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quarta-feira, 8 de novembro de 2006

A Era do Cliente


 Já lá vai tempo em que a cabeleireira tinha clientes e as vendedeiras tinham freguesas. Era assim e não ao contrário porque arranjar a cabeça era coisa de senhora e ir à praça era mais para criadas. Podeis ver que, por hábito, ser cliente era mais chique que ser freguês, qualidade esta mais próxima da praça ou da taberna (abstraí disto quaisquer paroquianos, que é da religião mercantil que agora tracto).
 Modernamente o hábito é haver estudos e especialistas de toda a sorte: talvez seja resultado de não haver tabernas nem criadas e de ao invés haver muitas ciências (não confundir com muita ciência, e muito menos com douta ciência). A Gestão (vai com letra grande porque se convencionou que é uma ciência) ensina essencialmente - e para lá de tudo o que se diga - a vender com método (leia-se arte e manha, embora o «método» seja o que justifica, afinal, a grafia com letra grande). Ora rebaixar a clientela à qualidade de criadagem não há nunca de aumentar a venda do que quer que seja. Daí o cliente primeiro, expressão que se traduz no seguinte: todo o vendilhão deve tratar os seus fregueses como gente grande. Depois - sabe-se da indústria - a uniformização baixa o custo (mas quase nunca o preço): se ser cliente envaidece e ser freguês é o que já se viu; ser hóspede, passageiro ou depositante, são incógnitas ou até mesmo um perigo. Seriam precisos estudos... Sempre é mais barato (e seguro) uniformizar os cérebros ao mínimo pensamento comum evitando léxico extravagante. Ao ponto inclusive de se inventar que colegas de trabalho são clientes internos. Perguntais para quê? Não sei. Talvez para vender cursos de formação que o esclareçam...

Mercado de Xabregas, Lisboa (E.Portugal, 1939)
Mercado de Xabregas, Lisboa, 1939.
Fotografia: Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

 E eis porque no fim só haverá clientes!


10 comentários:

  1. Tudo se harmoniza, Caro Bic Laranja, se pensarmos no sentido de "clientela" originário, o da Roma Antiga: todos os dependentes de alguém mais poderoso. Assim, o empresário estabelecido, digâmo-lo assim, ainda que de forma algo nómada, dá-se a ilusão da grandeza. Abraço.

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  2. Ainda sou freguesa no Sr. Gomes (a tasca da rua ao lado da minha) e cliente no cabeleireiro.
    Imaginei que freguesia tivesse a ver com igreja, mas que a origem da palavra fosse ecclesiae(filho da igreja), isso não sabia.
    Obrigada Senhor Bic e Senhor Priberam. Nada como aprender:)

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  3. Eu também ainda sou freguesa das peixeiras do mercado onde vou.
    "àh freguesa! àh linda! venha cá ver esta frescura!" Continua a ser para mim a melhor maneira de me predispôr a comprar e com um grande sorriso.
    Cumprimentos.

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  4. Bic Laranja8/11/06 19:59

    Ilusão. Aprender. Sorriso. Obrigado pelos vossos comentários. Cumpts.

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  5. mas final qual a diferneça entre cliente e freguês não é a mesma coisa um otraio ou otária paga por um serviço ou um bem a alguem que o presta ou vende

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  6. Bic Laranja8/11/06 20:44

    Não sei, Tron. Nem sei porque não há já passageiros nos autocarros nem hóspedes nos hotéis. Só clientes. Cumpts.

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  7. O que sei é que se calhar a vendedora de peixe de quem a minha mãe é freguesa, certamente a conhece melhor do que muitas donas/gerentes de muitas lojas onde ela é cliente!
    Beijinhos!

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  8. Bic Laranja10/11/06 10:04

    Dá-me cá a impressão que os clientes são 'standardizados' na América e 'assemblados' em linhas de montagem (cursos de gestão e promoção de vendas) por todo o mundo. Fregueses, passageiros hóspedes, depositantes, &c. são pessoas de carne e osso, não lhe parece?
    Cumpts. :)

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  9. Post verdadeiramente inteligente este. Coisa rara na blogosfera.

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  10. Bic Laranja15/11/06 22:12

    Um honroso elogio, tanto mais que vem de um dos tais casos raros. Cumpts.

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