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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Flagrantes delitros

 O regime engravatado no chocalho identitário chocalha os 80 anos do passamento de Fernando Pessoa como chocalhou no 40.º aniversário do infausto acidente nacional o não haver pronto-a-vestir em Portugal antes do 25 de Abril: i. é, com propaganda antifascista. Tão vagabunda na Lisboa de Pessoa, como perdida da História ou do poeta, a balsemónica sociedade industrial de concentrados (S.I.C.) rematava uma reportagem da efeméride às dez para as sete com censura a despropósito, lavada na mistela-mor do capitalismo norte-americano:



 Pessoa mostrou também o seu génio criativo na publicidade. É dele a frase para a Coca-Cola em 1929: «Primeiro estranha-se, depois entranha-se». A frase foi censurada pelo Estado Novo por se considerar que aludia a uma substância com cocaína (Sílvia de Lima Rato, Edgar Ascensão, «Na Lisboa de Pessoa», S.I.C.-N, 30/XI/15).



 Pessoa censurado é muito mais génio, hem! Um democrata. Melhora mais se a censura do Estado Novo recuar com os concentrados de notícias sick a 1929, isto quando o dito regime foi introduzido pela Constituição de 1933... — E não recua mais porque a Sílvia Rata da S.I.C. não deu com a «Maldita Coca-Cola»  da Cláudia Sobral no Público de 8/5/2011, senão era ver a censura do Estado Novo ainda mais precoce, em 1927, sem Salazar sequer ministro, mas com o higienista Dr. Ricardo Jorge a fazer-lhe o jogo (eram amigos): «o slogan de Fernando Pessoa ajudou à morte da representação da Coca-Cola. [Ricardo Jorge, director de Saúde em Lisboa] mandou apreender o produto existente no mercado e deitá-lo ao mar [...] » — Azar!



  Já neste dia — como dirá o Fernando Alves —, depois de almoço, na T.S.F., o poeta veio misturado pelo dito locutor dos Sinais com Sílvio Lima, «considerado um dos introdutores da moderna Psicologia em Portugal» (citação textual da Wikicoisa textualìssimamente expelida pelo Fernando Coiso aos microfones assim). A mistura estranha-se mas serve ao Fernando, o Alves, para entranhar Sílvio Lima, «que tinha sido demitido nesse ano de professor universitário por ser opositor ao Estado Novo», no outro Fernando maior, o Pessoa. Artificio notável, dar com génios assim em bestas de carga de opositores ao Estado Novo. Não é para qualquer um. — Arre, Fernando Alves!


  O génio criativo de Pessoa anda mal aprendido na publicidade e mal estudado em muito mais. Pois do democrata Fernando Pessoa, em cujas cavalitas andam hoje montados opositores ao Estado Novo de antanho, gargarejadores da mesma arenga de agora, assim como simples idiotas de encher vazios televisivos, seria de conhecer — para lá da baralhada Pressa febril da vida moderna, que foi o que o Alves da T.S.F. soube catar — a Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal (1928).


 Escreveu Torga — «Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era (Vila Nova, 3 de Dezembro de 1935, in Diário I, 7.ª ed., Coimbra, 1989, p.19)».


 Endeusam-no agora sem ainda perguntarem. Não interessa. Basta rotulá-lo correctamente, não é assim?!...




Imagem in Companhia Agrícola do Sanguinhal,  apud Restos de Colecção (25/10/2011).

3 comentários:

  1. Inspector Jaap7/12/15 12:57

    Caro Bic, a ignorância desta gente é a única coisa que ainda nos pode salvar, quiçá, do descalabro e derrocada completos.
    Pois se não sabem nada de coisa nenhuma, a não ser o que pavlovianamente lhe instilam no bestunto, tanto dizem mal de Salazar, como tecem loas a Pessoa ou fabricam heróis do nada, como um tal obscuro funcionário do MNE, menor e com registo de castigos na folha, ao que sei.
    Quando a campainha toca, é o que sair que vale no momento.
    Cumpts

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  2. São ignorantes cheios de sabujice. Nada nos salva.
    Cumpts.

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  3. Mas De toda a maneira prefiro que tenha V. razão.
    Cumpts.

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