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terça-feira, 24 de abril de 2007

25 de Abril


« Na madrugada de 25 de Abril de 1874, quando o curro que no dia seguinte devia ser toureado no Campo de Santa Ana chegou ao largo de Santa Bárbara, tresmalharam-se dois touros e andaram passeando pelas ruas da cidade alarmando a povoação.

   Um dos bichos andou a rondar um posto da guarda municipal e foi também passar revista à sentinela do Hospital da Marinha... Foi depois o mesmo animal ao cais dos soldados; aí apanhou a jeito o carregador dos caminhos de ferro António Rodrigues, por alcunha o Lagartixa, atirou-o ao ar e vazou-lhe o olho esquerdo...

   O segundo bicho fugido da manada fez grandes ferimentos em António Augusto de Araújo, servente do Teatro do Príncipe Real... Colheu também Serafim dos Santos e um inglês que esteve em risco de não voltar à sua pátria e ficar depositado no cemitério.

   Por fim o referido animalejo dirigiu-se à praça da Figueira com grande surpresa das vendedeiras que não esperavam tão amável freguês. O brutinho era guloso por fruta e satisfez o seu grande apetite comendo o que desejou e à borla.

   Saíu do mercado com o baú de tal forma cheio que já nem podia correr, sendo por isso apanhado na rua dos Fanqueiros... » (1)




(1) Rodovalho Duro, História do Toureio em Portugal, pp. 130 e 131, apud Luiz Pastor de Macedo, Lisboa de Lés a Lés, vol. III, 3ª ed., Lisboa, Publicações Culturais da C.M.L., 1985, pp. 174 e 175.


 


Rumo ao sul...




Ponte sobre o Tejo; Lisboa © 2005 Luísa Gonçalves

 Nevoeiro à saída da ponte sobre o Tejo (dita 25 de Abril), Lisboa, 2005.




Adenda (1/5/07 às 21h42): o seu a seu dono; a fotografia é de Luísa Gonçalves.

Os estudos

Judite de Sousa nunca estudou...  Dantes em Lisboa havia muito quem chamasse jornaleiros aos ardinas...
 Ele há agora um anúncio com a jornalista Judite simulando ser jornaleira numa banquinha de centro comercial porque não acabou os estudos. Se o anúncio vier a ter o êxito que eu espero, qualquer um há-de poder vir a ser jornaleiro porque haverá planos de estudos cientificamente elaborados e cursos superiores para essa profissão. A de jornaleiro ardina, entendei. Hão-de ensinar até os antigos pregões dos ardinas. Por agora a pobre jornaleira Judite, sem estudos, não sabe apregoar sequer os vespertinos:
 - Ó DIÉRI' POPLEEERE!... À CAPITÁÁLI!...

 Obviamente esta campanha é obra dalguém assaz, como direi... incentivado a acabar os estudos. Bem vejo que lhe deram agora uma nova oportunidade. O publicitário esgotado há-de-se recompor no Allgarve...


Imagem do Cachimbo de magritte.

domingo, 22 de abril de 2007

Os putos

 O último troço da Rua do Sol a Chelas que ainda não foi desfeito - que por acaso é o primeiro pois a rua começa na Estrada de Chelas - é o dos putos aí abaixo; despega-se da dita estrada para poente; resta um pedaço entre aquela estrada e a linha de fecho da cintura ferroviária (a do Túnel da Bruxa) que vai de Chelas a Xabregas.
 Aqueles cachopitos estão ali a meter-se com o homem lá adiante: da cantilena que lhe estão a atirar adivinho alguma alcunha pouco honrosa cheia adjectivos menos próprios. Dos gestos que lhes vejo e do que conheço do género autóctone daquelas paragens a pantomima deve ser uma berraria de impropérios repetida até fartar. Se o homem lhe dá de inverter a marcha para lhes dar caça, imagino os putos desatando a fugir por aquela ribanceira acima. O homem há-de desistir logo ali da caça. Dá impressão que vai para o trabalho e não se irá meter pelas terras. Faz o ameaço para os espantar e chega. Os putos ainda hão-de gritar alguns impropérios desde cima da ponte mas logo se põem em caminho da estação de Chelas ou do túnel de Xabregas; qualquer dos lados dá mais aventuras certas...
 Subir por aquelas terras para a linha do comboio era uma tentação...

Viaduto Ferroviário, Lisboa (A.Goulart, 1961)
Viaduto Ferroviário [da Rua do Sol a Chelas], Lisboa, [1961].
Artur Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.




Carlos do Carmo - Os putos
(Cantiga nos Anos 60 ponto come.)

sábado, 21 de abril de 2007

Rua do Sol a Chelas

 Diz a D. Scarlata que a rua tem um nome romântico que não combina com o aspecto. Pois aqui está uma vista que recordava ainda em [talvez] 1961 o aspecto campestre deste caminho. Ao fundo a encosta N. do cemitério do Alto de São João - de que se vê apenas o muro os contrafortes - que aqui vemos povoada de oliveiras. Estas terras foram em tempos duma Quinta do Pinheiro. No vale ao fundo daquela encosta - esta estrada ia lá dar - havia a quinta do sr. Abel; se era num talhão roubado à dita Quinta do Pinheiro não sei; nem sei se ele - o sr. Abel - era rendeiro se proprietário. Sei que em menino fui lá muitas vezes com a minha mãe ao leite...

Rua do Sol a Chelas, Lisboa (A.Goulart, 1961)
Rua do Sol a Chelas, Lisboa, [1961].
Artur Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

A ver...

Cá o sítio parece que não anda apreciável. Só vultos encobertos se aproximam. Se se aproximam...

Rua do Sol a Chelas, Lisboa (A.Goulart, 1961)
Rua do Sol a Chelas, Lisboa, 1961.
Artur Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Práxis arcaica

Acabar com o puxão de orelhas foi quanto bastou. Os meninos das fisgas cresceram e já governam a pólis.
Noto esta civilização em cacos.


   Prémio de 2007 para desenhos humorados na imprensa mundial.</span>

País de excelência(*)

Do país do Calimero ao Sítio do Picapau Amarelo.
Mas para brincar ao faz-de-conta, que tal os Barbapapas, hem?!




(*) Uso o linguajar da moda por soar assaz adequado à modernidade faz-de-conta. É não é?

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Das muralhas e da Civilização

 Ou de como no termo de Istambul ainda há hortas... Nem só de betão vive o Homem!

Muro de Constantinopla, Istambul, 2006.
Muro de Constantinopla, Istambul, 2006.

Castig... castelo

Linhares da Beira (Funes, o memorioso, 2007)

Linhares da Beira, 2007.

Fotografia de Funes, o memorioso.

A Carroça ou o Regresso do corte do feno

 Este, quadro, esta cena delicada, saíu-me para comentar numa prova há muitos anos... Não me recorda o que escrevi; algumas baboseiras sobre a infância no Antigo Regime, coisas dessas que me tinham ensinado no 12º ano. Não creio que tenha dito nada sobre parecer um retrato de grupo, idílico, encenado como que por um fotógrafo. Um da cidade.
 - Vós, senhora, quedai-vos aí com o bebé!
 - Ó menino, podes tocar a tua flauta?! Vós as três, subi ali para a carroça!
 - Meninas! Ide para além mais para a beira dos porquinhos.
 A aparente inexpressividade é porque não são actores, estes camponeses. Não é hábito posarem para retratos; não sabem bem que hão-de fazer e mostram-se pouco à-vontade. O menino na carroça toca timidamenrte...
 O retratista fixa com olho fotográfico a cena, deixa uns luíses por conta dos ovos que leva e segue para o atelier para revelar a cena que imaginou. Porque na realidade talvez os miúdos dançassem e corressem e pulassem ali na quinta, e não isto... E talvez a mulher lhes berrasse que estivessem quietos, desesperada com o bebé que chorava desalmado.
 Mas olhando para o quadro, talvez não...



Louis Le Nain [atr.]
A Carroça ou o Regresso do corte do feno, 1641
Óleo sobre tela, 56 x 72 cm
Paris, Museu Nacional do Louvre



(François Couperin, Les Nations — La Françoise, 1725)


domingo, 15 de abril de 2007

Noções de Grego para jornalistas

Hoje vamos aprender a palavra...

sábado, 14 de abril de 2007

O papel

 Um avião quadrimotor descola de Luanda para Lisboa com 108 passageiros. Avaria-se um motor após pouco tempo de voo. O quadrimotor que falo, sem mais incidências anormais, consegue voar apenas com três motores e as tripulações técnicas são treinadas para isso (e depois habilitadas para a tarefa: uma autoridade passa-lhes um papel). Neste caso o quadrimotor só não prossegue até ao destino porque somado à avaria num motor se notou um excesso de vibração na asa, o que esforçava demasiadamente a estrutura do avião. Regressam a Luanda.

 Substitui-se o motor avariado e o avião pode prosseguir já com plena potência para a Lisboa em voo não regular e sem passageiros, i.e. um voo ferry.

 Afinal a tripulação original que, não fora a vibração na asa, teria voado até Lisboa com 108 passageiros e menos um motor (estava treinada para isso; e habilitada, não esqueçamos o papel), não pôde ao fim e ao cabo tripular o avião na condição ferry, com quatro motores e sem passageiros, condições aparentemente menos perigosas.

 Porquê? - perguntar-me-eis.

 Ora, porque lhe não deram equivalência. Logo, não estava habilitada. Ou seja, faltava-lhe o papel.



CS-TLB da TAP (A.Malhão)

Super Constellation "Infante Dom Henrique" da TAP sobrevoando Lisboa, [1955-67].

Fotografia de André Malhão publicada em...



 A questão d' o papel é muito importante. E à cautela há quem opte por ter dois...

sexta-feira, 13 de abril de 2007

A propósito dum comentário

 Há dias atrás mencionei, já não sei porquê, esta garagem à Dona T. dos Dias que Voam. - Foi por causa de demolições, parece-me!... - Julgo que ela cirandou nas redondezas e viu o triste estado em que isto anda. Estou para ver o que está na calha...
 E parece-me que também aqui há um reclamo da Laranjina.

Garagem de Santa Luzia, Lisboa (João H. Goulart)
Garagem de Santa Luzia, Rua de Dona Estefânia, 1969.
João H. Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

O carro fica para quem o queira identificar.

Vizinhas ancestrais

 Se a nora é a que está indicada pelo nº 4 duma fotografia da Praça do Chile que já vos cá mostrei, então estas damas são vizinhas ancestrais da Dona T. dos Dias que Voam. Vão elas aqui no Chile como quem torneja da Morais Soares a caminho da Av. Dona Amélia (Almirante Reis). Ao fundo a Penha de França; no sopé do monte o muro da Travessa do Caracol da Penha e as casas da quinta do Saraiva, que agora são sítios ali pela Rua dos Heróis de Quionga.

Penha de França, Lisboa (P.Guedes, c. 1900)
Panorâmica da Penha de França, Lisboa, c. 1900.
Paulo Guedes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

quarta-feira, 11 de abril de 2007

[Engenharia] De soslaio

- Repare! Foi há 14 anos... - defendeu-se.
Terrível foi aquele olhar de esguelha da jornalista Flor Pedroso enquanto juntava as fotocópias onde um bach. atamancado quase rasurava a engenharia.

Ponte Salazar, Lisboa (<i>c.</i> 1966)
Ponte Salazar, Lisboa, c. 1966.
(Col. Portugal Turístico, 901/L)

Com tamanha falta de... memória, admirem-se da Ponte Salazar vir a ganhar o concurso das maravilhas.

A propósito...

... disto ou daquilo...


Ou de coisa nenhuma.

a tiaa pá




Ref.ª: Maria Luísa Torres Pires, Francisca Laura Batista, Glória N. Gusmão Morais, Livro de leitura da primeira classe, 1.ª ed., Lisboa, Papelaria Fernandes, 1967. Ilustrações: Maria Keil, Luís Filipe de Abreu.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Estaminets


 Na zona dos acantonamentos os melhores estaminets são as mess dos officiaes e dos sargentos. Outros tem um piano mecanico e á tarde os soldados de Portugal vão para ali curtir a nostalgia da sua aldeia distante ouvindo a maquina desafinadissima, fazendo durar o copo de cerveja e galanteando a moça, que, a meudo tem de exclamar « Non compris » ou de empregar as primeiras palavras de portuguez que as mulheres de França aprenderam : « Esteja quièto »...

C.E.P. na Flandres (1917)
«Migalhas da Guerra», Portugal na Guerra: Revista Quinzenal Illustrada, n.º 6, Novembro de 1917, p. 10.


domingo, 8 de abril de 2007

My Sweet Lord


Billy Preston - My Sweet Lord

sábado, 7 de abril de 2007

Patònau

 Tenho impressão que pedi chocolates. Ou talvez Sugus, que, lembra-me, disso eu era amigo. Mas, ou a minha mãe não me queria comprar Sugus, ou então era o meu irmão... Há-de ter sido pelo meu irmão que eu nem conhecia Pez. Aquilo era duro de trincar e parecia um comprimido. Comprimido por comprimido dessem-me o Melhoral infantil que era doce, sabia a laranja e dizia que era remédio. O certo é que naquela vez, no super da Rua José Ricardo, a mãe nos comprou Pez e umas maquinetas onde se devia carregar um pacotinho inteiro e, ao depois, levantando a cabeça do boneco, se descarregava um Pez de cada vez.
 Não me recorda do boneco que o meu irmão escolheu. Para mim escolhi um do Patònau.

Carregador de Pez no sótão do Mickey

Grosso

Vidrão rima com arquivão.
E nem a arrumação do popó desengrossa...

Torre do Tombo © 2007
Torre do Tombo, Lisboa, 2007.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Canudos, Lda.

 Houve tempo em que comprar um canudo seria impensável. Porque seria impossível. Quem no tentasse arriscaria imenso e nem sei a fortuna que custaria. Um canudo era mercadoria que só se vendia ao preço de estudar. Nessa medida havia um mínimo a pagar. Havia um mínimo até para ter direito a pagar...
 Hoje, os mercadores de canudos cujo comércio foi publicamente afirmado pelo ministro da tutela como «absolutamente inqualificável e [devendo] merecer uma reprovação moral seriíssima»; os merceeiros de certidões de doutor ou engenheiro a preços de saldo sob cuja cabeça pende um processo de encerramento compulsivo por «manifesta degradação pedagógica»; hoje, dizia eu, esses vendilhões de feira mascarada em academia entregaram ao sr. ministro uns documentos atestando a viabilidade financeira do negócio. A viabilidade financeira!...
 Estranhos pedgogos estes que me parecem ensinar que em havendo dinheiro se pode pagar até o mais medonho desprestígio pedagógico e moral.
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Imagem de Lusitania Postcards.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Escala centenária

 Na de 2007 tive que retroceder um tanto para abranger o motivo. Interessa olhar para a Av. de Berna em 2007 em busca de horizontes. Ele há-os lá duplamente: os do nosso tempo, claro: um real e um figurado...
 Mas melhor é arregalar a vista até ao Monsanto na de há cem anos.

Av. da República, Lisboa (P.Guedes, post. 1906)
Av. Ressano Garcia (Av. da República, 77), Lisboa, c. 1907.
Paulo Guedes in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


Av. da República, 77, Lisboa, 2007.

Ao regresso dos piratas!


Roger Hodgson - Give A Little Bit

terça-feira, 3 de abril de 2007

Parece-me...

 Das impressões de sábado de manhã disseram-me que o que foi demolido na esquina da Av. da República com a António Serpa - diz que foi abaixo há para aí um [quatro] ano[s] -, disseram-me, pois, que o prédio demolido era bonito. Ele parce-me que sim, mas cada um dirá por si. E parece-me que se harmonizava com o da outra esquina da António Serpa e com os seguintes. Ou não?! Mas também me parece que só cinco pisos naquele sítio é pouco, mui pouco...
 E parece-me cá que no toldo da esplanada aquilo era um reclamo da Laranjina...

Av. da República, Lisboa (A.I.Bastos, 1970)
Av. da República, cruzamento com a Av. António Serpa, Lisboa, 1970.
Artur Inácio Bastos in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


Emendei o texto às sete da tarde.

Impressões de sábado de manhã

Impressões.. © 2007
Av. da República 89-101
, Lisboa, 2007.

domingo, 1 de abril de 2007

Portas

Porta, Algarve © 2006

 Descendo a rua a caminho da praia há uma porta (imagem 1) que aprecio. É azul com postigo de friso branco. Recolhe-se num alpendre poligonal; é pitoresca, parece do Lego. O contraste do azul com o branco da casa dá-lhe um toque rústico. A vivenda a que esta porta dá serventia não é desengraçada. Estava inacabada há dois Verões, e assim a encontrei, sem avanço na construção, no Verão passado: faltava-lhe o portão e a cerca completando o muro. Mas teve lá gente, que eu vi ali pessoas e um carro em frente. Nessas vezes cheguei a ver a porta aberta. Evitei olhar para não ser coscuvilheiro.
 Indo e vindo ficava indeciso sobre fotografá-la. Finalmente fi-lo e ficou bem, enquadrada com os tons suaves do chão e do tecto do alpendre. Até o capacho ficou bem...


 No Claustro da Hospedaria do Convento de Cristo, este Verão passado, notei no peristilo uma porta verde escura (imagem 2) também com postigo de friso branco. Em si mesma falece-lhe o lustro envernizado da da vivenda algarvia, mas excede muito aquela em dignidade por causa da ombreira de cantaria. É uma porta pequena, mas antiga e com algum porte...


 Às horas certas, meias horas e quatros tinem dum altifalante de feira umas badaladas fanhosas sobre aquela portada da igreja de Vérigo (imagem 3). É dupla e não tem postigo. De assinalável recebe a luz doirada da tarde, que dá um certo tom bronzeado inclusive à alva parede. Junto-a nesta espécie de conselho de portas acrescentando que ao fundo da encosta desta igreja de Vérigo corre um ribeiro; mas nesta terra não conheço nenhum castro...


 Parafraseando um adágio em dia de mentiras, digo: não há bem que sempre dure nem treta que se não acabe. Mas teria graça que esta treta sobre portas agora acabada baralhasse os motores de busca durante uns dias...




Porta, Tomar © 2006
Porta, Vérigo © 2005

 

Uns de Abril

 "Fuão afirma estar com a consciência tranquila quanto ao caso de... — ouço muito dizer nas notícias.
 Transmitindo assim, qualquer ouvinte que haja assimilados certos valores morais pressente imediatamente que fuão, à semelhança de si, tem também uma consciência (boa ou má) dos seus actos. Dá logo ideia que as malvadezas apontadas a fuão, pessoa de consciência (tranquila), devem ser calúnias. — Coitado de fuão! — é-se levado a pensar.
 A consciência — aceita-se por norma — rege-se inconscientemente por valores moral e socialmente bons. Ora fuão que seja aldrabão sabe-o. O que faz é pôr os apitos de ouro das boas consciências arbitrando a seu favor. Assim como se fossem apitos dourados. De latão.


Pinóquio in Sapo Saber.