Engano
O novo caderninho foi um engano. A capa mole não facilita nas anotações breves e rápidas; não dá apoio de escrita. Em chegando a Lisboa vou ter de comprar outro. Ao depois vejo o que fazer deste. Entretanto pus cá nele, a abrir, o homem das pastilhas...
O homem das pastilhas
O homem das pastilhas era o pracista das guloseimas que abastecia a mercearia da esquina. Nunca aquele homem de bata cinzenta por cima do fato engravatado deu qualquer coisa à miudagem lá da rua. Uma pastilha que fosse.
- "Ó vizinho! Dê-nos uma pastilha! Só uma! Dê lá!..." - era a cantilena do Nabo e do irmão. O homem das pastilhas quase sempre ignorava; raramente respondia sequer que não, mas eles persistiam; para o fim era já só o Nabo que se punha naquilo, quando o irmão mais velho se fez rapazola e deixou de parar lá na rua. Nesses tempos mais antigos eu ficava calado atrás; não me rebaixava à pedincha porque o homem nunca dava nada, mas não me afastava, não se desse o caso de o homem perder o tino e acabar por dar alguma coisa. Entretanto ia cismando cá comigo sobre a marca da carrinha antiquada do homem das pastilhas. Não sei porquê ganhei crença que era Opel; todos os carros arredondados de aspecto antiquado que eu via eram Opel. E todos eles ostentavam a marca, o que não era o caso da carrinha do homem das pastilhas. Toda a vez que o homem abalava sem dar nada o Nabo reclamava: - "É sempre o mesmo. Custava-lhe muito dar uma pastilha à gente?!..." - Eu respondia, quem sabe desculpando o homem das pastilhas: - "Ele nem tem dinheiro para uma carrinha mais moderna. Anda naquela Opel tão antiga." Aí o Nabo enervava-se: - "Aquilo não é uma Opel, é uma Ford." - mas eu não acreditava. Não conhecia nenhum Ford com aquele aspecto. Nem a carrinha dizia Ford no capot nem em mais lado nenhum que eu visse. Mas o Nabo tinha razão. Era Ford era. Nabo afinal era eu.
Cultura biológica
Quando as coisas eram simples a linguagem não precisava ser elaborada. Hoje estamos no ponto das mentiras se dizerem inverdades. Também dantes, os pais perante os filhos eram pura e simplesmente pais; não sendo progenitores diziam-se então pais adoptivos para maior clareza. Era quanto bastava. Agora a clareza é uma madrasta e a Biologia é um prado verde cheio de adubo natural onde os jornalistas pastam. Foi este desenvolvimento sustentável que fez brotar pais biológicos da cabeça daquela gente noticieira.
Abri uma série de páginas simultaneamente e, ao ler a história do homem das pastilhas, não me apercebi em que blogue estava. Comecei então a procurar no fim do texto quem era o seu autor, pois não admiti que pudesse não se tratar de uma citação de escritor conhecido e, por mérito, reconhecido. É raríssimo encontrar na blogosfera linhas com esta qualidade.
ResponderEliminarO Bic Laranja sabe que não é meu costume elogiar.
É, de feito, um grande elogio. Agradeço-lho mas não sei se o mereço. Obrigado!
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