No Alto do Pina havia um gingão de alcunha o Cafeteiras que parava à esquina do bairro. Por natureza era um femeeiro irreprimível e boçal; conheceis o género. Tinha a particular mania de chamar alto, de braço no ar, os que passassem do lado de lá da rua para lhes impingir umas milongas e de permeio, cravar alguma coisa:
- SÓÓCIO! - entoava ele à lisboeta, alongando a tónica e decrescendo o ditongo final na última metade. Quando cumprimentava o pessoal batia um estrepitante aperto de bacalhau, daqueles dados por cima, e repetia:
- SÓÓCIO!
Certa vez apegou-se a uma dama inglesa que não se importou de o levar com ela para a velha Álbion. O Cafeteiras de sua instrução não sabia de inglês senão uma palavra... Não foi isso obstáculo; pronunciava-a com a natural entoação de alfacinha de gema sempre que era apresentado às amigas da senhora. E sorria com deleite...
Logo logo a dama deu-se conta que o Cafeteiras, de inteligível para ela só dizia uma e a mesma coisa, soando o restante discurso muito igual ao português. Por que diabo repetia o Cafeteiras uma tal palavra a propósito e a despropósito (rindo-se sempre, o gingão) ela nunca entendeu mas pouco fez caso.
Quando se fartou dele jogou-o para canto; melhor, recambiou-o de volta para a esquina do bairro. Ironicamente o Cafeteiras, que não se fazia entender, acabou sendo entendido: daquele insistente exclamar esquina... a dama, sem cuidar, cumpriu-lhe o enunciado.
Então cá, no Alto do Pina, o Cafeteiras julgava-se ainda mais herói; ufanava-se qual magriço sem pudor a quantos visse passar da sua aventura com a bifa e do inglês que falava. Poucos se deixavam enganar com a fanfarronada, mas lá contemporizavam na sociedade com o Cafeteiras.

O prestamista e a sua mulher
Quentin Massys, 1514.
Óleo sobre tábuas, 71 x 68 cm, Museu do Louvre, Paris.
E porque vos conto isto?
Porque uns agiotas deram em contar milongas crendo-me tolo: se eu lhes passar dinheiro para a mão [o pouco que tenha] fico dono dum banco. Tenho a sensação que se entrar no tal banco vou topar com o Cafeteiras na caixa recebendo-me efusivamente de braço levantado:
- SÓÓCIO!