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terça-feira, 28 de novembro de 2006

Perdidos & achados

 O eléctrico sobe a Rua de Dona Estefânia. A cabina telefónica é na Av. Duque de Ávila. À esquina a Casa dos Estudantes do Império que não me diz grande coisa. O que me fala na imagem é marginal e encoberto: o palacete onde acho que funcionou um colégio para raparigas, com o seu pátio cercado e o portão de chapa azul enferrujada, que se identifica na sombra das árvores no lado da Rua de Dona Estefânea. Meio tapado por elas, o prédio a seguir, cujos últimos dois andares se vêem acima da copa das árvores, foi anexado ao colégio das raparigas; uma porta lateral e uma passagem no seu logradouro ligavam ao pátio do palacete...


Casa dos estudantes do império, Arco do Cego (A.J. Fernandes, 1961)


 


 Depois de 74, não sei ao certo quando, o palacete e o prédio anexado deram em escola secundária. Do Arco do Cego, chamava-se. Escuso dizer que em tão improvisada escola não cabiam instalações para Educação Física.
 Pois não!
 Pois bem! Recorríamos ao Instituto Superior Técnico com enorme vantagem: havia um generoso campo de bola de terra batida, com balizas; um ginásio plenamente equipado; e - um luxo - a piscina. Cada ano lectivo as aulas de Educação Física eram um semestre na piscina, um semestre no ginásio.
 Calhou-me andar lá três anos: do 7º ao 9º. Três saudosos anos com a Bé, a Célia, a Cristina, a Dulce, a Fernanda, a Mónica, o Acabu, o António da R. António Pedro, o Fumaça, o Jorge Vicente, o Mário David (dito o Prego), o Nuno Tempero, o Orlando, o Paulo Jorge, os irmãos Saramagos (eram o Saramago e o Saramaguito), um mocito (Jorge?) da Praceta Afrânio Peixoto com jeito para a bola e uma carrada de gente que, peço desculpa, mas já me esqueceu o nome.
 Em 82 o cenário desta história fechou e a turma destroçou. Quase um quarteirão de anos passados reencontrei uma das personagens ali de cima no Lost and Found do aeroporto de Lisboa.




Notas finais:
 A fotografia é de Augusto de Jesus Fernandes e encontra-se no Arquivo Fotográfico da C.M.L..
 Daquele tempo retive mais que as outras esta cançoneta; não sei porquê...
 




Adenda (29/11 às 8:13 da noite):




 Buááá a minha escolinha... Escola Lusitânia Feminina linda de morrer... Tudo em 3 línguas (Português, Francês e Inglês). O professor "China" o Major, a Madame "Forté"; ai que saudades!... Os namorados esperavam na porta e eram mantidos à distância pela contínua com vassoura na mão!!!! Tinha vitrais, bancos de jardim, máquinas Royal e 1 eléctrica. O que eu adorei aquilo.
 Depois do 25 Abril mudou tudo (estragou); os professores foram despedidos e os novos não percebiam nada de nada; os diplomas deixaram de existir, as letras azuis foram derrubadas, e entraram os vândalos... Guardei uma delas durante anos. Foi a melhor escola de secretariado durante anos, daqui saíram secretárias de direcção, hospedeiras da TAP, e muitas Senhoras que hoje são gestoras em grandes empresas. [...]


Comentário de luar em 29/11/06 às 11:37 AM.

Pólis

 Esteve para o deitarem abaixo - não sei já quem foi que me disse.
 Ao depois - isso vi eu - raparam-lhe o miolo e puseram-lhe dentro um caixotão em vidro. Parece que mediram mal a coisa - ou se calhar não - e espirrou o vidrão lucrativamente para cima mais uns quantos andares. Às vezes as obras espirram, mesmo a engenheiros: olha o I.C.19 - o alargamento - que foi inaugurado só em 1/4 do bocadinho novo; calhou fazer-se metade da extensão prevista e nessa metade só num dos sentidos. Que foi por causa do Pólis que vai atrasado - ouvi nas notícias.
 Ora, quem vive na pólis tem margem para se atrasar. Como não tem que gastar tempo nos icês 19...

Rua Braamcamp, Lisboa (A.Madureira, 1960)
Repartição de concursos do pessoal dos C.T.T., Lisboa [R. Braamcamp, 26], 1960.
Arnaldo Madureira in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

O Bob...

 Diz que o sr. engº Sócrates inaugurou (1) hoje uma terceira faixa no I.C.19 entre Massamá (2) e o Cacém; são talvez uns 0,9 km...
 Bob, o Construtor [agora que já se anda bem] planeia entretanto construir mais uns fogos!




(1) Alguém concebe o que é inaugurar um alargamento...?
(2) As notícias dizem Queluz, mas de Queluz a Massamá foi um sócrates futeboleiro que diz que foi quem fez.

sábado, 25 de novembro de 2006

Da civilidade

 Entre gente urbana por norma a prioridade cabe a quem chega primeiro. Se houver disputa não haja ilusões: a primazia caberá ao contendor alfa por via natural da sua força. Mas havendo equilíbrio de forças esgrimir-se-ão argumentos: práticos. Sendo que os lobos não se comem entre si e parecendo tratar-se aqui de gente urbana, a prática levará por certo à conciliação. Ora a prática da conciliação é uma contabilidade em que nenhuma das partes perde. Ambas lançam sempre a sua conta pelo Haver, lançando a correspondente contrapartida a débito na conta dos do costume.



Os síndicos dos mercadores de panos  («De Staalmeesters»)
Rembrandt, 1622.

Óleo sobre tela, 191,5 x 279 cm, Rijksmuseum, Amesterdão.

 

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Monte Abraão

 O caudex anda aburguesado; em vez de calçar as galochas deu em manda-chuva. É vê-lo feito Olavo Rasquinho a explicar a superfície frontal. Tem perfil...
 Ouvi outra ali na televisão dizer que alguém ficou com o carro atolado; com isto da chuva fiquei na dúvida se o atolamento foi dentro de água. Neste caso temos evolução semântica por via duma tola mente...
 Vamos então ao Monte Abraão: por motivo inesperado vi-me na obrigação de lá ir. O monte é tão íngreme que subir até lá é uma epopeia. Ver toda a construção feita ali e gente morando lá é penoso. Os vizinhos de Monsaraz, logo que os mouros já não rondavam, desceram para o Reguengo porque viver muito no alto quando se trabalha na planície nunca é fácil. Monsaraz foi quase abandonada por uma questão prática. Ao invés, dá-me ideia que a moirama anda rondando por Queluz...


Aqueduto que abastecia o palácio [monte Abraão em 2º plano], Queluz, c. 1900.
Fotografia de Paulo Guedes in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

No concelho de Sintra ainda se hão-de erguer prédios no meio de rotundas.

Do incontornável (*)

Nos povoados progressivos, toda e qualquer rotunda é uma realidade incontornável.

Saldanha, Lisboa 
Saldanha, Lisboa, c. 1960.
Postal no Fórum Auto-Hoje sem menção de autor ou editor.


(*) Vocábulo inevitável para designar o que se pretende afirmar como... inevitável.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Do ruído

 Pronto! Pronto!
 A senhora da Direcção Geral de Saúde já veio dizer que os grupos de risco devem sempre tomar a pica, que os meses mais engripados são sempre Dezembro e Janeiro e que a gente ainda está muito a tempo de se vacinar neste Inverno. E lá se desculpou: que o tempo ameno fez esquecer a gripe - a dita sazonal, que a dos pássaros canta-se sem prazo de validade; e que foi também a imprensa quem se foi esquecendo de mostrar o papão da gripe...
 Enfim! A indústria dos remédios lá irá desencalhar as existências os stocks em armazém e até ao próximo vislumbre de lucros cessantes não haverá mais banzé.

Amadora (A.Cunha, 1975)
[Tempo ameno com ruído de fundo], Amadora, 1975.
Fotografia: Alfredo Cunha — Naquele Tempo: 1970-1995, Contexto, 1995 (catálogo da exposição).

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

American Gigolo para crianças?

Parece-me também que a banda dos Marretas e a Debbie têm mais garra que os Blondie.

domingo, 19 de novembro de 2006

Puxando a meada...

 Desaguei sem saber bem como neste bloc.  Pequeninas curiosidades que tenho pregado cá na parede do blogo têm-me valido alguns imerecidos louvores de 'serviço público'. O louvor pertence lá, onde o labor é invejável!


Sintra rural, s.d. (in Alagamares.net)
Sintra Rural no início do séc. XX, em Alagamares.net.




Nota: o autor do Portugal em Postais Antigos é oriundo de Montemor-o-Novo; uma estranha coincidência a seguir a duas imagens (uma sem saber) da dita terra.

Montemor-o-Novo. Rua 5 de Outubro

Pela direita, Montemor-o-Novo (R. Cinco de Outubro)


 Interrogava-me eu onde seria a bomba de Auto-Gazo. Ora vede só; era no Alentejo e tinha gasolina filtrada. Tudo em melhor ordem, por conseguinte.




 Adenda: traslado para aqui o valioso comentário dum gentil leitor.


 Caro amigo, há coisas mesmo incríveis! Acredite ou não, a casa onde o Auto-Gazo esteve instalado, é presentemente propriedade de uma tia minha, razão por que a conheço perfeitamente.Claro que o Auto-Gazo desapareceu há muito; aliás, nem supunha que uma coisa deste género tivesse existido por ali alguma vez. Hoje está lá instalada uma barbearia. No rés-do-chão, nas duas portas mais à esquerda, funciona actualmente uma farmácia. Para a casa propriamente dita, entra-se pela terceira porta a contar da esquerda. Ah, do lado oposto àquele onde estão os senhores anafados e de chapéu sentados à mesa (aí ainda hoje existe um café), funciona - imagine - um centro de trabalho do PCP...

Enviado por Zé em 19/11/06 às 07h44 da tarde.




Postal do Fórum Auto-Hoje por gentileza do sr. Napoleão Coelho.

sábado, 18 de novembro de 2006

Boa ordem



 Já vem de 1928, embora só houvesse tido disso conhecimento num recorte gasolímnico. Relembro agora a boa ordem da circulação antes de prosseguir não sei que rumo.
 Entretanto, enquanto a invernia vai ganhando forma, atino sem querer com o Hudson do sr. Alberto Armando Loureiro Pereira, ao que parece, mesmo por baixo da sua varanda...
 Tudo em boa ordem, portanto.

————
Imagem em Portugal século XX: crónica em imagens, 1ª ed., [Lisboa], Círculo de Leitores. 1999, apud Fórum Auto-Hoje

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Azinhaga do Ribatejo, Golegã

 Lá mais abaixo a casa do escritor Saramago é talo e couves a casa do meu avô lá na terra. Aquela porta com postigo; o degrau à entrada a lembrar que é terra alagadiça; o batente da porta que girava a lingueta do trinco. Até a tinta descascada....
 Passei de raspão pela Azinhaga no dia de São Martinho e achei-a mui florida e arranjadinha, mas... As casas rústicas andam pintadas, não caiadas; a caixilharia de alumínio entrou nas casas porta dentro e pôs-se à janela com estores levantados. Estores nas casinhas rústicas da Azinhaga, imagine-se! Algumas passaram a ter um sobrado, tornando-se aberrantemente type maison. A Azinhaga foi a aldeia mais portuguesa do Ribatejo no concurso de 1938. Agora parece trajar fato de cidade com lacinho meio a despropósito em vez do castiço trajo de lavrador ribatejano. Vede bem que há rotundas num termo e noutro da aldeia.


Azinhaga, Ribatejo (D. Reis, 2003)
Bomba na Rua da Amendoeira, Azinhaga, 2003.
Fotografia: Dias dos Reis.

 Quem procura imagens da Azinhaga na Internete quase lhe só sai o escritor Saramago. Uma que não é ele é esta aldeã junto à bomba de água, parece que na Rua da Amendoeira. Sempre me fascinou o pitoresco destas bombas de puxar água. Em menino esforçava-me por tirar água dando à manivela mas ela fugia-me das mãos quando dava a volta por cima; eu era muito pequeno. Ao depois cresci e resolvi o problema, mas logo me embaraçava perante a destreza das mulheres da terra girando a manivela em grande velocidade com uma só mão e com a outra apoiada na anca. Eu precisava de usar as duas e demorava sempre mais a encher o cântaro.
 E falando agora nisto, nunca vi os homens da terra (ou o meu pai) irem à água...

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Vint' e cinco o celamim

 A Deloitte, esse sucedâneo da Andersen, apareceu com um estudo sobre o Natal descartável.

« Durante a época natalícia, os consumidores portugueses são os que mais gastam em presentes. Cerca de 4% do rendimento das famílias portugueses [sic] é destinado a encher o saco do Pai Natal. Este valor só é ultrapassado pelos consumidores espanhóis
 Vou já a correr e a saltar conformar formatar 4% (nem mais nem menos) do rendimento cá da casa às 15 prendinhas e conto ter tudo embrulhadinho até meio de Dezembro para me não vir a frustração das bichas de última hora. A menos que me dê a parvoeira e me ponha a fazer perguntas tolas sobre a banha da cobra: se os portugueses são os que mais gastam, como são então ultrapassados pelos espanhóis? Quem é que paga estudos destes à Deloitte? Qual o objectivo?

- É comprar, fregueses! É comprar, antes que acabe!



Desenho de Alice Rey Colaço. [Litografia da Papelaria Guedes], Lisboa, [191...], nº 139.

Foi você que pediu um Porto... Sagres?

 O meu bom amigo D. procurou-me há dias se eu conhecia um interessante blogo sobre a cidade do Porto,A Cidade Surpreendente. Não senhor, não conhecia e até lhe disse a propósito que me dava a impressão que cá a este blogo não deveria vir de lá do Porto nenhuma freguesia; pelo menos a julgar pelo pobre retorno de certos postais que publicara já sobre a cidade do Porto.

Porto © 2006 
Rua do Belmonte na esquina com a Ferreira Borges, Porto, 2006.

 Pois bem! Foi em boa hora que o dito amigo D. resolveu mandar-me o atalho para eu atravessar a blogo-estrada até lá. Já o li em boa medida e gostei; por isso vo-lo menciono aqui. Vem acompanhado com uma face oculta de mui pertinente maledicência donde tirei a publicidade enganosa aí à direita [se a não vir, clique na moldura]. O melhor do que cá temos com o pior que nos chega da globalização. Se é para obras, mais valera que dissesse Contubos ou Montal.
 Ele há certas aves de rapina que deviam ser interditas a menos de uma légua dos monumentos nacionais!...


Adenda (às 6h43 da tarde): 1) era como dizia, não há freguesia do Porto; 2) o Olissipo dá-me a impressão que se recentrou ao Carmo e à Trindade; é um novo blogo sobre Lisboa.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

À aldeia chamam-lhe Azinhaga (1)

Saramago, Azinhaga A Azinhaga vem logo ao princípio. Aí segue-se a enxurrada...


 « Foi nestes lugares que vim ao mundo [...] Sem que ninguém de tal se tivesse apercebido, a criança já havia estendido gavinhas e raízes, a frágil semente que então eu era havia tido tempo de pisar o barro do chão com os seus minúsculos e mal seguros pés, para receber dele, indelevelmente, a marca original da terra, esse fundo movediço do imenso oceano do ar, esse lodo ora seco, ora húmido, composto de restos vegetais e animais, de detritos de tudo e de todos, de rochas moídas, pulverizadas, de múltiplas e caleidoscópicas substâncias que passaram pela vida e à vida retornaram, tal como vêm retornando os sóis e as luas, as cheias e as secas, os frios e os calores, os ventos e as calmas, as dores e as as alegrias, os seres e o nada. Só eu sabia [...] que ainda teria de voltar à Azinhaga para acabar de nascer.» (2)

 


 Ufa!...

 É irresistível não ler este trecho em voz alta e tom monocórdico!... Melhor só talvez dividir-lhe as orações segundo a T.L.E.B.S..

 Mas adiante.

 Diz que as pequenas memórias do escritor Saramago lhe andavam na mente há mais de vinte anos. Aposto ser há mais e que as da Azinhaga lhe andam seguramente na ideia desde que ele nasceu; ou talvez mesmo antes disso, pelo que acima julgo ler nas entrelinhas. Melhor assim, não fosse algum espírito vivaz brincar com a ordem do Mundo e pôr a hipótese de elas serem uma boleia à Justa medida do Táxi do sr. Casaca!

 Calhando voltarei cá com pequenas memórias da Azinhaga do escritor Saramago, ou com as minhas. Quais vos menos maçarem...




(1) José Saramago, As Pequenas Memórias, Lisboa, Caminho, 2006, p. 11. Na verdade chamam-lhe a Azinhaga.

(2) Idem, pp. 12, 13.

A fotografia é de
Kungl. biblioteket.

domingo, 12 de novembro de 2006

Fandango


 O meu contraponto natural da célebre versão type maison do Verão de São Martinho que um eminente confrade nos deixou pode ser o Fandango. Oxalá me não leve a mal, que dou a culpa do gracejo à água-pé.


Cavalo Lusitano. Romaria, Golegã (A. n/ id. 2006)
 
Imagens da feira da Golegã em: Feira Nacional do Cavalo. Fandango (1983) em At-Tambur.com -- -- --

 

A justa medida

 Hoje [ontem] revi o rio Almonda pela primeira vez desde há mais de vinte anos. Ia cheio como nunca o eu vira. Bem cheio!
Embarcação no rio (H.C.Barros, c. 1950-60)
 Das férias de Verão na Azinhaga em casa do meu avô guardei sempre do Almonda a imagem dum fio escuro de água que se atravessava num salto enquanto algumas barcas ressequidas apodreciam no lodo. Aprendi em 79 que a aluvião que submergia campos quase todos os anos, banhava os joanetes da Azinhaga de tempos a tempos; mas sempre me custou formar uma imagem daquele rio seco pela estiagem como capaz de tal.
 Na semana passada houve outra vez estradas submersas. Mas hoje não. E hoje vi lá eu o Almonda que enchia a paisagem. Ia bem cheio, pois! Mas só na justa medida.
Embarcação no rio (H.C.Barros, c. 1950-60)
Fotografias de Helena Corrêa de Barros, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

sábado, 11 de novembro de 2006

Quentes e boas

 Carlos do Carmo - O Homem das Castanhas
Bairro Alto, Lisboa (E. Gageiro, 1969)
Bairro Alto, Lisboa, 1969.
Fotografia de Eduardo Gageiro, in
Lisboa no Cais da Memória: 1957-1974, p. 73.

Castanhas e água-pé


Notas:
1) A folhina do Bloco Chic encontrei-a há dias, esquecida, marcando uma página dum livro da biblioteca;
2) O calendário de 1961 coincide com o de 2006;
3) Trata-se da 45ª semana de há 45 anos;
4) A pág. marcada não era a 45.

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Laranjada BB

 Dantes as coisas eram mais simples. Se um objecto tinha um valor, o lógico era esse valor reverter, por exemplo por venda, para o dono da coisa. Subtrair o dito objecto ao seu dono sem a correspondente compensação pelo seu valor seria um abuso, um roubo. Supondo um objecto fabricado com determinado fim, ele há-de ter o valor correspondente à utilidade para que foi criado. A quantificação do valor será — dizem — aquela que o Mercado determinar. E se não servir ao fim para que foi criado nem a qualquer outro, é natural que o tal objecto não valha nada. Então será lixo. Pode desprezar-se (não dar preço), pode deitar-se fora sem mais prejuízo do que o inerente à criação do próprio lixo.
 É das garrafas da laranjada BB que vos falo. Eram elas como todas as garrafas fabricadas para transportar laranjada. Quando eu bebia toda a laranjada BB contida numa garrafa, tal não retirava a utilidade à garrafa. Antes pelo contrário: uma garrafa de BB vazia era 100% útil para transportar laranjada. Daí que o Mercado legitimamente a valorizasse.
 Ora as garrafas de laranjada de hoje são idênticas às da BB, mantendo a mesma a utilidade que havia dantes, para transportar laranjada múltiplas vezes. Porém, depois de esvaziadas uma vez, o Mercado — talvez por nele haver pessoal [teóricos] a mais — determina a inutilidade das garrafas, anulando-lhes assim como que administrativamente o valor. Os donos das garrafas, julgando possuir coisas sem valor, são persuadidos a dar as garrafas ao Mercado sem receberem a correspondente compensação pelo seu valor. Dantes, quando as coisas eram simples, isto seria abuso de confiança, roçando até o peculato, ou não fosse roubo refinado. Agora acho que é lei.

Av. da República, Amadora (G.Nunes, 1965)
Av. da República [toldo com anúncio à laranjada BB], Amadora, 1965.
Fotografia de Garcia Nunes, in  Arquivo Fotográfico da C.M.L.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Mandar no Mundo, para quê...?


O tempo não perdoa!



E por outro lado...



Música a metro com a vantagem suplementar de me recordar o Loucuras (*), no Jardim Cinema, à Pedro Álvares Cabral.

 




(*) Notícia do Loucuras aqui.

A Era do Cliente


 Já lá vai tempo em que a cabeleireira tinha clientes e as vendedeiras tinham freguesas. Era assim e não ao contrário porque arranjar a cabeça era coisa de senhora e ir à praça era mais para criadas. Podeis ver que, por hábito, ser cliente era mais chique que ser freguês, qualidade esta mais próxima da praça ou da taberna (abstraí disto quaisquer paroquianos, que é da religião mercantil que agora tracto).
 Modernamente o hábito é haver estudos e especialistas de toda a sorte: talvez seja resultado de não haver tabernas nem criadas e de ao invés haver muitas ciências (não confundir com muita ciência, e muito menos com douta ciência). A Gestão (vai com letra grande porque se convencionou que é uma ciência) ensina essencialmente - e para lá de tudo o que se diga - a vender com método (leia-se arte e manha, embora o «método» seja o que justifica, afinal, a grafia com letra grande). Ora rebaixar a clientela à qualidade de criadagem não há nunca de aumentar a venda do que quer que seja. Daí o cliente primeiro, expressão que se traduz no seguinte: todo o vendilhão deve tratar os seus fregueses como gente grande. Depois - sabe-se da indústria - a uniformização baixa o custo (mas quase nunca o preço): se ser cliente envaidece e ser freguês é o que já se viu; ser hóspede, passageiro ou depositante, são incógnitas ou até mesmo um perigo. Seriam precisos estudos... Sempre é mais barato (e seguro) uniformizar os cérebros ao mínimo pensamento comum evitando léxico extravagante. Ao ponto inclusive de se inventar que colegas de trabalho são clientes internos. Perguntais para quê? Não sei. Talvez para vender cursos de formação que o esclareçam...

Mercado de Xabregas, Lisboa (E.Portugal, 1939)
Mercado de Xabregas, Lisboa, 1939.
Fotografia: Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

 E eis porque no fim só haverá clientes!


segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Anita La Maltesa

O cenário parece-me algo mais distante que as províncias dalém da Vila Verde de Ficalho. Mas a Maltesa é de figurino. Cá fica por grata sugestão do amigo Cunha Porto, com as minhas desculpas por ser versão de demonstração.


Muito desaconselhado a ministros sem salero.

domingo, 5 de novembro de 2006

Entre Dos Aguas

Aproveitando o excelente mote do Jansenista ou indo mais além...
Haveis de ver se as mãos vos não fogem do teclado para passar a percutir na secretária.



Não aconselhado a ministros sem salero.

sábado, 4 de novembro de 2006

Meter água

 Eu creio que o aquecimento global (e o arrefecimento) não é coisa de agora. Isto das alterações climáticas provocarem situações meteorológicas extremas já vem de trás; é mesmo de antes de haver estudos aos montes e especialistas às carradas. Este estudo do fotógrafo Ferreira da Cunha mostra simplesmente que chuva torrencial e persistente provoca inundações. Mas também acredito que há estudos idóneos que garantem que o fenómeno retratado se deve a danças de certos índios americanos.

Inundações, Lisboa (C.Ferreira, 1946)
Inundações, Campo Grande, 1946.
Fotografia: Ferreira da Cunha, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Atmosfera de 1971

 Paul Ricard cheirando a tinta, amplas garagens (boxes), soberba sala de imprensa, restaurante — diz o locutor.



 Lembro-me  que em 1971 o Mundo me parecia muitíssimo avançado, cheio de maravilhas mecânicas. O meu irmão falava do Concorde que — sei agora — não tardaria naquele ano em voos de demonstração pela América. Aqueles mecânicos no filme, de aro de pua afinando os carros de corridas são a minha inocente imagem da evolução pela mecânica; Tim Shencken desistindo a cinco voltas do fim no G.P. de França por perda de óleo era uma contingência; até demonstrava que estávamos quase lá, na última volta do progresso.
 Há-de haver centenas de outras imagens; cada um acrescente as suas… Mas em 71 o meu mundo brilhava como novo tal como a Fórmula 1 resplandecia no novíssimo circuito do sul de França.



(Publicado originalmente em 3/XI/2006 às 6 e 21 da manhã. Revisto e publicado de novo em 10/IX/21 às 10 para o meio-dia, com reposição do filmezinho. Reposto na data original a dois dias do Natal de 25 à 10 para as onze da manhã.)