terça-feira, 29 de setembro de 2026
sábado, 26 de setembro de 2026
Tempos!
Ontem, o Porto, 3 – Benfica, 1. Ainda.
Um folhetim sem fim
num rosário de futebol penado de televisão, rezado horas a fio, dúzias de
vezes ao dia, sete dias por semana.
Descobriram ontem, pois,
outro ângulo do safanão, ou repelão, do Samu ao Bah do Benfica. — Estranhos
nomes (de jogadores) para clubes portugueses… Ou talvez não!…. — E estranhos
nomes (safanão, repelão) para os jornalistas da TV conseguirem
dizer do gesto…
No meio de tanto palavreado, fala um, diz outro,
três jornalistas e mai-lo pivot que também tem foros e alvará da
profissão, nem um consegue, numa palavra, dizer o que fez o Samu ao Bah;
hesitam em murro, toque; não se afoitam em dizer palmada porque não parece
nada e, safanão é aquela palavrinha trivialíssima que lhe nem ocorre.
Nem poderia ocorrer, tal a curteza lexical (do português) com que carradas de
jornalistas bafejam a profissão.
Prolixos, contudo, que
até enriquecem profusamente o fraco português com o amaricano…
E rebuscados.
Rebuscam
e confrontam, por conseguinte, o caso com um outro da expulsão dum Freixenet
ou lá como se chama o Jean Genet francês do Benfica que passou os dedinhos na
pescoceira logo abaixo da orelhinha dum qualquer do Porto. Suburbanos requintados e meios grisalhos,
já, duma rica geração de ensino básico nas escolas secundárias, mas perdida da
infância de rua doutras vidas, chamaram-lhe, ao gesto no segundo caso,
calduço.
De escola secundária é bem o termo.
Já
de um… calduço?!… ser dado de dedinhos abertos como uma festinha não era precisa
nem a 4.ª classe.
Aquilo do francês do Sport Lisboa ao do clube do
Porto foram os velhinhos três decilitros. Os três 'celitros da
miudage de rua nos bairros de antigamente, que eram a provocação dum a
outro, o qual nunca por nunca se ficava na covardia de sofrer a afronta odiosa
de sentir na cara três dedinhos lambidos do cuspo do provocador. A resposta
certa era chapada de volta e bulha pegada.
Ora o rapaz do
clube do Porto deve ser menino copo-de-leite, ultrapasteurizado, ao contrário dos portuenses naturais.
Levou os três 'celitros e deitou-se para o chão com as mãos na cara a
clamar ao senhor arbitro, qual choramingão, que lhe aquele menino
bateu.
Tempos… De futé boys!

Alfredo pisa a [alguém que mo identifique] numa disputa de
bola. Porto, 0 – Benfica, 2, Estádio do Lima, 31/III/946.
A. e fonte n/ id., adaptada de
F.C. Porto — Memória.
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Eu não digo? Andam a ser colonizados e gostam
Fui pesquisar do que se tratava essa Festa na Praça do Continente Feed, anunciada como a celebração mais portuguesa, centrada com portugalidade. Com uma área de street food, com smashburgers, loaded fries, melties e fruta fest e kebabs. Uma área destinada aos kids e outra pet friendly, com snacks dedicados. E uma zona para play. A musicata começou às 16H00 com um DJ set de um tal Kiko Is Hot.
Nem praguejo. Pois esta imundície é o meu país, a minha cidade. Promovida pelos autarcas nos quais [nunca] voto. Enfim, bem que me poderia esfoliar mas isso não esconderá o fundamental: isto sou eu.
(J.P.T., «O estado de Lisboa», in Delito de Opinião, 13/IX/26.)
À parte alguns topónimos cujo significado se perdeu, intriga-me a falta
de substrato autóctone pré-romano no nosso (ex-) falar português. Quinhentos anos de
romanização, 500, foram tão eficazes em delir o que se falava antes nesta terra
que, mais parecem ter assentado sobre uma tábua rasa.
Ora mesmo
salvaguardando as diferenças, nem os canibais do Brasil foram em tal período
tão completamente aculturados; a sua linguagem, a marca mais enraizada da
cultura dos povos, persiste.
Pois a romanização nas
Hespanhas, salvos os Vascões, foi temporã e pràticamente total.
Cuido que tal
fenómeno se não pudesse ter dado sem um voluntarismo acéfalo dos autóctones.
Os primitivos ibéricos hão-de ter-se empenhado, e bem, em romanizar-se. Não
porque fossem vazios culturalmente — não há povos assim — mas porque
desprezaram os seus modos de ser e falar em favor dos dos novos senhores — principalmente no falar —, esquecendo tudo o que identitàriamente os fazia ser quem eram.
Bom, esta maneira de se uma gente despir (ou esfoliar)
do que é para se tornar estrangeira — ou brilhante e reluzentemente moderna, segundo cuidam —
configura algo pior do que vazio cultural: é o vaziozinho inane da fraqueza mental
dos indivíduos duma certa raça de gente que, antes, colectivamente e por mor de seus melhores, se
afirmou até como um povo valoroso, mas que, mal guiados, ou guiados à perdição, prestes se deixam
tomar e assimilar por estrangeiros.
A romanização fez-se, pois,
assim: com autóctones esvaziados culturalmente, mas também sequiosos a absorver o que se
lhes apresentou como poder, modernidade e futuro.
Hoje neste
Portugal irremediávelmente perdido ainda é pior.
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Óbvios de galinhas criadas no solo
Ovos de galinhas criadas no solo.
Ora aqui está uma coisa
esperta. Nada estúpida e inteligente, até.
Primeiro, porque as
galinhas voam pouco. Criá-las no solo é elementar. Mas sendo que voassem
muito, criá-las no ar seria arte muito, mas muito mais difícil.
Ao
depois, porque se porventura fosse alguma vez conseguido as galinhas serem
criadas no ar, saber-se-ia lá onde haveriam de ir cair os ovos.
Além
de que se partiam ao bater no chão (ou no solo).
Fora desta lógica de coisas, sobra que uma galinha criada no solo
(enquanto pita ou franga) pode bem, ao depois de galinha (adulta) feita,
tornar-se poedeira exclusiva em qualquer prateleira de aviário.
Pode
ou não pode? E não deixaria de ter sido criada no solo…
Vem daqui que o que se inventa dizer — e diz — para vender ovos é o
óbvio.
E o que se deixa de dizer para vender à mesma ovos,
não o é menos.
São estes os óbvios de galinhas criadas no solo,
portanto.
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Quando se ainda conseguia ver o céu ante o (ou além do) monumento ali
Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular, Entrecampos, [ante 1958].
Beatriz
Bobone, in archivo photographico da C.M.L.
(Marca de água raspada pelo Chat GPT.)
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Quando se ainda conseguia ver o céu à saída do Metro em Entrecampos
Entrecampos, Lisboa, 1991.
Kim Løvenskjold, in Flickr.
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
De parir em casa e em estrangeiro
A rica tem nome fino,
A pobre tem nome grosso;
A rica teve um menino,
A pobre pariu um moço!
(Ant.º Aleixo)
Passámos há muito das pobres às ricas. É o que me a linguagem diz — ou
deixa de dizer, pois ninguém há aí que diga que pariu um moço.
A
somar a tamanha riqueza, esta, nossa, havemos agora aí mulheres exóticas a
parir em casa.
Metem bruxo e rezas. Velinhas e oferendas. E
no fim, se há choro, juntam-se homens a comer.
De dizer que teve um menino
ou que pariu moço é que, em puro português, soa a nado morto.
![Materninade Dr. Alfredo da Costa, Lisboa. Estúdio de Mário de Novais, [s.d.]](https://farm4.staticflickr.com/3219/3118096382_11fb43b30c_o.jpg)
Materninade Dr. Alfredo da Costa, Lisboa, [s.d.]
Estúdio de
Mário de Novais, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G.
domingo, 6 de setembro de 2026
Quem se lembra da tradutora dos livros d' Os Cinco?
sábado, 5 de setembro de 2026
Excepto residentes
Praça do Chile, Lisboa, 1973.
Eduardo Gageiro,
in Lisboa no Cais da Memória: 1954-1974, Lisboa, Punkte Art, 2004, p.
189.
Em 1973, virar da Pr. do Chile para a Morais Soares tinha esta
graça que Eduardo Gageiro fixou.
Em 2026, virar a mesma esquina pelo passeio acha-se proibido a peões, excepto residentes. — Imaginai vós agora, portugueses que me ledes [se sobra algum], que espécie de residentes…
Excepto residentes, Praça do Chile — © 2026.
Nota: calhando, a do Gageiro está mal situada além aqui da esquina que proíbe o trânsito de peões em 26. Mas não invalida a questão do' residentes hoje. Sobra o quebra-tolas do lugar exacto da de 73.
terça-feira, 1 de setembro de 2026
O eurideje
Ainda há não muito tempo — ou, calhando, sou eu que estou velho e perco
a noção do tempo — passávamos ali pelo café a tomar a bica antes de seguirmos
para o trabalho e, tinha graça. Era 1,10 €.
Não foi ele há muito,
pois quando começaram com os érios a bica era ainda a 60$00, 70$00
(sessenta, setenta escudos, dizendo os preços em dinheiro); trinta ou trinta e
cinco cêntimos do euro, portanto, para que os moços e os já esquecidos
entendam.
Pois, no tempo a que me refiro, tomávamos a bica ali pela
manhã, eu e a senhora, por 1,10 €. Duas bicas eram 1,10 €; cada bica era por
conseguinte 0,55 €.
Já não falávamos dos preços em dinheiro;
só em érios, como se vê.
Porém o que tinha graça não era
isto. Era que o senhor do café falava axim. E quando dijia a
conta, dijia sempre da mesma maneira:
— Ora, dois cafés
(bica só dizem os alfacinhas): um eurideje.
Com isto
diàriamente foi só natural que me eu, e a senhora, nos passássemos a referir
ao senhor do café e ao próprio café como o eurideje.
Por
isto de natural — e como o que é natural e fica bem é fechar-se para férias em
Agosto — o café do eurideje fechou em Agosto. Para férias.
E
hoje, 1 de Setembro, reabriu, o que também é natural. Lògicamente que o preço
agora da bica já nada tem que ver com os tempos a que me refiro, salvo num
pormenor…
Anda agora cada bica nos noventa cêntimos.
Ou
andava, porque quando fui hoje a pagar a bica (hoje fui sòzinho) o sr. eurideje
disse:
— Ora, um café: um euro.
O espanto foi maior numa
das duas senhoras ao meu lado no balcão do que meu. Tanto assim que de
imediato e a meio duma dentada no croissant com fiambre, uma
delas se não contivesse quanto ao aumento da bica ali no eurideje que
não dissesse dum trago:
— As férias fizeram-lhe mal!…
Um eurideje. Não tarda nada voltamos a ele…
«A "bica" tem novo preço», Diário de Lisboa, 14 de Fevereiro de
1971.





![Pr. do Chile [i.é, R. Morais Soares, [Lisboa], 1973. Eduardo Gageiro, in «Lisboa no Cais da Memória: 1954-1974», Lisboa, Punkte Art, 2004, p. 189.](https://live.staticflickr.com/65535/55509687713_a2a939a4d8_h.jpg)