta lenta agonia, arrasando tudo de uma vez por todas, à semelhança do que se fez com a fábrica e área contígua, salvando apenas o painel de azulejos, talvez setecentista, que naquele triste Beco das Taipas, lembra restos de uma antiga grandeza arrabaldina.»
De Attenti al Gatti em 10 de Janeiro de 2010 às 19:04.
Beco das taipas, Chelas, 2009.
Imagem das Vistas de rua do Google.
Agradeço-lhe mais este amável destaque que entendeu dar às minhas palavras. Aproveito para esclarecer que o painel de ajulejos que refiro não é o que aparece na foto, mas um outro que ornamenta o último piso do que terá sido um edifício senhorial, situado em plano mais recuado e que é visível para quem desce a Calçada da Picheleira. Naquela zona entre restos de aquedutos, trechos de velhas azinhagas, ruínas de palacetes ainda há, apesarde tudo, pormenores curiosos e interessantes.
ResponderEliminarA.v.o.
Suponho que se refira então à casa duma certa Horta da D. Margarida que vem da Rua de Cima de
ResponderEliminarÓ Bic, tenho uma "galeria" no Estado Sentido que se chama Lisboa Arruinada. Se quiser ver monstruosidade, pesquise lá no blog e verá. Aliás, tenho umas novidades da excelsa CML de Lisboa, prontinhas para postar.
ResponderEliminarConheço-a e costumo seguri com atenção o que lá põe. Mas sabe, este estado de coisas infelizmente já não leva emenda.
ResponderEliminarCumpts.
De cór, torna-se difícil precisar certos pormenores. É provavel que o edifício que falo tenha uma frente para a R. de Cima a Chelas, sendo que a outra esteja virada para o Bêco das Taipas. Descendo a Calçada da Picheleira, depois de passar a vía férrea, ao fazer a curva para a esquerda, junto à correnteza de casas situadas num plano inferior, olhando em frente, mais ou menos por detrás da taberna, vê-se o tal painel de azulejos.
ResponderEliminarA.v.o.
Só indo ao local. Cuidava que fosse numa casa com porte senhorial, mas estou à toa.
ResponderEliminarCumpts.