Ainda há não muito tempo — ou, calhando, sou eu que estou velho e perco
a noção do tempo — passávamos ali pelo
café a tomar a bica antes de seguirmos para o trabalho e, tinha graça. Era
1,10 €.
Não foi ele há muito, pois quando começaram com os
érios a bica era ainda a 60$00, 70$00 (sessenta, setenta escudos,
dizendo os preços em dinheiro); trinta ou trinta e cinco cêntimos do euro,
portanto, para que os moços e os já esquecidos entendam.
Pois, no
tempo a que me refiro, tomávamos a bica ali pela manhã, eu e a senhora, por
1,10 €. Duas bicas eram 1,10 €; cada bica era por conseguinte 0,55 €.
Já não falávamos dos preços em
dinheiro; só em érios, como se vê.
Porém o que tinha graça não era
isto. Era que o senhor do cafés falava axim. E quando dijia a conta, dijia sempre da mesma maneira:
— Ora, dois cafés (bica só dizem os alfacinhas): um
eurideje.
Com isto diàriamente foi só natural que me eu e a
senhora nos passássemos a refeir ao senhor do café e ao próprio café como o
eurideje.
Por isto de natural — e como o que é natural e
fica bem é fechar-se para férias em Agosto (dantes o que era natural
e fica bem era cada um usar o cabelo com que nasceu; no tempo do
Restaurador Olex…) — o café do eurideje fechou em Agosto. Para férias. E hoje,
1 de Setembro, reabriu, o que também é natural. Lògicamente que o preço agora da bica já nada tem
que ver com os tempos a que me refiro, salvo num pormenor… Anda agora cada bica nos noventa
cêntimos.
Ou andava, porque quando fui hoje a pagar a bica (hoje fui
sòzinho) o sr. eurideje disse:
— Ora, um café: um
euro.
O espanto foi maior numa das duas senhoras ao meu lado no
balcão do que meu, confesso. Tanto assim que de imediato e a meio duma dentada no croissant com fiambre, uma delas se não contivesse quanto ao
aumento da bica ali no eurideje que não dissesse dum trago:
— As férias fizeram-lhe mal!…
Um eurideje. Não tarda nada voltamos a ele…
«A "bica" tem novo preço», Diário de Lisboa, 14 de Fevereiro de 1971.