Pedindo uma mulher viúva a el-rei [D. João III] que lhe tomasse dois filhos [1], alegando para isso os muitos serviços de seu marido, tomava-lhe el-rei logo um. E ela não quis, antes, insistindo em sua tenção, disse algumas palavras tão ásperas que se enfadou el-rei tanto que, não podendo usar de sua condição sofrida [2], se levantou da cadeira e se recolheu para a rainha [3]. E ela, logo que lhe viu no rosto que ia agastado, perguntando-lhe de quê, contou-lho el-rei; e a rainha, com rosto risonho, pelo desmalenconizar [4], disse-lhe:
— Não, Senhor. Porém tome-lhe Vossa Alteza um filho e eu o outro.
E assim fizeram.
Ditos Portugueses Dignos de Memória; História íntima do século XVI anotada e comentada por José Hermano Saraiva, 3.ª ed., Mem Martins, Europa-América, 71 (p.40).
[1] Que tomasse ao seu serviço, admitisse como criados do Paço.
[2] Não podendo manter a calma que lhe era habitual.
[3] Retirou-se para os aposentos da rainha.
[4] Para lhe restituir a boa disposição, para o tirar da melancolia.

Ah, se não fossem as rainhas!... As que eram espertinhas... ;) :)
ResponderEliminarGostei muito da expressão "condição sofrida".
ResponderEliminarÉ das melhores definições que já vi para manter a calma.
Claro que a mulher neste caso, também teve razão:)
Felizmente nenhum tribunal ordenou que os filhos voltassem para a viúva... Cumpts. a ambas. :)
ResponderEliminarQuer dizer que a tal mãe devia ter entregue a filha ao Presidente da República da altura, Dr. Jorge Sampaio. Só de pensar desato à gargalhada.
ResponderEliminarOu isso ou à D. José Lita. Cumpts.
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