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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Esta vida de turista! (10/7/08)

Engano


Moleskine 


 O novo caderninho foi um engano. A capa mole não facilita nas anotações breves e rápidas; não dá apoio de escrita. Em chegando a Lisboa vou ter de comprar outro. Ao depois vejo o que fazer deste. Entretanto pus cá nele, a abrir, o homem das pastilhas...

 


O homem das pastilhas


Carrinha do homem das pastilhas (Ford 300E) O homem das pastilhas era o pracista das guloseimas que abastecia a mercearia da esquina. Nunca aquele homem de bata cinzenta por cima do fato engravatado deu qualquer coisa à miudagem lá da rua. Uma pastilha que fosse.

  - "Ó vizinho! Dê-nos uma pastilha! Só uma! Dê lá!..." - era a cantilena do Nabo e do irmão. O homem das pastilhas quase sempre ignorava; raramente respondia sequer que não, mas eles persistiam; para o fim era já só o Nabo que se punha naquilo, quando o irmão mais velho se fez rapazola e deixou de parar lá na rua. Nesses tempos mais antigos eu ficava calado atrás; não me rebaixava à pedincha porque o homem nunca dava nada, mas não me afastava, não se desse o caso de o homem perder o tino e acabar por dar alguma coisa. Entretanto ia cismando cá comigo sobre a marca da carrinha antiquada do homem das pastilhas. Não sei porquê ganhei crença que era Opel; todos os carros arredondados de aspecto antiquado que eu via eram Opel. E todos eles ostentavam a marca, o que não era o caso da carrinha do homem das pastilhas. Toda a vez que o homem abalava sem dar nada o Nabo reclamava: - "É sempre o mesmo. Custava-lhe muito dar uma pastilha à gente?!..." - Eu respondia, quem sabe desculpando o homem das pastilhas: - "Ele nem tem dinheiro para uma carrinha mais moderna. Anda naquela Opel tão antiga." Aí o Nabo enervava-se: - "Aquilo não é uma Opel, é uma Ford." - mas eu não acreditava. Não conhecia nenhum Ford com aquele aspecto. Nem a carrinha dizia Ford no capot nem em mais lado nenhum que eu visse. Mas o Nabo tinha razão. Era Ford era. Nabo afinal era eu.


Cultura biológica


 Quando as coisas eram simples a linguagem não precisava ser elaborada. Hoje estamos no ponto das mentiras se dizerem inverdades. Também dantes, os pais perante os filhos eram pura e simplesmente pais; não sendo progenitores diziam-se então pais adoptivos para maior clareza. Era quanto bastava. Agora a clareza é uma madrasta e a Biologia é um prado verde cheio de adubo natural onde os jornalistas pastam. Foi este desenvolvimento sustentável que fez brotar pais biológicos da cabeça daquela gente noticieira.

2 comentários:

  1. Abri uma série de páginas simultaneamente e, ao ler a história do homem das pastilhas, não me apercebi em que blogue estava. Comecei então a procurar no fim do texto quem era o seu autor, pois não admiti que pudesse não se tratar de uma citação de escritor conhecido e, por mérito, reconhecido. É raríssimo encontrar na blogosfera linhas com esta qualidade.
    O Bic Laranja sabe que não é meu costume elogiar.

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  2. Bic Laranja8/8/08 23:10

    É, de feito, um grande elogio. Agradeço-lho mas não sei se o mereço. Obrigado!

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