« A notícia de uma turista sueca ter sido alvejada por uma bala perdida enquanto comprava pastéis de nata na Baixa de Lisboa é terrível para a imagem da capital e do País.»
Comprar pastéis de nata começa a tornar-se perigoso. Isto podem ser só,
como sói dizer-se agora, percepções. Mas o perigo de uma internacionalização destas do pastel de nata é uma terrível imagem para o
nosso turismo. Quem no diz é o Director-geral editorial adjunto do Correio. Um
jornalista com um título destes num jornal como o Correio da Manhã é
bem alguém de autoridade.
De aviário, no caso.
Ou não
fosse de um patinho feio que o sr. Director-geral editorial adjunto fala e
logo enobrece em galinha dos ovos de ouro. Duas imagens de aviário muito
manchadas. E logo de sangue. Não de merd mera
titica de galinha que, é sabido, também há cá muita dessa, a manchar a
imagem de numerosas capoeiras avulsas e, por extensão, naturalmente, a imagem toda do
aviário inteirinho em que se esta pateira de patinhos feios tornou.
Porém, não vem essa
merd mancha agora aqui ao caso.
O caso aqui é
outro, cuja imagem manchada também tanta vez de de sangue, o sr. Director-geral editorial adjunto não quere mostrar. Mas vê-se-a na mesma página muito bem…
Já lá vou.
Noutro pasquim li ontem que a senhora
atingida pelo balázio errante na confeitaria dos pastéis de nata foi uma
turista suíça, não sueca.
Pois, suíça ou sueca (calhando,
suíca ou, por desventura sueça) tanto faz. A geografia e os
gentílicos são coisa danada para o jornalismo.
Salvo se forem
portugueses, porque Portugal é acima de tudo um Estado de Direito democrático. E com isso todo o luso noticiário fica claro, limpinho, e até transparente em
quanto à raça dos portugueses no papel de maus nas notícias de bandidagem — de bandidagem a
sério ou de simplesmente bater na avó. Suspeitos, arguidos, reclusos ou
condenados são todos uma raça pegada de portugueses que nada nem ninguém os
distingue quanto à origem, credo ou raça. Assim sendo, muitas vezes até vêm com
nome e morada escarrapachados no jornal, como por acaso é o dito caso hoje aqui.
E
neste caso tem graça; o nome e a morada dizem tudo aquilo que importa sempre
não dizer quando já basta não deixar dúvidas de que o bandido é português e nunca por nunca estrangeiro.
Nenhuma confusão, portanto.
Dito isto, que é bom de entender, a turista sueca
— diz também a notícia do Correio com uma bonita imagem ilustrativa — a turista sueca,
pois, foi levada de maca para o hospital.
Parece-me bem.
Com
uma mulher sueca, ambulâncias são desperdício. Nem pejada estava. Estava era
só a encher-se de bolos.
J. Rodrigues, M. Curado, «Bala perdida atinge turista a comprar pastéis de
nata», Correio da Manhã, 12-8-26, p. 6.
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