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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Eu não digo? Andam a ser colonizados e gostam

 Fui pesquisar do que se tratava essa Festa na Praça do Continente Feed, anunciada como a celebração mais portuguesa, centrada com portugalidade. Com uma área de street food, com smashburgers, loaded fries, melties e fruta fest e kebabs. Uma área destinada aos kids e outra pet friendly, com snacks dedicados. E uma zona para play. A musicata começou às 16H00 com um DJ set de um tal Kiko Is Hot.
 Nem praguejo. Pois esta imundície é o meu país, a minha cidade. Promovida pelos autarcas nos quais [nunca] voto. Enfim, bem que me poderia esfoliar mas isso não esconderá o fundamental: isto sou eu.

(J.P.T., «O estado de Lisboa», in Delito de Opinião, 13/IX/26.)




 À parte alguns topónimos cujo significado se perdeu, intriga-me a falta de substrato autóctone pré-romano no nosso (ex-) falar português. Quinhentos anos de romanização, 500, foram tão eficazes em delir o que se falava antes nesta terra que, mais parecem ter assentado sobre uma tábua rasa.
 Ora mesmo salvaguardando as diferenças, nem os canibais do Brasil foram em tal período tão completamente aculturados; a sua linguagem, a marca mais enraizada da cultura dos povos, persiste. 
 Pois a romanização nas Hespanhas, salvos os Vascões, foi temporã e pràticamente total.
 Cuido que tal fenómeno se não pudesse ter dado sem um voluntarismo acéfalo dos autóctones. Os primitivos ibéricos hão-de ter-se empenhado, e bem, em romanizar-se. Não porque fossem vazios culturalmente — não há povos assim — mas porque desprezaram os seus modos de ser e falar em favor dos dos novos senhores — principalmente no falar —, esquecendo tudo o que identitàriamente os fazia ser quem eram.
 Bom, esta maneira de se uma gente despir (ou esfoliar) do que é para se tornar estrangeira — ou brilhante e reluzentemente moderna, segundo cuidam — configura algo pior do que vazio cultural: é o vaziozinho inane da fraqueza mental dos indivíduos duma certa raça de gente que, antes, colectivamente e por mor de seus melhores, se afirmou até como um povo valoroso, mas que, mal guiados, ou guiados à perdição, prestes se deixam tomar e assimilar por estrangeiros.
 A romanização fez-se, pois, assim: com autóctones esvaziados culturalmente, mas também sequiosos a absorver o que se lhes apresentou como poder, modernidade e futuro. 
 Hoje neste Portugal irremediávelmente perdido ainda é pior.

«Rua da Escola de Medicina Veterinária», Lisboa — © 2026
«Rua da Escola de Medicina Veterinária», Lisboa — © 2026

6 comentários:

  1. Fazem gala em usar termos e expressões inglesas. Conheço pessoas que aferem o grau cultural de quem quer através de passwords dessa natureza

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    1. Há toda uma casta de altos e médios quadros (i.é, quadrúpedes) em chafaricas empresariais, institucionais e estatais a cuspir bojardas que tais a cada perdigoto.
      Um hino à pequenez na razão inversa dos penachos com que se pavoneiam.
      Uma tristeza.

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    2. Fenómeno antigo. No século XIX era com o francês.

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    3. Nada como agora. Os Dâmasos eram uns poucos. O bom povo não dava para esse peditório e o falar mantinha-se muito mais sem retorno da escrita sobre a oralidade. Hoje as televisões estão pejadas de conselheiros Acácios e os Dâmasos vicejam de qualquer subúrbio à província mais remota.
      Cumpts.

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  2. Há uns meses fui à Rua Garrett. Passando pela ex- "Casa Pereira", hoje "Castro" - que se classifica como «atelier de pasteis de nata» (!!!), entrei e pedi um pastel de nata e um café.
    Perguntei quanto devia, quase 3 euros (!!) , coloco os 3 euros trocadinhos no pires do talão, e qual é o meu espanto quando a funcionária me diz que não aceitava dinheiro, só cartão ou meio electrónico de pagamento !!!
    Perguntei porquê, ao que a empregada me disse: «é por causa dos assaltos!» . E se eu não usasse cartão ou não tivesse levado comigo? Chamavam a Polícia? Eu é que devia ter chamado! É que nem aviso existia ...
    Com a falta de agências bancárias, e algumas sem "Caixa", decerto o patrão não se está para chatear em ir depositar o dinheiro ao banco.
    Ou então é mais um que se justifica com o combate à lavagem de dinheiro ...
    Ao que estamos a chegar ! ....
    Abraço

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    1. Há tempos tropecei numa barraca desse tipo de feirantes. Dei cá conta disso com uma história à mistura (https://biclaranja2.blogspot.com/2022/09/ze-da-comporta.html).
      Se me acontecesse como a si e não havendo maneira de devolver o consumo, talvez não pagasse e registá-lo-ia no livro das reclamações só para contrariar.
      Estamos a caminhar para uma qualquer espécie de barbárie tecnológica, isso é certo.
      Abraço.

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