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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Comédie-ballet, o flamenco e a elegância de matar baratas

 No fim da comédia do Burguês Fidalgo há várias entradas de bailado da lavra de Jean-Baptiste Lully — aliás a música e a dança da peça inteira são suas. À terceira entrada é o Ballet dos Espanhóis. Já dele cá deixei em tempos duas árias pelo Colégio de Música de Bednarska (Varsóvia); só interpretação instrumental, porque é música que aprecio. Todavia é mais gracioso desfrutá-la na própria comédia-bailado de Molière e Lully — recriação da peça barroca original com luz de 500 velas na boca de cena e com declamação sempre de frente para a plateia. — Entra um moço espanhol, desesperadamente enamorado, a querer morrer disso — Sé que me muero de amor, Y solicito el dolor. — Entram mais uma dama e um cavalheiro que lhe àquele moteja os queixumes de amor sofrido, próprios dos que não sabem amar. — ¡Ay que loucura! ¡Ay que loucura! ¡Quexarse de amor! — Soma-se então um cigano bailarino audaz que lhes rouba a dama, logo encantada do seu bailar. Segue-se que o segundo espanhol, de conluio com o enamorado, entra na disputa ensaiando bailar como o cigano para ter de novo a dama; ensaia, mas a falta de jeito dá-lhe torcer a perna; entra o primeiro que, mesmo ensinado pelo cigano não dança nada, faz só jus aos que escarnecem ser o sapateado flamenco mero exercício de... matar baratas. E sai de cena. Até a dama desiste dele.
 Escangalhei-me a rir com o passo; sendo recriação histórica pregunto-me cá se a espanholada a matar baratas é piada do encenador contemporâneo, se dos autores originais da peça. Escárnio de franceses em todo o caso.


 O Ballet dos Espanhóis são dez minutos; fica só a 2.ª ária para não maçar, mas o leitor interessado pode recuar ou avançar o cursor do filmezinho a seu prazer. O trajo carregado é bem moda peninsular que os retratos do tempo corroboram; a caricatura teatral fez-me até lembrar os biombos Nambam, com portugueses do séc. XVI muito parecidos...
 Bom! Quem aprecie, melhor é ver, que nisto de tanta explicação maior se torna a maçada.


 


Lully, Ballet dos Espanhóis (ária)
In
O Burguês Fidalgo.

Obras na Rotunda

Obras na Rotunda, Lisboa (J. Benoliel, 1959)
Obras na Rotunda, Lisboa, 1959.
Judah Benoliel, in archivo photographico da C.M.L.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Mulher de Alcouce


PÚBLICO: É de uma pequena aldeia, Alcouce. Guardava cabras, não tinha água em casa, trabalhava a terra, fazia cerca de cinco quilómetros a pé para ir e vir da escola…
De que forma Alcouce contribuiu para ser quem é hoje?


Marisa Matias: Permitiu conhecer outra forma de viver [....]


M.ª João Lopes, «Há um Portugal novo que está a nascer», in Público, 23/11/15.




 Capture.JPG


 De resto Agostinho Azambuja tinha uma confiança muito elegante. A lenda era esse homem vulgar, possuido de uma paixão devoradora, agarra[ra] uma pobre rapariga no mais réles alcouce e fizera-a uma obra sua para dominar a cidade [...]

João do Rio, Dentro da Noite, H. Garnier, Rio de Janeiro/Paris, 1910, p. 224.



segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Se o ridículo matasse? (*)

 Os «portugueses e as portuguesas» são o disparate feito instituição (como o primeiro termo será sempre, naturalmente, comum de dois, acabam dizendo duas vezes as portuguesas (**); é discriminação do masculino a descaso de toda a moral, salva a imbecil dos novos donos dela agora…) Nada nos livra dele — do disparate — porque a marcha da civilização para a idiotia segue infrene. — E não vê o benévolo leitor como dão agora em punir a reles ordinarice com prisão? Mas só quando dirigida ao belo sexo. Coitados, nem enxergam as contradições em que se emaranham negando positivamente a proclamada igualdade, claro, e demonstrando, afinal, como são as mulheres frageizinhas, indefesas e carentes de protecção. É o mesmo juízo que pare dias da mulher sem naturalmente achar necessidade de dias do homem.
 Conceda-se!


Capturar.JPG


 




(*) Se o ridículo matasse...
(**) Sempre que oiço «portugueses e portuguesas» ou «todos os portugueses e todas as portuguesas», gera-se-me a ideia de que a população de Portugal duplicou. Se calhar tenho o periscópio avariado.

Do subpastoreio

 Há dias (na Consoada) andava a Radiotelevisão ou um dos seus sucedâneos com queixumes da ausência de neve na Serra da Estrela. A inculca subliminar não sei se era ou se deixava de ser, mas intuía-se: as «alterações climáticas».
 Sem na invalidar, hoje, na emissora nacional, lá se desanuviavam os espíritos com o anúncio de chuva, que haverá de ser queda de neve acima dos 1 400 m de altitude.
 Pena os espíritos que (in)formam a opinião pública lhes não ocorrer que para nevar, mesmo com o frio que no alto da serra sempre faz, houvesse de chover.


Pastor com seu rebanho, Serra da Estrella (A. Pastor, 1940-70)Pastor com seu rebanho, Serra da Estrella, [antes das alterações climáticas].
Arthur Pastor, in archivo photographico da C.M.L.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Postal de Natal




A Sagrada Família com Sant' Anna*


Rubens, c. 1630
Óleo sobre tela, 115 x 90 cm
(Museu do Prado, Madrid)



Aos benévolos leitores que
generosamente visitam este blogo,
sinceros votos de um


 


 


SANTO E FELIZ NATAL .


A todos
BOAS FESTAS !


Portugal é isto

 A porta do palácio Ratton tornou-se um circo histriónico. Aparece lá cada um! O espelho da nação propondo-se a presidente da república...


 Por lá o cata-vento mais espertalhonamente mediatizado dos últimos dez, quinze anos vê-se já certo em Belém onde, consigo, «as portuguesas e os portugueses vão tentar recriar a esperança»... Para si a certeza do primeiro passo duma «caminhada de cinco anos» (leia-se tacho); para os portugueses ditos «portuguesas e portugueses» ao modo dos donos morais disto tudo, a vaga esperança na forma tentada.


 Em Rapoula gentes das histriònicamente referidas como «portuguesas e portugueses» rejubilam com um traste que construíram e revestiram com as caricas de 200 000 cervejas para fingir de árvore de Natal. Pouco admira que lhe comam democràticamente as papas na cabeça. Haja bebida!


 Na Nazaré um surfista cumpre o sonhado sonho de cavalgar ondas a tocar violino: diz que gente referida por histriónicos cata-ventos como «portuguesas e portugueses» é atraída anualmente pelo fenómeno, aos milhares.


 Haja música!


 


Músico ensaiando o concerto, Ribatejo (M. Valentim, 1976)
Artista popular, Ribatejo, 1976.
Marques Valentim, in Portugal velho.

Da dissociação cognitiva da realidade, inculcada

 Um homem de 29 anos morreu por negligente administração hospitalar. Os administradores diz que proveram entretanto (tarde) a que se não repetisse e demitiram-se. Andaram sem noção das coisas?! Não perceberam no que incorriam?! Que responsáveis serão estes?...
 Na emissora nacional deram notícia do caso às 8h30 desta manhã referindo-se ao falecido como «o jovem de 29 anos». Por três vezes. Outra imprensa usa (e abusa) desta linguagem que inculca juízos nas mentes e vicia a percepção da realidade à gente. Infantiliza. A ponto de acabarmos com administradores como aqueles.

Capture.JPG

Sabeis que é o Natal?

Pois o Menino Jesus do Guglo é isto.


ISTO É ALGUM PRESÉPIO?!!!!


 


Notas em tempo:


1) Premindo a imagem no Guglo, este opera a pesquisa com a chave «Boas Festas!».
2) Optando pela pesquisa de «Mais imagens de Boas Festas!» a primeira representação duma Sagrada Família é dum cartão de «Boas Festas/Season Greetings» da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Fernando Pessoa, de 2011, apresentada para aí à 210.ª opção.
3) Pesquisando com a chave «Feliz Natal!» a primeira Sagrada Família é uma a do blogo Comida de Conforto, apresentada para aí à 75.ª opção.


Eis a projecção do Natal pelo portal do mundo cibernético. Figuração da realidade?...

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Trambiqueiro sim, trampolineiro não

 Ouço às dez na sociedade industrial de concentrados que o Pedro Coelho disse que, consigo, o Banif tinha levado o sumiço que levou na mesma e exacta maneira.


 Portugal é isto. 



Venda ambulante, Terreiro do Paço, 1978.
Frank Thompson, in Portugal velho.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Ainda daquela fotografia…

 De Portugal em 1935. Cujo enigma se decifra em Linda-a-Pastora.
 O benévolo leitor José Lima catrapiscou na rede este postal de Ant.º Passaporte muito, muito a calhar, onde se pode ver o lugar de Linda-a-Pastora no sopé dos outeiros e os moinhos bem distintos na sua cumeada.
 A quem se interesse por estas antiguidades bucólicas e pelo melhor ou pior atulho em que elas devêm, sabei que o confrade José Leite tem nos seus preciosos Restos de Colecção um rico verbete sobre o Estádio Nacional com raras imagens do aprazível vale do Jamor antes e durante a construção do Estádio.

«Courts» de ténis do Estádio Nacional, Jamor (A. Passaporte, c. 1950)


Estádio Nacional de Ténis, Linda-a-Pastora (prox.), c. 1950.
Postal de Ant.º Passaporte in archivo photographico da C.M.L.

Uma certa ideia de país e de mercantilismo natalício

Cartão de Natal dos C.T.T. (F.P.C., s.d.)


(Imagem da F.P.C.)

No tempo dos cartões de Natal sem gatinhos

Mostruário de cartões de boas festa (F.P.C., 1957)


(Imagem da F.P.C.)

Linda-a-Pastora

 Bem me parecia que o Jamor não era descabido. E já Queijas me lembrara, por restos dos moinhos que vejo de Linda-a-Velha na estrada que dali vai a Queluz. Há imagens do Estádio Nacional — não sei se aéreas, se postais do António Passaporte — em que as cercanias a N se apresentam despidas de betão e destas coisas que agora humanizam a païsagem, em que me lembrava duma série de moinhos naqueles cabeços. Talvez fosse delas... Andei em sua busca e não as achei. Confesso que enveredei então por outra busca, B. Korhmann, que não foi imediata, e que me deu a final isto; mas foi como ir ver às soluções...


 Hei ainda de ver se descubro bem o enquadramento da estrada — o vale do Jamor já foi tão revolvido que nem sei se a estrada subsiste. Calhando não. As casas quase de certeza.
 



 

Serviços desconcentrados da administração central

É. Na Presidência do Conselho escreve-se assim.


Serviços desconcentrados da administração central

domingo, 20 de dezembro de 2015

Da tragédia na linha de Sintra em 1965

DL, 21-12-1965, p1.jpg  O confrade Manuel recorda no Gasolim o acidente ferroviário entre Algueirão – Mem Martins e a Portela de Sintra em 20 de Dezembro de 1965. Dá notícia sumária do caso — um comboio de mercadorias partiu inexplicàvelmente de Sintra pela contravia e chocou de frente com um tranvia com destino a Sintra — e remete-nos ao blogo de Algueirão – Mem Martins onde uma nublosa recordação do caso aparece comentada a propósito e a despropósito por gente mais ou menos coisa...
  Alguns comentários são testemunhos de memória oral, mas — fatalmente, nesta era democrática... — lá se nota a colagem pavloviana duma tragédia de aparentes razões prosaicas ao malévolo regime do Estado Novo. — Nem sei como era permitido haver comboios...
  Os idiotas que lá misturam a P.I.D.E. e a censura podiam ler com proveito o insuspeito Diário de Lisbôa de 21/12/1965 fotocopiado para o Mundo pelo «pai da democracia» lá na fundação que a rica dita lhe subvenciona. Está tudo no jornal, expressamente visado pela censura e em melhor reportagem dos factos do que livremente se hoje lê na imprensa, aposto. Fàcilmente perceberiam (ou não, dependendo do embotamento doutrinário) que contar e identificar vítimas esquartejadas por acidente tão violento como o que se deu é mais difícil que trautear a tabuada. É ler o jornal, por conseguinte, e o do dia seguinte também para ver como o inquérito foi entregue à Polícia Judiciária por se ver o Delegado da Procuradoria-Geral da República da comarca de Sintra a braços com tanto trabalho, já então, que não seria capaz de produzir conclusões em tempo útil. Eis a pista. Calhando a curiosidade histórica actual dar em vasculhar o arquivo da P.J. talvez nele ache as almejadas provas da conspiração do silêncio entre o «fâchismo» e a C.P. que alguns doutrinadamente atribuem ao caso. À parte isso outra conclusão mais simples — e não serão precisos grandes trabalhos para lhe chegar — é que a memória é curta e atraiçoa. Se partirmos do erro de que a tragédia foi três dias depois de ter sido, em poucos jornais dessa data errada lhe acharemos notícias. Isto se as sequer procurássemos, claro, como apesar de tudo parece que foi com o autor do blogo de Algueirão – Mem Martins, sr. Hugo Nicolau, que menciona o Correio dos Açores como fonte da notícia que deu do caso.
  Quem se interessar pela explicação da tragédia tem, pois, pistas sólidas para seguir.


Diário de Lisbôa, 22-12-1965, p15(Págnas do Diário de Lisbôa de 21 e 22 de Dezembro de 1965 à conta Fundação do irmão do dr. Tertuliano.)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Portugal, 1935

 Recuando 80 anos — devem chegar para calcar com merecimento a avantesma em tipo-passe que aqui pespeguei onte'.
 Pois recuando 80 anos, uma de Portugal com muito bom aspecto, concordareis. Mas, onde?


Portugal, 1935 (B. Kohrmann)
Portugal, 1935. B. Kohrmann in Portugal Velho.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

E a notícia é...

Ilhas dos Açores fustigadas por temporal?
Não. É o aviso vermelho.




(R.T.P. 3, 15/12/15)

O Brasil mal acabado

5.ª Coluna («O Diabo, 15/XII/15)

«O Diabo», 15/XII/2015.
(Prima o recorte para p/ ver a pág. inteira.)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Chronica do trabalho em Lisboa

Operários com bois e cilindro, Rotunda (A.F.C.M.L.)


Operarios calcam a Rotunda com cilindro puxado por bois, Lisboa, post 1901.
Photographo não identificado. Archivo photographico da C.M.L.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Do revisionismo vicioso

 Dinis de Abreu, no «25 de Novembro abafado...» (Sol, 11/XII/15) cita Ant.º Barreto no colóquio dos 40 anos do dito: «tal como o Estado Novo quis esbater o 5 de Outubro, a democracia quer apagar o 25 de Novembro». No respeitante ao 25 de Novembro é verdade, mas é uma comparação infeliz — para lhe não chamar estúpida e despropositada — porque está viva na mente de todos a desclassificação dada pela III.ª República ao Cinco de Outubro.
 Em abono do «esbatimento» do Cinco de Outubro pelo Estado Novo lembrou-me, além de ter sido ele sempre dia feriado, o monumento a Ant.º José de Almeida, projectado pelo arq.º Porfírio Pardal Monteiro e esculpido por mestre Leopoldo de Almeida, inaugurado a 31 de Dezembro de 1937 por iniciativa do Governo na praça onde termina a avenida também dedicada a Ant.º José de Almeida.

Av. Ant.º José de Almeida, Lisboa (A. Passaporte, c. 1957)

Monumento a Ant.º José de
Almeida, Lisboa, c. 1957.

António Passaporte, in archivo photographico da C.M.L.

 Resta contar que em 30 Dezembro de 1974, na véspera dos 37 anos da homenagem do governo do Estado Novo ao tribuno da I.ª República, a rua que converge do lado Sul para a praça (à direita na imagem) deixou de se chamar do General Sinel de Cordes para a crismarem Alves Redol. Dizem os anais do município que foi da «necessidade de eliminação dos nomes afrontosos para a população, pela sua última ligação ao antigo regime».
 Pois é. Como Estado Novo «quis esbater» a memória histórica do Cinco de Outubro levantando estátuas a vultos da I.ª República, os nomes a si (ao Estado Novo) ligados tornaram-se afrontosos havendo necessidade de liminarmente os eliminar da memória da população.
 A III.ª República é que nem esbate nem censura nada, compõe-se só de liberdade e de democratas inteligentes assim.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Informação Minipreço por graça do comércio

Uma destas manhãs na Rádio Renascença: — São nove horas e treze minutos. Esta é uma informação Minipreço.


Chiado, Lisboa (J. Benoliel, 191...)
Loja de máquinas de costura, fábrica de gravatas, e relojoeiro, Chiado, 191...
Joshua Benoliel, in archivo photographico da C.M.L.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Até os do archivo photographico municipal!...

 Nada a fazer.  Quando até os do archivo photographico chamam «Campo das Cebolas» a isto que vedes não ser campo nenhum... Cabeças de abóbora há aí cheias de Halloween, mas sem memória das suas coisas. Nem vale a pena dizer mais nada. Não tardará aqui o comentário cliché de inspiração «o povo é quem mais ordena» em que o uso legitima o erro. É bonito, democrático até: tão popular quanto a abrangência da ignorância o possa ser, ou, institucionalmente, aquilo que democràticamente sempre viceja, desde o amanuense archivista de secretária ao presidente do concelho sufragado por enxertia.


 O Campo das Cebolas mudou-se para Poente de si mesmo por ignorância popular e oficial dos seus limites. Melhor, que me lembre neste chão, só uma oliveira galega que lhe prantaram, arrancada ao Ribatejo e polvilhada de Saramago, e que secou. Medra tudo por igual: a cultura saramago-azeiteira e a cultura pròpriamente dita, de que a memória faz parte. O cúmulo azeiteiro-cebolário é nobelizarem o topónimo das cebolas em Saramago. Já faltou mais.


Alfândega, Lisboa (P. Guedes, 19...)


Gradeamento da Alfândega (Min. das Finanças), Rua da Alfândega (em frente), Rua do  Instituto Virgílio Machado (dir.), Tr. dos Bicos (ao centro, para lá, em direcção à Casa dos Bicos, de que se só vê o telhado).


Photographia de Paulo Guedes, c. 1900, in archivo photographico da C.M.L.


 


(Revisto às 5 e ¼ da tarde.)

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Desnortes duma vereação enxertada

Terreiro das Farinhas visto da Rua dos Arameiros antes das demolições, Lisboa (E. Portugal, 1940)
Terreirinho das Farinhas visto da Rua dos Arameiros antes das demolições, Lisboa, 1940.
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.


 


 Acabei de ver a notícia dumas obras apregoadas ante a casa dos bicos pelo farsante enxertado na presidência da C.M.L. Referia-se, ele e a notícia, com figurantes a fazer de emplastros acenando as cabeças, ao espaço entre as ruas dos Bacalhoeiros, dos Arameiros e da Alfândega, mai-lo espaço desafectado à Alfândega, a oriente do Ministério das Finanças, como Campo das Cebolas. O tratante das obras agora publicitadas diz que é presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Pois:



  1. não conhece as ruas: o Campo das Cebolas vai da confluência da Rua dos Bacalhoeiros com a Rua da Alfândega à Rua do Caes de Santarém e à Av. do Infante D. Henrique, não é no espaço aberto pelas demolições do Terreirinho das Farinhas, Tr. das Portas do Mar, Tr. dos Bicos e Boqueirão da Palha; não precisavam de saber isto tudo, mas bastava-lhes, àqueles todos que se pavonearam ante as câmaras de T.V., darem uma voltinha pelas adjacências e lerem as placas toponímicas que lá sobram para vencerem o desnorte sôbre chão que pisavam; admito que o Campo das Cebolas venha a mudar de poiso por causa de cabeças de alho chocho, mas, que saiba eu, a toponímia do que resta ante a Casa dos Bicos não mudou ainda, apesar destes erros já vingarem nos mapas do Google;

  2. não cuida do que devia: as obras são converseta boa para empreiteiros e pavoneio para inglês ver, mas são uma caixa de pandora com o que há-de aflorar escavando aqueles chãos; arranjar e manter a calçada portuguesa nos passeios em toda a cidade ou atalhar à ruína de tanto património edificado seria mais urgente e útil a quem mora em Lisboa; e

  3. a conversa do eléctrico 24 (reposição da carreira) é prestidigitação para tomar o mando da Carris; como se o 24 fosse panaceia dos males dalguém que viva ou trabalhe em Lisboa.


 


Campo das Cebolas, Lisboa (P. Guedes, s.d.)Campo das Cebolas, Lisboa, 19....
Paulo Guedes, in archivo photographico da C.M.L.

Conceição Nova de Lisboa

 Enquanto os feirantes transvestiram profanamente no modelo de feira vigente o dia da Imaculada Conceição — o Dia da Mãe passou para não me lembra agora quando, a par doutros epifenómenos do calendário vigente — a História veio a coroar Nossa Senhora da Conceição rainha e padroeira de Portugal e todos os seus domínios desde as côrtes de 1645-46, o que perdura, embora não saiba eu quantos o ainda saibam...


 Por seu lado, a nova marcha dos tempos veio a ditar a demolição da igreja da Conceição Nova, na Baixa, em favor da instalação do Banco de Portugal em 1951.
 Se a manuelina Conceição Velha perdura na Rua da Alfândega, felizmente, a Conceição Nova (a paróquia tem registos desde 1568), ninguém na recordará. Foi fundada em 1699, caiu no terramoto e reedificou-se com devoção de 1756-94 nas ruas da Conceição e Nova do Almada. Foi demolida em 51, como disse. Os altares e objectos litúrgicos foram levados para a nova igreja de S. João de Brito em Alvalade, em 1955. O que há de imagens dela no arquivo municipal é pouco mais que isto.


Igreja da Conceição Nova, Lisboa (E. Portugal, s.d.)
Igreja da Conceição Nova (altar), Lisboa, ante 1951.
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.

Roubin das artes ou dinamização cultural XXI



  A notícia do Robin das artes que desviou 4 das reproduções de obras o Museu Nacional de Arte Antiga é de claro pendor … democrático (Sara Coelha, «Robin das Artes tirou quatro quadros do Chiado e deu-os ao [a] Miratejo [i.é Quinta de S. Amaro]», in Observador, 6/12/15 — sublinhado meu).
 O benfazejo Robin roubou à rica Baixa de Lisboa caras réplicas de obras de arte para as dar aos bairros sociais de Almada. — Tão lindo! A imprensa adora isto. — A crueza desta estupidez, porém, é como se lê na notícia d' O Diabo: «Pérolas a porcos», em que o pobre povo (tido por) desfavorecido, menosprezado, esquecido e maltratado pouco mais vale do que o vandalismo e a ladroagem que pratica.
 A dissociação da realidade desta «iniciativa» tão democrática via-se logo no título -- «Coming Out» -- todo castiço. Típico de democratas de secretaria com sinecura cunhada no marxismo cultural e correspondente eco marketeiro na imprensa do género.
 Força, camaradas, com essa elaborada dinamização cultural XXI!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Alameda popular sem «dinamização» esquerdóide

Venda ambulante, Alameda (A. Madureira, 1960)
Venda ambulante, jardim e esplanada, Alameda, 1960.
Arnaldo Madureira, in archivo photographico da C.M.L.


 


Ver dinamização esquerdóide...

No tempo do Império com «Barreiras Vencidas»

Jardim da Alameda e Cinema Império, Lisboa (Ant. Passaporte, 1954)


(Postal de Ant.º Passaporte no archivo municipal.)

Uma, duas por todos...

 Ou o carácter dum regime que jorra da canhota sobre fontes, monumentos, praças, tudo.

Feudo esquerdóide, Alameda (9/XI/2015)




Duas da Alameda do feudo esquerdóide, Lisboa — © 2015

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Flagrantes delitros

 O regime engravatado no chocalho identitário chocalha os 80 anos do passamento de Fernando Pessoa como chocalhou no 40.º aniversário do infausto acidente nacional o não haver pronto-a-vestir em Portugal antes do 25 de Abril: i. é, com propaganda antifascista. Tão vagabunda na Lisboa de Pessoa, como perdida da História ou do poeta, a balsemónica sociedade industrial de concentrados (S.I.C.) rematava uma reportagem da efeméride às dez para as sete com censura a despropósito, lavada na mistela-mor do capitalismo norte-americano:



 Pessoa mostrou também o seu génio criativo na publicidade. É dele a frase para a Coca-Cola em 1929: «Primeiro estranha-se, depois entranha-se». A frase foi censurada pelo Estado Novo por se considerar que aludia a uma substância com cocaína (Sílvia de Lima Rato, Edgar Ascensão, «Na Lisboa de Pessoa», S.I.C.-N, 30/XI/15).



 Pessoa censurado é muito mais génio, hem! Um democrata. Melhora mais se a censura do Estado Novo recuar com os concentrados de notícias sick a 1929, isto quando o dito regime foi introduzido pela Constituição de 1933... — E não recua mais porque a Sílvia Rata da S.I.C. não deu com a «Maldita Coca-Cola»  da Cláudia Sobral no Público de 8/5/2011, senão era ver a censura do Estado Novo ainda mais precoce, em 1927, sem Salazar sequer ministro, mas com o higienista Dr. Ricardo Jorge a fazer-lhe o jogo (eram amigos): «o slogan de Fernando Pessoa ajudou à morte da representação da Coca-Cola. [Ricardo Jorge, director de Saúde em Lisboa] mandou apreender o produto existente no mercado e deitá-lo ao mar [...] » — Azar!



  Já neste dia — como dirá o Fernando Alves —, depois de almoço, na T.S.F., o poeta veio misturado pelo dito locutor dos Sinais com Sílvio Lima, «considerado um dos introdutores da moderna Psicologia em Portugal» (citação textual da Wikicoisa textualìssimamente expelida pelo Fernando Coiso aos microfones assim). A mistura estranha-se mas serve ao Fernando, o Alves, para entranhar Sílvio Lima, «que tinha sido demitido nesse ano de professor universitário por ser opositor ao Estado Novo», no outro Fernando maior, o Pessoa. Artificio notável, dar com génios assim em bestas de carga de opositores ao Estado Novo. Não é para qualquer um. — Arre, Fernando Alves!


  O génio criativo de Pessoa anda mal aprendido na publicidade e mal estudado em muito mais. Pois do democrata Fernando Pessoa, em cujas cavalitas andam hoje montados opositores ao Estado Novo de antanho, gargarejadores da mesma arenga de agora, assim como simples idiotas de encher vazios televisivos, seria de conhecer — para lá da baralhada Pressa febril da vida moderna, que foi o que o Alves da T.S.F. soube catar — a Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal (1928).


 Escreveu Torga — «Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era (Vila Nova, 3 de Dezembro de 1935, in Diário I, 7.ª ed., Coimbra, 1989, p.19)».


 Endeusam-no agora sem ainda perguntarem. Não interessa. Basta rotulá-lo correctamente, não é assim?!...




Imagem in Companhia Agrícola do Sanguinhal,  apud Restos de Colecção (25/10/2011).